Situação na Síria

No passado domingo, dia 6, Bachar al-Assad, num discurso transmitido pela televisão, rejeitou a ideia de abandonar o poder sublinhando a mudança pela via constitucional; e descreveu o conflito não como uma oposição entre o governo e a oposição, mas entre a Síria e seu inimigos estrangeiros. Afirmou que qualquer diálogo sobre transição terá de ser precedido pela suspensão de financiamento e fornecimento de armamento por forças estrangeiras às forças de oposição. Abriu inclusivamente as portas para uma conferência para redigir uma nova constituição, que deverá ser depois sujeita a referendo. Mas foi claro que diálogo não poderá ser travado com “bandos que recebem ordens do estrangeiro”.

Ontem tiveram lugar conversações entre a Rússia e os EUA, mediadas por Lakhdar Brahimi, apontado pelas Nações Unidas e Liga Árabe, sobre a situação na Síria, não tendo havendo nenhuma orientação consensual, além da conclusão de que não há solução militar para o conflito. Brahimi apelou a uma solução política para pôr fim ao conflito e aliviar o sofrimento do povo Sírio, baseada no comunicado de Geneva de 30 de Junho de 2012. Os EUA insistem que Assad deve abandonar o seu posto e permitir uma transição democrática. A Rússia defende que a soberania da Síria deve ser respeitada, devendo esta conduzir qualquer processo de transição, sendo a sua prioridade o fim do conflito e a prestação de assistência humanitária. Brahimi afirmou à Reuters, no dia antes das conversações, que Assad não deveria ter qualquer papel no governo de transição, justificando as reticências do governo Sírio sobre a imparcialidade de Brahimi e sua capacidade de mediação. (ver)

Enquanto decorriam as negociações, os “rebeldes” tomaram a base aérea de Taftanaz, no norte da Síria. Estas forças são formadas por vários grupos Islamistas fortes na região, incluindo a Ahrar al-Sham, a Vanguarda Islâmica e a Frente al-Nusra, que tem ligações à al-Qaeda e foi declarada organização terrorista pelos EUA em Dezembro de 2012. As forças militares da Síria estão presentemente a bombardear a base.

Hoje foi apresentado um apelo ao Conselho de Segurança das NU, subscrito por 50 países, encabeçado pela Suíça e incluindo a Grã-Bretanha e França (mas não os EUA, China ou Rússia), para que a situação na Síria seja referida ao Tribunal Criminal Internacional. (ver)

Entretanto acumulam-se forças militares estrangeiras na região. A Rússia anunciou hoje que está a planear exercícios militares navais no Mediterrâneo, perto da fronteira Síria. (ver) Estas forças militares somam-se ao reforço naval dos EUA na região, à instalação de mísseis «Patriot» dos EUA na Turquia, à deslocação de 400 tropas dos EUA para a a base de Gaziantep, na Turquia (a 50 km da Síria), aos efectivos Alemães em Kahramanmaras e Holandeses em Adana (a 100 km da Síria), e às facilidades da Turquia em prestar livre transito na sua fronteira com a Síria de grupos militares de oposição vindos do Afeganistão, Paquistão, etc. (ver)

A oposição, congregada na dita «Coligação Nacional Síria»(CNS) rejeitou a abertura de Assad, insistindo no conflito militar. Esta posição foi apoiada pela Grã-Bretanha, que acusa Assad de hipocrisia e “promessas vãs de reforma”. A CNS é reconhecida oficialmente pelos EUA, Grã-Bretanha, França e vários estados Árabes como o “legítimo representante” do povo Sírio. Isto apesar da CNS e seu aliado, o Exército Livre da Síria, terem ligações com a Irmandade Islâmica e outras forças reconhecidas como terroristas (inclusivamente, como já referido, pelos próprios EUA).

Enquanto se acumulam preocupantes tensões militares internacionais na região, cabe-nos analisar a situação tendo como princípios a preocupação humanitário com o povo Sírio e o respeito pela soberania nacional da Síria. Este respeito é devido a qualquer país, independentemente das apreciações políticas que estrangeiros tenham sobre a situação política da Síria. É um respeito particularmente relevante tendo em conta as aberturas de Assad, as ligações da dita “oposição”, e casos recentes em países Árabes, como a Líbia. O destino político de um país não deve ser decidido militarmente, sobretudo quando as forças militares da “oposição”, de representação, legitimidade e ligações suspeitas, são apoiadas por forças estrangeiras, cujos interesses geo-estratégicos são claros e não-alinhados com os interesses do povo Sírio.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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