O Cão de Hitler

O regime nazi foi o primeiro regime do mundo a reconhecer os direitos dos cães. Em 1933, Hitler abriu Darau, o primeiro campo de concentração, perto de Munique, tendo como prisioneiros os dirigentes comunistas, trotskistas e social-democratas e líderes dos sindicatos. Avisou publicamente num famoso discurso, ainda em 1933: «No novo Reich nunca mais se permitirá a crueldade com os animais». Em 1934 proibiu a caça. Em 1937 regulou o transporte de animais por estrada e, em 1938, o de comboio, para que os animais fossem transportados em condições decentes. Os mesmos vagões onde os judeus iriam como porcos a caminho da morte. Hitler proibiu ainda as experiências científicas com animais mas fez experiências com judeus, acusados de ser não-humanos por praticarem uma medicina que usava os animais como experiências.

Uma boa parte desta ideologia não foi imposta, mas abraçada pelos alemães, convencidos, em manifestos, panfletos, debates, comícios, de que havia uma relação especial dos alemães com a natureza (sob o lema Sangue e Terra).

A famosa petição que por aí circula podia não ser um tema importante. Mas é. Porque ela é uma atitude política de um movimento social determinado, que encerra em si um modo de estar na vida que querem impor, totalitariamente, aos outros. Não são nazis, claro. Mas se soubessem de história perceberiam que a história é um comboio em que entramos sem saber o destino. Por agora esta não é uma ideologia do Estado. É (ainda) um movimento ultra reaccionário, que inclui a construção de um ideário místico com a natureza, a rejeição do progresso como culpado pelos males do capitalismo, o apelo ao vegeterianismo. A prova disso é que na maioria dos comentários dos seus defensores, na larga maioria, quem os critica, recebe como resposta que é «um humano com menos valor que os cães», que «o único amigo verdadeiro é o cão». Ou seja, é filosoficamente rebaixado a não-humano, no mesmo argumentário em que o cão é promovido a humano.

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13 Responses to O Cão de Hitler

  1. Generalização abusiva e intelectualmente desonesta.

  2. bife says:

    o NSDAP foi o primeiro partido ecologista no mundo e o mesmo Hitler tornou-se vegan por respeito aos animais.

  3. silva says:

    Os governos PS e PSD/CDS são os maiores, contribuintes para o crescimento do desemprego ou seja o estado empobrece os povos, conseguem roubar aos desempregados 6% mas resolver na justiça os despedimentos já não há urgência, pois o estado é a favor dos maus empresários e da corrupção no relvado governamental. NAZISMO PURO estão a matar o povo sem tiros e ainda aceitam esta gente nos governos.

  4. Pingback: A propósito de cães e luta de classes – Aventar

  5. José Sousa says:

    Muito obrigado pela parte que me toca. Felizmente tenho a mesma opinião que o reaccionário Francisco Louçã.
    Já agora fique a saber que este reaccionário é leitor assíduo da revista “Rubra”.
    Tenho a certeza que este maravilhoso texto vai ser citado em todos os blogues e facebooks da direita progressista, tal como o do seu “camarada” Daniel Oliveira.

    • Raquel Varela says:

      José, pois deve continuar a ser leitor da Rubra. O Coletivo que edita a Revista Rubra tem mais duas dezenas de redactores na revista e por lá não temos pensamento sobre este tema. Na verdade não faço a mínima ideia do que pensa a Rubra sobre este tema. Nós como colectivo não temos opinião e se tudo correr bem (e este movimento não virar algo importante) não vamos precisar de ter. Na Rubra cada um come o que quer, dorme com quem quer, veste-se como quer, toma banho ou não, anda de bicileta ou patins. Porque por lá estas coisas são consideradas modos de estar na vida que cada um opta, sem impor aos outros, militantemente. Como sabe o Bloco de Esquerda e o Partido dos Animais são as duas únicas organizações, tendências políticas, que acham que os direitos dos animais são um tema importante da nossa sociedade, ao ponto do seu líder ter assinado a petição, esforçando-se por agradar aos eleitores e não chocar as pessoas que têm bom senso. É um texto genial o de Francisco Louçã, porque defende um absurdo com argumentos sensatos. A mim não me convenceu, mas eu já não votava no Bloco mesmo. A vida como ela é:)

  6. ana cristina leonardo says:

    O Hitler era vegetariano. Tinha um cão. E, então? Eu tenho uma filha vegetariana e uma cadela pastora-alemã. E, então? Já agora, se tivesse de escolher entre matar o Hitler ou o cão do Hitler, quem mataria?

