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COMENTÁRIOS

Combater a abstenção

10 de Abril de 2009 por André Levy

No intenso período eleitoral que se aproxima, as eleições para o Parlamento Europeu virão em primeiro lugar, no dia 7 de Junho. Isto deve causar alguma preocupação a qualquer pessoa consciente da importância dos três actos eleitorais deste ano. Embora seja três actos isolados (apesar da persistente incerteza se as autárquicas serão agendadas para o mesmo dia que as legislativas – um erro na minha opinião), seria ingénuo pensar que os resultados do primeiro acto eleitoral não irá ter um profundo efeito no clima político que irá preceder os dois actos seguintes. Isto faz com que estas eleições para os deputados no Parlamento Europeu (PE) tenham um importância acrescida. A preocupação advém da forte taxa de abstenção que se tem verificado nos últimos actos eleitorais para o PE, nos últimos 3 sempre acima dos 60% (ver gráfico).

taxa de abstenção nas eleições portuguesas para o PE

Vários têm sido os factores apontados para estas altas taxas de abstenção: a falta de conhecimento sobre as actividades do PE, o poder relativamente limitado do PE face à Comissão Europeia (que não é eleita directamente pelos cidadãos europeus), a percepção (errada) que as decisões em Bruxelas e Estrasburgo têm pouco impacto na vida nacional, etc. Ler o resto »

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A única eleição que não é vital

15 de Março de 2009 por Tiago Mota Saraiva

Num ano com três eleições em seis meses, europeias e legislativas não poderão ser pensadas de uma forma isolada. Só à luz desta ideia se poderá se poderá compreender a escolha de Vital Moreira para cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu.
Não sendo um homem do aparelho (como seria Lello) ou do governo (Amado), a escolha de um indefectível de Sócrates em todas as áreas e de todos os feitios, parece uma inabilidade política, mas até pode não o ser. O tradicional, no PS, recurso a uma figura histórica (Ferro), ainda terá sido tentando mas foi abandonado em benefício de outra estratégia.
Sócrates sabia que, independentemente do cabeça de lista apresentado, seria muito difícil para este demarcar-se das questões de fundo da governação, ao ponto de não ter qualquer reflexo eleitoral.
Neste sentido, Vital, é o candidato ideal para averbar um mau resultado nas europeias que não prejudique a votação nas legislativas (são reveladoras as declarações de Santos Silva ao DN/TSF, ao assumir que o PS não pedirá a maioria absoluta nas eleições europeias).

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Maioria Não, Absoluta Nunca

6 de Março de 2009 por Tiago Mota Saraiva

Com o aproximar das eleições legislativas começa o discurso recorrente da necessidade da maioria absoluta. PS e PSD, dependendo de quem está melhor colocado, inicia a gritaria sobre os perigos da instabilidade política, da crise, da ingovernabilidade…
Os patrões e outros mandatários da alta finança dão uma ajuda anunciando o caos se, ora PS ora PSD, não conseguirem a absoluta, pois as suas negociatas são bem mais fáceis de tratar com um único interlocutor. Nada de novo.
O que me parece novo, é este sentido de sobranceria e impunidade que leva um partido com maioria absoluta a chumbar, sozinho, propostas que mais tarde transformará em bandeiras da sua campanha. Aconteceu isto com o casamento de pessoas do mesmo sexo e, quer-me parecer que sucederá, com as taxas moderadoras na saúde.

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Chico e Caetano: juntos e ao vivo

25 de Setembro de 2006 por Rui Tavares

Antes de fechar o meu dia e passar as chaves ao António Figueira, tempo para falar das eleições brasileiras, que são já este domingo. Se eu fosse brasileiro, não votaria em Lula; a naturalidade com que os líderes do PT encararam a corrupção no seu próprio partido e no sistema político brasileiro não pode ser premiada com uma eleição à primeira volta. Tampouco votaria em Alckmin ou em Heloísa Helena. O meu voto iria para Cristóvam Buarque, ex-ministro da Educação nos primeiros tempos do governo Lula, que foi afastado à bruta, acusado de ser irrealista, pelos mesmos pragmáticos e realistas (desde logo, José Dirceu) que depois prestaram à democracia o belo serviço do “mensalão”.

