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COMENTÁRIOS

Ideias em tempo de crise

16 de Outubro de 2008 por Rui Tavares

Já estou habituado a nunca ter lido nada do Prémio Nobel da Literatura quando ele é anunciado. Invulgar é ter lido neste Verão o último livro do Nobel da Economia.

The conscience of a liberal, de Paul Krugman (em português uma tradução seria “Uma consciência de esquerda”), é um ensaio sobre história política e as suas consequências económicas e sociais. A certa altura do seu livro, Krugman convida-nos a levar a sério algumas das políticas que F. D. Roosevelt seguiu para fazer face à Grande Depressão: “Enormes aumentos de impostos sobre os ricos, apoio a uma vasta expansão do poder dos sindicatos e um período de controlo dos salários para diminuir as diferenças entre extremos”, entre outras. Não duvido de que para um leitor de direita esta seja uma visão do inferno. Para Krugman, aquelas medidas “igualitárias” foram as grandes responsáveis por uma sociedade preparada para crescer e dar conforto a milhões de pessoas nos anos 50 e 60.
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É preciso ter lata

14 de Outubro de 2008 por Rui Tavares

Não tenho qualquer razão para defender os executivos, mas não – a culpa da crise não está na “ganância dos executivos”. Os executivos não são mais gananciosos do que qualquer outra pessoa em circunstâncias semelhantes. As suas empresas agem no interior de um sistema legal. Quem fez as leis ou – mais exactamente – quem revogou as leis que nos protegiam? Políticos. Quem elegeu os políticos? Nós.

Quem convenceu a maioria dos eleitores de que regular o mercado era indesejável? Os mesmos que agora querem pôr as culpas na “ganância dos executivos”. Por sinal, os mesmos que durante anos proclamaram (por outras palavras) que a “ganância dos executivos” iria resultar na prosperidade de todos.

Já ouviram algum deles dizer: “Andei nos últimos anos a defender ideias que agora se revelaram desastrosas”? Bem me parecia. Falar da “ganância” é fácil e inconsequente, porque jamais se poderá abolir a ganância. Podemos no máximo taxá-la com um imposto fortemente progressivo. Isso é que era falar.
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À beira de um disparate

9 de Outubro de 2008 por Rui Tavares

Aminha última crónica poderia resumir-se assim: quando falamos da igualdade de acesso ao casamento civil não estamos perante os “direitos dos homossexuais”. Estamos perante uma coisa diferente: direitos dos cidadãos, que têm sido vergonhosamente negados aos homossexuais. A questão de princípio, para mim, está toda aqui. Escrevi essa crónica sem mencionar a palavra “partidos”. Hoje falaremos de táctica partidária e, em particular, de como o PS se prepara para cometer um grande disparate ao obrigar os seus deputados à disciplina de voto contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
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Que globalização é irreversível?

2 de Outubro de 2008 por Rui Tavares

As palavras nunca são inteiramente claras nem constantes, mas ainda assim teimamos em sustentar anos de discussão em cima delas. Vejamos a palavra “globalização”, de que se falou estes anos todos. Tinha três características: era uma coisa; era recente; era irreversível.

Em primeiro lugar, a globalização não é só uma coisa. Há a globalização financeira e a dos mercados, que é a de que se fala. E há outra, porventura mais importante, que é uma globalização comunicacional e tecnológica.

A globalização económica não é recente e muito menos irreversível. O mundo não é plano nem cada vez menor: basta aumentar o preço do petróleo e lá fica ele maior outra vez. Basta mudar a lei e lá fica ele proteccionista outra vez. No século XVIII era possível atravessar a Europa sem passaporte e demorámos duzentos anos até poder fazê-lo de novo. Antes da I Guerra Mundial o mundo era mais globalizado do que foi durante quase todo o século XX. Há um século havia mais emigrantes no mundo, proporcionalmente, do que há hoje em dia (só que eram europeus na América e África, e não o contrário).
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Luz sobre Lisboa

30 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

Segundo o UrbanAudit, serviço da UE, Lisboa é a cidade média/grande mais desvitalizada de toda a Europa a 27. Não há notícia, em toda essa Europa, de um parque habitacional tão fragmentado — excepto em pequenas cidades romenas que perderam a indústria mineira. Lisboa perdeu, em trinta anos, trinta por cento da população. Para os leitores do resto do país que podem estar fartos de ouvir falar da capital, pensem nisto como um caso extremo dos problemas que podem afligir também as vossas cidades.