    • Raquel Varela says:

      Bom dia estimada Ana Cristina
      E demais comentadores que se viram individualmente ofendidos com o meu post:

      Eu tenho 3 cães, recolhidos num canil de cães abandonados, doces, proibidos de entrar em casa (estão numa casa de família com jardim) e comem restos. São cães, animais, nem mais nem menos. Não são o centro dos nossos afectos nem o lugar das nossas batalhas.
      Lá por casa divertimo-nos com eles, damos longos passeios, atiramos a bolinha, como nos filmes de Hollywood. Mas são cães, uma espécie bastante inferior à nossa e, para nossa felicidade, por nós domada. Porque ser humano é em primeiro lugar dominar a natureza para a colocar ao serviço do progresso (pena que neste mundo, do progresso, só uns quantos humanos, os humanos capitalistas, dele usufruam!).
      Ninguém está aqui a discutir o que nós somos individualmente, o meu cão ou o seu, nem o que pensaram como indivíduos os que assinaram a dita petição. Estamos a dizer, estou a dizer, que uma petição, dar a cara por a ter assinado, a militância (e que militância, que devoção!) por ela na divulgação, é um acto político colectivo e que as nossas acções políticas colectivas – assinar uma petição – têm consequências políticas sociais. Quem o fez pode tê-lo feito por milhares de boas razões, mas, como dizia o velho Marx, que achava e bem o progresso extraordinário e o trabalho o modo de nos tornar superiores aos animais, o inferno está cheio de boas intenções. Esta petição é uma atitude política colectiva. Que, quer tenham ou não disso consciência, é ultra reaccionária.
      Devo aliás dizer que não estou em campanha eleitoral, como o Bloco de Esquerda. Por isso acrescento uma nota ainda para espanto dos nossos queridos individualistas. Estou convencida que a maioria das pessoas que assinou a petição não percebe nada de história nem de política, e actua sobre modas, como o cão de Pavlov. Isso faz-me ter esperanças na humanidade. A moda é que a natureza está na moda (porque o capital tem recuperado das crises à custa da economia verde, ou seja, de transferência de impostos para as empresas privadas “limpas”). Se a moda fosse a dívida pública ou o desemprego, teriam assinado na mesma. Mas nenhum dos temas está na moda, de facto.
      Quem tem responsabilidades políticas é que é culpado desta explosão de militância radical à volta da petição e devia assumi-las e pensar dois minutos no que faz. Mas claro, todos vão dizer que assinaram a petição porque foi a sua “escolha individual”, a sua “liberdade individual”, pessoas bem informadas, que actuam pela sua cabeça, não se deixam ir em qualquer cantiga, sabem tudo sobre as proteínas da ervilha e a bondade dos cães.

  7. jms says:

    The Myth of Human Progress
    by Chris Hedges

    Clive Hamilton in his “Requiem for a Species: Why We Resist the Truth About Climate Change” describes a dark relief that comes from accepting that “catastrophic climate change is virtually certain.” This obliteration of “false hopes,” he says, requires an intellectual knowledge and an emotional knowledge. The first is attainable. The second, because it means that those we love, including our children, are almost certainly doomed to insecurity, misery and suffering within a few decades, if not a few years, is much harder to acquire. To emotionally accept impending disaster, to attain the gut-level understanding that the power elite will not respond rationally to the devastation of the ecosystem, is as difficult to accept as our own mortality. The most daunting existential struggle of our time is to ingest this awful truth—intellectually and emotionally—and continue to resist the forces that are destroying us.