As declarações que se seguem pertencem a entrevistas de Chico Buarque e Caetano Veloso à Folha de São Paulo e à Carta Capital. O primeiro vai votar em Lula, o segundo talvez vá votar em Cristóvam, o “meu” candidato (percebe-se pelas entrelinhas quando Caetano diz que ainda é Brizola; Cristóvam é candidato pelo PDT, partido fundado por Brizola). No entanto, concordo com muito do que diz Chico Buarque, nomeadamente em relação à agressividade contra-producente com que Lula tem sido tratado pela “elite” brasileira (a Veja, único título brasileiro que é distribuído regularmente em Portugal, é o exemplo acabado). Enfim; na arte como na política, vale a pena ler Chico Buarque e Caetano Veloso em conjunto. Os estilos são diferentes, as conclusões também, mas os conteúdos iluminam-se um ao outro.

Chico Buarque:

«É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido, esse escândalo é desastroso. O outro lado da moeda é que disso tudo pode surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro (risos).
Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil é preciso dizer ‘espera aí’. Quando aquele senador tucano canastrão diz que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante – aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar as coisas, sim. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas. A gente sabe que a corrupção no Brasil está em toda parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente ele, fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover…
Preconceito de classe
O preconceito de classe contra o Lula continua existindo – e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: ‘Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?’. Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! – até assassino eu já ouvi. Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram Lula assumir. ‘Agora sai já daí, vagabundo!’. É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu o luxo de ocupar a Casa Grande. ‘Agora volta pra senzala!’. Eu não gostaria que fosse assim.
Eu voto no Lula!
A economia não vai mudar se o presidente for um tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas o país deu um passo importante elegendo Lula. Considero deseducativo o discurso em voga: ‘Tão cedo esses caras não voltam, eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas’. Acho tudo isso muito grave.

Hoje eu voto no Lula. Vou votar no Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: ‘Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa-sacos’. Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes dele tomar posse, num encontro aqui no Rio.
Sobre o PSOL [de Heloísa Helena]
Percebo nesses grupos um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o adversário do Lula.
Papel da mídia
Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais.»

Caetano Veloso:

«”FOLHA – Ao contrário de Chico Buarque, você já disse que não votará em Lula. Por quê?

CAETANO – Não vou. Não me arrependo de ter votado nele, mas sou contra a reeleição. Não votei pela reeleição de Fernando Henrique, que nos deu de presente oito anos de esquerda marxista da USP. E como eu já estou com 64 anos e ele e Lula são a mesma coisa, eu acho que seria demais 16 anos com essa turma.

FOLHA – O sociólogo Gilberto Vasconcellos se referia a “essa turma”, que veio a se dividir entre PT e PSDB, como a coalizão CUT-USP-Fiesp…

CAETANO – Eu acho essa expressão dele totalmente certa.

FOLHA – Em quem você vota?

CAETANO – Não sei em quem vou votar. Não gosto de votar nulo. Eu preferiria que Lula pelo menos não fosse eleito no primeiro turno.

FOLHA – Como você vê o escândalo do mensalão?

CAETANO – Eu acho que foi realmente vergonhoso e ruim. Há uma certa regressão no país -que fez o impeachment de Collor- quando se passa uma esponja no escândalo do mensalão. Lula e o PT afastaram os acusados, Lula se disse traído, mas a cada solenidade de despedida dos que cometeram delitos levantou a voz para dizer loas morais a essas figuras. E pôs a culpa num possível complô das elites através da mídia, o que eu acho completamente incongruente. Eu não sou burro, nem maluco, então não vou votar nele. Votei em Lula contra Collor no segundo turno, mas meu candidato não era ele. Era o Brizola. E continua sendo (risos). Na última eleição, eu achei que era a hora de um operário chegar ao poder, de o PT enfrentar a realidade e de se desmistificar tudo isso. Se o Serra tivesse ganhado, ele, que é um excelente candidato, seria massacrado por essa mitologia do Lula, da esquerda e do PT. Quando justifiquei meu voto em Lula, disse que esperava que ele fosse empossado, que governasse e que passasse a faixa para outro. Continuo pensando da mesma maneira.

FOLHA – É como naquela canção: “Mamãe eu quero ir a Cuba e quero voltar”?

CAETANO – Exatamente. E eu cantei isso em Cuba.

FOLHA – Por que há essa leniência em relação ao escândalo?

CAETANO – Eu acho que é por causa da esquerda. A esquerda é como torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu sou um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de Justiça. Mas vejo freqüentemente que a esquerda é quem mais ameaça essas coisas que me levaram a me aproximar dela.»

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