Tal como uma cidade saudável pode ser o motor do renascimento de um país ou região, uma cidade encalhada é um obstáculo a mais para a sua recuperação. A criação de uma política urbana, sistemática e bem articulada, deveria estar na prioridade da agenda nacional. Mas a cultura política dominante tem sido exactamente a oposta: a do casuismo como forma de acção. Um caso recente é o emblema do que acabo de escrever.

A notícia de que a Câmara Municipal de Lisboa andou, durante sucessivas vereações, a distribuir casas de forma arbitrária, ao serviço da cunha e do episódio individual, é evidentemente um escândalo político. É até mais do que isso: o símbolo do tempo desperdiçado e dos recursos mal empregues que poderiam ter sido usados para benefício da cidade. Ler o resto »

Não é defeito, é feitio

25 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

Vamos fazer um exercício. O cidadão informado poderia estar a par da bolha do imobiliário há, pelo menos, dois anos. Bastaria ler a imprensa. Uma capa já antiga da The Economist trazia a imagem de uma casa em queda; lá dentro, a única questão era saber se o embate iria ser mais suave ou mais brutal.

 

Explorando um pouco mais, encontraria economistas como Dean Baker, que escreveu sobre isto há seis anos; Nouriel Roubini, que acertou em todas as etapas da crise; ou o já falecido Hyman Minsky, que descreveu teoricamente o que se está a passar.

Então e os gestores dos grandes bancos de investimentos — os cinco maiores dos quais faliram, foram vendidos ou mudaram de ramo nos últimos dias — não sabiam o que se estava a passar?

Não me cheira. Além de serem pagos a peso de ouro, trata-se de gente inteligentíssima. A questão é que não tinham incentivo para agir de outra forma; ou, conversamente, não havia punições adequadas para deixar de agir assim. Não — é pior ainda: tinham incentivos para agir como agiram.

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Gestor Pangloss

23 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

Enganados de novo. Andámos durante estes anos a aturar os consultores da Merryl Linch, os gestores da Lehman Brothers, os génios financeiros da Goldman Sachs – para vermos, numa só semana, que nem da casa deles sabem cuidar. Quantas vezes os ouvimos dizer que tínhamos de “desregular”, ou que havia controlos demasiado “rígidos” sobre o mercado, ou que não tínhamos dinheiro para pagar saúde aos cidadãos, ou a universidade aos estudantes, ou que os privados fariam melhor com as nossas pensões de reforma? Pois bem, o contribuinte americano deve estar bem lixado, neste momento, ao ver que o dinheiro que não havia para reparar pontes e diques já terá que aparecer para safar todo o sistema financeiro desregulado.
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Rendas congeladas e casas congeladas

18 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

Na última crónica, vimos que no imobiliário não há apenas um mas dois mercados. O primeiro é o de investimento em imobiliário; o segundo é o de casas para habitar. O mercado do investimento em imobiliário – inteiramente legítimo, diga-se – não se comporta de forma muito diferente de, por exemplo, o mercado de investimento em arte. Por muito importante que ele seja, o segundo mercado – o de casas para habitar – é mais importante. É de primeira necessidade para as pessoas, que precisam de casa para viver. E é de primeira necessidade para as cidades que, quando se esvaziam, se degradam e apodrecem por dentro.

Se caminharmos vinte minutos pelo centro da cidade, veremos que os prédios estão vazios, e que isto é um risco que não podemos correr. A semana passada ardeu mais um prédio devoluto na Rua da Madalena.

Recentemente apareceu o argumento de que as pessoas não querem viver na Baixa porque as casas não têm elevador nem lugar de estacionamento. Isto não faz sentido.

Amesterdão ou Paris estão cheias de casas sem elevador que são avidamente ocupadas. As casas aqui na Graça não têm elevador e vendem-se ou alugam–se rapidamente. Há muita gente que moraria na Baixa, mesmo sem elevador ou lugar para estacionar: estudantes, jovens casais, profissionais independentes, classe média urbana e educada. Não o fazem porque, apesar do mercado de casas para habitar ser mais importante, o mercado de investimento imobiliário é que manda nos preços.
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Os dois mercados

16 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

A aliança que governa Lisboa ampliou-se para incluir Helena Roseta. Ao assumir a estratégia para a habitação, ela não é só uma vereadora qualquer; tornou-se num elemento crucial do poder na cidade, parte do problema e (esperemos) parte da solução. É bom ter alguém com um perfil forte e responsabilidades políticas na área da habitação – provavelmente “o” problema que mais precisa de ser repensado agora.