    The human species, led by white Europeans and Euro-Americans, has been on a 500-year-long planetwide rampage of conquering, plundering, looting, exploiting and polluting the Earth—as well as killing the indigenous communities that stood in the way. But the game is up. The technical and scientific forces that created a life of unparalleled luxury—as well as unrivaled military and economic power—for the industrial elites are the forces that now doom us. The mania for ceaseless economic expansion and exploitation has become a curse, a death sentence. But even as our economic and environmental systems unravel, after the hottest year in the contiguous 48 states since record keeping began 107 years ago, we lack the emotional and intellectual creativity to shut down the engine of global capitalism. We have bound ourselves to a doomsday machine that grinds forward, as the draft report of the National Climate Assessment and Development Advisory Committee illustrates.Illustration by Mr. Fish

    Complex civilizations have a bad habit of destroying themselves. Anthropologists including Joseph Tainter in “The Collapse of Complex Societies,” Charles L. Redman in “Human Impact on Ancient Environments” and Ronald Wright in “A Short History of Progress” have laid out the familiar patterns that lead to systems breakdown. The difference this time is that when we go down the whole planet will go with us. There will, with this final collapse, be no new lands left to exploit, no new civilizations to conquer, no new peoples to subjugate. The long struggle between the human species and the Earth will conclude with the remnants of the human species learning a painful lesson about unrestrained greed and self-worship.

    “There is a pattern in the past of civilization after civilization wearing out its welcome from nature, overexploiting its environment, overexpanding, overpopulating,” Wright said when I reached him by phone at his home in British Columbia, Canada. “They tend to collapse quite soon after they reach their period of greatest magnificence and prosperity. That pattern holds good for a lot of societies, among them the Romans, the ancient Maya and the Sumerians of what is now southern Iraq. There are many other examples, including smaller-scale societies such as Easter Island. The very things that cause societies to prosper in the short run, especially new ways to exploit the environment such as the invention of irrigation, lead to disaster in the long run because of unforeseen complications. This is what I called in ‘A Short History of Progress’ the ‘progress trap.’ We have set in motion an industrial machine of such complexity and such dependence on expansion that we do not know how to make do with less or move to a steady state in terms of our demands on nature. We have failed to control human numbers. They have tripled in my lifetime. And the problem is made much worse by the widening gap between rich and poor, the upward concentration of wealth, which ensures there can never be enough to go around. The number of people in dire poverty today—about 2 billion—is greater than the world’s entire population in the early 1900s. That’s not progress.”

    “If we continue to refuse to deal with things in an orderly and rational way, we will head into some sort of major catastrophe, sooner or later,” he said. “If we are lucky it will be big enough to wake us up worldwide but not big enough to wipe us out. That is the best we can hope for. We must transcend our evolutionary history. We’re Ice Age hunters with a shave and a suit. We are not good long-term thinkers. We would much rather gorge ourselves on dead mammoths by driving a herd over a cliff than figure out how to conserve the herd so it can feed us and our children forever. That is the transition our civilization has to make. And we’re not doing that.”

    Wright, who in his dystopian novel “A Scientific Romance” paints a picture of a future world devastated by human stupidity, cites “entrenched political and economic interests” and a failure of the human imagination as the two biggest impediments to radical change. And all of us who use fossil fuels, who sustain ourselves through the formal economy, he says, are at fault.

    Modern capitalist societies, Wright argues in his book “What Is America?: A Short History of the New World Order,” derive from European invaders’ plundering of the indigenous cultures in the Americas from the 16th to the 19th centuries, coupled with the use of African slaves as a workforce to replace the natives. The numbers of those natives fell by more than 90 percent because of smallpox and other plagues they hadn’t had before. The Spaniards did not conquer any of the major societies until smallpox had crippled them; in fact the Aztecs beat them the first time around. If Europe had not been able to seize the gold of the Aztec and Inca civilizations, if it had not been able to occupy the land and adopt highly productive New World crops for use on European farms, the growth of industrial society in Europe would have been much slower. Karl Marx and Adam Smith both pointed to the influx of wealth from the Americas as having made possible the Industrial Revolution and the start of modern capitalism. It was the rape of the Americas, Wright points out, that triggered the orgy of European expansion. The Industrial Revolution also equipped the Europeans with technologically advanced weapons systems, making further subjugation, plundering and expansion possible.

