Os duodécimos e a alegada decisão dos trabalhadores

A melhor forma que o governo encontrou de mascarar o brutal aumento de impostos sobre os rendimentos do trabalho foi repartir o subsídio de férias pelos doze meses de trabalho desprezando o esforço de tesouraria das empresas, como já aqui escrevi.
De tão desastroso que era esta medida, não previ que ainda pudesse ficar pior. Menosprezei o potencial destrutivo que uma maioria de deputados, sem qualquer experiência de trabalho e ideologia política – que não passe pela cacicagem nas estruturas concelhias do partido em que se inscreveu – pode ter.
Eis que surge a “brilhante” ideia do PS, acolhida pela maioria, de dar cinco dias ao trabalhador para decidir se quer receber o subsídio ou duodécimos. Ou seja, se a lei for publicada amanhã, as empresas terão de notificar imediatamente os seus trabalhadores para se pronunciarem. Na melhor das hipóteses, a 22 de Janeiro, terão uma ideia de quanto irão pagar de salários nesse mês. Note-se que na maioria das empresas, a 22 de Janeiro, já foram emitidas as folhas de vencimento!
Contudo, gostaria muito que os “pós-jotinhas” delirantes que negoceiam esta medidas me respondessem às seguintes questões:

1. Se o trabalhador não decidir no prazo de 5 dias, o que acontece?
2. Quantos dias tem a empresa para perguntar ao trabalhador e de que forma deve fazê-lo?
3. Se no seu orçamento anual da empresa já se estiver previsto o pagamento dos subsídios na época devida (veja-se, por exemplo, o caso das que têm diferenças de tesouraria sazonais) e se, em Janeiro, não tiver tesouraria para pagar os duodécimos o que deve fazer?
4. Se, no mês seguinte, o trabalhador se arrepender poderá alterar a sua decisão?
5. Se na empresa cada trabalhador decidir receber o subsídio de férias de formas diferentes, o PS disponibiliza “jotinhas” para uma enriquecedora experiência de trabalho – estágio profissional não remunerado – em empresas fora do regime de job for the boys?

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5 respostas a Os duodécimos e a alegada decisão dos trabalhadores

  1. jjleiria diz:

    Eu tenho mais uma pergunta: a que título é que os trabalhadores independentes, falsos ou verdadeiros, vêem a retenção na fonte aumentar de 21,5% para 25%?

    Porque é que não podem também «decidir em 5 dias»?

    Se eu vou pagar uma taxa de IRS de 10 ou 12 ou 14%, porque é que tenho também de emprestar os meus falsos subsídios de férias e Natal (recebidos com a devolução do IRS em Julho ou Agosto do ano seguinte) à execução orçamental do doutor Vítor Gaspar? Ainda para mais em simultâneo com aumentos de 60% (justos ou não, pouco importa) nas contribuições para a segurança social?

    • Ainda hoje estive a tentar perceber, sem sucesso, o que sucederá a quem tem de passar recibos verdes. Alguém me dizia que trabalhos abaixo dos 100,00€ já não os fazia pois, se passasse recibo, acabava por pagar mais por eles.

  2. JgMenos diz:

    A censura às medidas e aos processos de as implementar podem legitima e fundadamente ter lugar.
    Mas era necessário fundá-las na presunção de que os trabalhadores: nada sabem, nada decidem, andam pra lá e pra cá; sempre essa menorização dessa entidade abstrata – o trabalhador – que precisa sempre ser protegido e guiado, logo se sabe por quem?

    • De diz:

      Mas muitos trabalhadores sabem,decidem e não andam feitos baratas tontas para cá e para lá.
      Têm consciência de classe.
      E sabem que sozinhos não vão a lado nenhum.
      E cada dia que passa mais trabalhadores têm que de facto cortar de vez com a submissão à classe que os explora e juntar-se aos seus companheiros.Para engrossar a maré.

      Entretanto que se denunciem os apelos ínvios para a luta individualista e para a desinformação dos trabalhadores, que têm em vista a continuação da manutenção do status quo e esta exploração desenfreada e infernal.

      Bem unidos façamos
      Nesta luta final
      Uma terra sem amos
      A Internacional

    • Antónimo diz:

      JG Menos é sempre muito exigente com os trabalhadores.

      Se o Governo que é quem tudo sabe e tudo decide é o primeiro a andar para lá e para cá seria expectável que nós trabalhadores soubéssemos o que nos aguarda?

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