Durante muitos anos o congelamento das rendas tem sido apresentado como um dos grandes culpados pelo esvaziamento do centro, e pela correspondente degradação dos prédios. É uma explicação plausível, e que aceito em grande parte.

Mas as rendas baixas já não podem ser explicação para todos os casos.

Há hoje, numa cidade como Lisboa, centenas de prédios vazios que não são vendidos nem alugados. E há alguns bons milhares de prédios com apenas um ou dois inquilinos e quatro, seis ou oito apartamentos por alugar ou vender. Assinalando que estou apenas a falar destes casos, a “canga” das rendas congeladas já não permite entender por que não aluga o senhorio os apartamentos que estão livres, ou por que não os vende.
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Interesses e valores

13 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

Na semana passada, em Berlim, realizou-se um debate sobre a Europa com a presença de Mário Soares, o ex-director-geral da UNESCO Federico Mayor Zaragoza e o ex-chanceler austríaco Wolfgang Schüssel, entre outros. Mas não pode haver um debate sobre a Europa que não seja também sobre os EUA, e assim foi.

Há qualquer coisa bizarra no senso comum sobre a União Europeia e os EUA. Por um lado, é comum enfatizar a União Europeia ter um interesse comum. Por outro lado, é costume dizer que a UE e os EUA têm os mesmos interesses. Isto é paradoxal: se a UE não é homogénea o bastante para ter interesses comuns, como pode a aliança ainda mais heterogénea com os EUA ter interesses comuns tão evidentes?
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Perguntem-lhe como se faz

10 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

 

É cantora de R’nB. É directa no ataque: “quero ver o que Sarah Palin tem para dizer sobre economia e relações internacionais, e não o que escreveram para ela dizer”. O nome dela é Maryline Blackburn. É apoiante de Obama. E é a Miss Alaska que derrotou Sarah Palin no concurso de 1984.

Uma coisa chamada realidade

9 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

Na última crónica escrevi que “as ideias, mesmo as mais elementares, têm consequências”. É bom explicar o que esta frase não é (repito: não é). Não se trata de uma qualquer sugestão de que as ideias, nomeadamente em política, não precisem de ter qualquer relação com a realidade. Pelo contrário, as ideias são tanto melhores quanto encontram uma forma melhor de se relacionar com a realidade: uma forma mais interessante, ou inteligível, ou rica, ou simples. Mas nunca deixam de ter consequências. As ideias péssimas, é claro, também têm consequências: consequências péssimas. A esquerda passou boa parte do século XX a descobri-lo da pior maneira.
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Mais “novo progressismo” e uma campanha pouco séria

4 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

As ideias, mesmo as mais elementares, têm consequências. Em política, sobretudo as mais elementares têm consequências, pela facilidade com que se convertem em narrativas e se cristalizam no espaço público.

As ideias dominantes dos últimas trinta anos têm sido estas: o mercado tende “naturalmente” para o equilíbro, o sector privado é sempre mais eficiente do que o público, a concorrência produz transparência, o governo só serve para atrapalhar, a prosperidade “pinga” do alto se diminuirmos os impostos aos mais ricos, etc. Todas, sem excepção, nos eram dadas como evidentes. Todas, sem excepção, estão hoje em dúvida, seja quando empresas privadas coleccionam (e perdem) dados privados de milhões de indivíduos, seja quando o estado gasta no salvamento de grandes bancos o dinheiro que não havia para a comunidade.