    “The experience of a relatively easy 500 years of expansion and colonization, the constant taking over of new lands, led to the modern capitalist myth that you can expand forever,” Wright said. “It is an absurd myth. We live on this planet. We can’t leave it and go somewhere else. We have to bring our economies and demands on nature within natural limits, but we have had a 500-year run where Europeans, Euro-Americans and other colonists have overrun the world and taken it over. This 500-year run made it not only seem easy but normal. We believe things will always get bigger and better. We have to understand that this long period of expansion and prosperity was an anomaly. It has rarely happened in history and will never happen again. We have to readjust our entire civilization to live in a finite world. But we are not doing it, because we are carrying far too much baggage, too many mythical versions of deliberately distorted history and a deeply ingrained feeling that what being modern is all about is having more. This is what anthropologists call an ideological pathology, a self-destructive belief that causes societies to crash and burn. These societies go on doing things that are really stupid because they can’t change their way of thinking. And that is where we are.”

    And as the collapse becomes palpable, if human history is any guide, we like past societies in distress will retreat into what anthropologists call “crisis cults.” The powerlessness we will feel in the face of ecological and economic chaos will unleash further collective delusions, such as fundamentalist belief in a god or gods who will come back to earth and save us.

    “Societies in collapse often fall prey to the belief that if certain rituals are performed all the bad stuff will go away,” Wright said. “There are many examples of that throughout history. In the past these crisis cults took hold among people who had been colonized, attacked and slaughtered by outsiders, who had lost control of their lives. They see in these rituals the ability to bring back the past world, which they look at as a kind of paradise. They seek to return to the way things were. Crisis cults spread rapidly among Native American societies in the 19th century, when the buffalo and the Indians were being slaughtered by repeating rifles and finally machine guns. People came to believe, as happened in the Ghost Dance, that if they did the right things the modern world that was intolerable—the barbed wire, the railways, the white man, the machine gun—would disappear.”

    “We all have the same, basic psychological hard wiring,” Wright said. “It makes us quite bad at long-range planning and leads us to cling to irrational delusions when faced with a serious threat. Look at the extreme right’s belief that if government got out of the way, the lost paradise of the 1950s would return. Look at the way we are letting oil and gas exploration rip when we know that expanding the carbon economy is suicidal for our children and grandchildren. The results can already be felt. When it gets to the point where large parts of the Earth experience crop failure at the same time then we will have mass starvation and a breakdown in order. That is what lies ahead if we do not deal with climate change.”

    “If we fail in this great experiment, this experiment of apes becoming intelligent enough to take charge of their own destiny, nature will shrug and say it was fun for a while to let the apes run the laboratory, but in the end it was a bad idea,” Wright said.
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  8. José says:

    Eu até acho que as posições em defesa do cão em causa são primárias e pouco defensáveis, mas usar ” the holocaust card ” para as rebater, parece-me de muito mau gosto, para não dizer pior.
    Cumprimentos.

  9. Paulo Sousa says:

    Reductio ad Hitlerum… Big fail! Para alem disso: o Hitler respirava, dormia numa cama, tomava analgésicos, usava roupa, sabia ler, era canhoto, adorava doçaria, usava bigode, e andava de automóvel… So what? Passam a ser coisas nazis?

  10. coronel tata says:

    Equacionar o problema a partir desta posição pode levar a água ao moinho de muito bom português que acha que a natureza se pode subjugar e maltratar como se quiser. E nunca é demais destacar que a sociedade portuguesa em geral tem um problema com a natureza. Não nos vimos nela, colocámo-nos acima dela e ao destruí-la estamos a destruir-nos.

    Dar ênfase ao nazismo e a Hitler, com passagem pelo Holocausto nesta questão é para mim como entrar com um elefante numa loja de porcelanas. Uma maior sensibilidade no tratamento da questão poderia ajudar a ultrapassar o impasse.

    Quanto ao cerne do assunto em cima da mesa, o Pitbull Zico deve ser abatido e os seus donos chamados a responsabilidades pois são eles os únicos responsáveis. Medida preventiva: Obrigar os donos de cães deste tipo a registá-los. Obrigá-los a tirar cursos para lidar com tais cães. Aplicar pesadas multas a quem se armar em chico-esperto. A muitos deles ter-se-á mesmo de tirar os cães. São medidas simples que dão dinheiro e está-se a criar postos de trabalho. Jornalismo: Seria melhor que ajudasse na prevenção e se deixasse de sensacionalismos baratos.

    Cara Raquel, gosto de ler o que escreves mas aqui com essa do Hitler disparáste muito acima do alvo. Um bom dia!

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