Em momentos assim, mudam as marés. Com as marés mudam as ideias e as histórias que as acompanham. Em plena Grande Depressão, Franklin Delano Roosevelt fez em 1932 o seu discurso do “Homem Esquecido”, que partia de uma ideia simples. Era também uma história: a desgraça de Napoleão, dizia ele, foi preocupar-se apenas com a cavalaria, que dava mais rendimento, e desprezar a infantaria — os homens comuns que o seguiam a pé e que eram, no fundo, o seu exército. Muita gente vai dizer coisas destas nos próximos tempos. A semana passada, Obama disse que a economia não se resumia às empresas da Fortune 500 (a cavalaria) mas que era o conjunto de todas as casas e todas as pessoas comuns (a infantaria). Um dos espectadores chamados ao palco, um desempregado de sessenta anos chamado Barney Smith, disse “preciso de um governo que ponha o Barney Smith à frente do Smith Barney”. O “Smith Barney” é um grande banco de investimentos: foi o maior aplauso da noite. Ler o resto »

O que é o “novo progressismo”

2 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

Vocês decidam-se, pá. Ou Obama é um político de plástico, ou Obama é demasiado radical. Ou Obama não quer saber da Europa, como diz Vasco Pulido Valtente, ou Obama cometeu um crime de lesa-pátria ao discursar para 200 mil pessoas em Berlim, como diz a direita americana. Ou Obama é um risco demasiado grande num mundo perigoso, ou não há risco, porque nenhum presidente consegue mudar a política internacional dos EUA (e como se explica Bush?). Ou Obama é um intervencionista ou um isolacionista (nenhuma das duas: em política internacional parece ser mais institucionalista e multilateralista do que é comum nos EUA). Ou o pessoal vota em Obama só por ser negro, ou por ele ser um intelectual com ideias a mais. Ou a esquerda europeia é cega no seu antiamericanismo, ou a esquerda europeia está cega na sua paixão por Obama. Não pode ser tudo verdade ao mesmo tempo.

Mas provavelmente a explicação para as contradições está nisto mesmo: a preocupação não é com o que está a acontecer, mas em reagir à reacção da esquerda europeia. É uma lástima, porque o que está a acontecer é mais interessante.

Obama é mais do que um candidato histórico por ser negro. O que ele fez na semana passada foi propor a reinvenção de uma tradição política: a do progressismo americano.
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A sede tem destas coisas

28 de Agosto de 2008 por Rui Tavares

No blogue da ex-revista Atlântico, Miguel Morgado escreve um interessante post de resposta ao meu comentário “Roosevelt contra Roosevelt” aqui abaixo. Começa assim:

«Aqui, Rui Tavares assume-se como um “obamaníaco”. O facto em si mesmo não merece qualquer comentário. Mas, para dar um ar erudito, retrata o confronto entre McCain e Obama como um confronto entre os dois Roosevelts que ocuparam a Casa Branca. »

Começo por um apontamento de estilo.

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Roosevelt contra Roosevelt

28 de Agosto de 2008 por Rui Tavares

É justo anunciar à partida que sou um obamaníaco e não avalio as eleições americanas com equidistância. Mas ganhei também o direito de me gabar: até agora tenho acertado aqui nas minhas previsões para as eleições americanas. Em pleno escândalo do reverendo Wright, sob a impressão geral de que a candidatura de Barack Obama acabara de ser destruída pelo seu desbocado pastor protestante, uma decisão do Partido Democrata sobre as primárias da Florida e do Michigan acabara (do meu ponto de vista) de lhe possibilitar a vitória. Pouco depois, houve um sobressalto geral com a ponta final de Hillary Clinton, numa altura em que me parecia que na verdade Obama já tinha essa vitória na mão.

Isso foi nas primárias democratas; agora estamos na campanha para as eleições gerais e o candidato republicano, John McCain, acabou de ultrapassar Obama nas sondagens. A percepção geral é a de que Obama está em queda quando deveria estar muito à frente. É mais uma vez o momento indicado para relançar o meu palpite: salvo escândalo ou guerra, continuo a apostar numa vitória de Obama.
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Para Marco Fortes

26 de Agosto de 2008 por Rui Tavares

Oh meu Zeus, meu Zeus, vejam como estou indignado. Estou indignado, indignadíssimo!, com Marco Fortes, atleta português do lançamento do peso. Ao comentar o seu fraco desempenho nos Jogos Olímpico, Marco Fortes reconheceu que o seu corpo não responde tão bem de manhã: “de manhã é para estar na caminha — eu queria esticar as pernas mas elas só queriam estar na caminha”. Que é isto?! Em toda a minha vida, só ouvi um português dizer que “de manhã não funciono”: Sousa Franco. E foi preciso ter sido ministro das finanças duas vezes, presidente do tribunal de contas — um homem sério, portanto — para poder afrontar esse tabu.

Mas Marco Fortes fez pior: ainda teve o descaramento de sugerir aos outros atletas que valia a pena trabalhar para ir a Pequim, aos Jogos Olímpicos, pela “experiência”. O ultraje, o ultraje! Quem se julga este badameco para sugerir que participar num belíssimo evento desportivo, com atletas de todo o mundo, é uma boa experiência? Algum apóstolo do espírito olímpico?

Não sabe ele que o importante é só ganhar, ganhar pela pátria e pelos contribuintes que lhe “deram” uma bolsa, honrar a pátria e os contribuintes, dizer banalidades pela pátria e pelos contribuintes, ter juizinho pela pátria e pelos contribuintes?
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Arcos dourados

21 de Agosto de 2008 por Rui Tavares

A guerra entre a Geórgia e a Rússia não destruiu só vidas, edifícios e esperanças. Destruiu também uma teoria – uma teoria tola, mas com muitos seguidores.

Foi o colunista Thomas Friedman, do New York Times, que lhe deu o nome de “Teoria dos Arcos Dourados da Prevenção de Conflitos”. Na sua forma caracteristicamente simplista, resumiu-a assim: “Nunca dois países onde há lojas de hambúrgueres da McDonald’s entraram em guerra.” Os arcos dourados que são o logótipo da marca seriam assim um símbolo de paz e prosperidade. Um símbolo de paz por causa da prosperidade, e um símbolo de prosperidade por causa da paz – mas mais a primeira do que a segunda.

Ora acontece que tanto Moscovo como Tbilissi têm restaurantes McDonald’s. Os arcos dourados das hamburguerias na Geórgia e na Rússia não impediram que os dois países entrassem em guerra.
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Arbitrariedades de conveniência

19 de Agosto de 2008 por Rui Tavares

No Verão passado, o grande escândalo era se podia ou não vender-se bolos com creme nas praias sem refrigeração dos produtos. Seis meses depois, era a Lei do Tabaco que nos trazia o totalitarismo higiénico. Uma menção, por parte do Presidente da República, aos salários dos gestores privados foi “populista e demagógica”.

A semana passada, um agente da GNR baleou e acabou por provocar a morte a um rapaz de treze anos. Qual é a resposta dos mesmos comentadores que vêem em tudo a intromissão inadmissível do estado? Perguntar o que estava a fazer o rapaz no caminho das balas.

Faz sentido: afinal não saiu prejudicada a propriedade privada de ninguém. Pelo contrário, o pai e o tio do rapaz é que o levaram para roubar uns ferros de uma vacaria. Ferreira Fernandes, no DN, escreveu que “o que me preocupa mais no meu país é que haja um pai e um tio que levam um garoto de 13 anos para um assalto”. O editorial do DN considerou que a atitude dos parentes da criança “é que deveria ser tema de indignações e discussão”. A primeira pergunta que Helena Matos — que tanto se escandalizou com a opressão às bolas-de-berlim com creme — se lembrou de fazer num blogue foi esta: “independentemente de tudo, ninguém é responsabilizado por levar uma criança para um assalto?”
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Brasileiro salva TAP?

14 de Agosto de 2008 por Rui Tavares

Na edição de ontem do PÚBLICO, nesta secção aqui ao lado onde se regista o “sobe e desce” quotidiano, a primeira referência levava uma foto com Fernando Pinto, da TAP, por causa de um estudo que considera que a companhia que ele administra era uma das poucas que iriam sobreviver à crise, em meia centena de trasportadoras aéreas europeias.

O título não era “Brasileiro salva a TAP”. Seria absurdo. Fernando Pinto vem do estado do Rio Grande do Sul, mas não é por ser brasileiro que salva a TAP – se a salvar, evidentemtente – e, conversamente, não é qualquer brasileiro que consegue fazer o mesmo que ele faz.

Outros títulos possíveis: “brasileira traz café à mesa quatro!” – “paciente afirma que cárie foi tratada por brasileiro” – “brasileiro assenta tijolo em prédio novo”. Todos igualmente absurdos – verdadeiros enquanto facto, ridículos enquanto notícia. Talvez interessantes enquanto estória, mas absurdos enquanto explicação.
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