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A II Guerra Mundial foi uma resposta à crise de 29 e você escreveu que a invasão do Iraque foi uma saída para a crise de 2001. Consegue ver a intensificação da guerra no Afeganistão por Obama já como resposta a esta crise?

JM – A economia de guerra é a única que possibilita aos capitalistas a superação de uma crise geral. Acontece que a verdadeira procura agregada do regime capitalista que faz com que se supere uma crise geral não é a procura por mercadorias como bens de consumo. É uma mercadoria muito especial – chamada meios de destruição  – e isso foi desenvolvido sobretudo por Rosa Luxemburgo que, além de revolucionária, entendia como ninguém de economia política. O dinheiro dado aos bancos evapora-se na própria circulação mas o capital gasto pelo governo em armamento permite recuperar a taxa de acumulação da indústria privada. A indústria de guerra é perfeita para os capitalistas. A partir da indústria produtora de armamento há um efeito multiplicador de procura efectiva sobre os demais ramos industriais: siderurgia, petroquímica, aeroespacial, automobilística, etc. Mas essa é uma mercadoria que exige um consumo bem particular – são necessários populações humanas e territórios para serem bombardeados, para se consumir essa mercadoria especial. Então, compete ao Estado imperialista fazer uma política externa que permita a realização dessas mercadorias, ou seja, encontrar justificações, como a guerra ao terror. No momento da guerra alcança-se o pleno emprego. A taxa de desemprego na Segunda Guerra Mundial era zero na Alemanha, zero nos EUA, zero Inglaterra. Trocam-se linhas de produção por linhas de destruição. Se fosse possível uma guerra permanente desapareceriam as crises capitalistas.

Engels escreve para Marx uma carta durante a crise de 1857 a dizer «a crise, noto-o, produz-me o mesmo bem estar físico que um banho de mar». Jenny, mulher de Marx, escreve na mesma altura uma carta para os EUA onde diz que «embora a crise nos atinja dolorosamente» Marx está satisfeito, «voltaram-lhe a capacidade e a facilidade de trabalho, a frescura e a alegria de espírito dos seus melhores tempos» Ora, a esquerda toda está assustadíssima com a crise atual. Como explicas isso?

JOSÉ MARTINS – Para Marx e Engels a crise económica é a única oportunidade de desorganização e enfraquecimento do Estado capitalista. O Estado é uma organização política que é muito sólida nos momentos em que o capital está a ter sucesso na acumulação, na valorização do capital. A crise económica enfraquece esse bloco monolítico. A crise revela que a burguesia é incapaz de governar  e de decidir pela sociedade o que produzir, como produzir e para quem produzir – as três perguntas essenciais de organização de uma sociedade. Para Marx e Engels, a crise catastrófica é a condição necessária para a revolução. Só com a crise geral do capital se abrem os conflitos decisivos entre as diversas fracções burguesas, os conflitos inter-capitalistas e inter-imperialistas. Marx só podia ficar feliz porque esse é o único momento em que se pode rebentar com essa aparentemente invencivel crosta de totalitarismo em que toda a sociedade vive mergulhada. A classe operária não vence a burguesia apenas desmascarando as suas ideias, facto impossivel em situações de paz social. Só a crise abre a possibilidade material da classe operária vencer a guerra social e passar a decidir por ela mesma o que produzir; como produzir; para quem produzir.

REVISTA RUBRA Nº4, Lisboa, Janeiro 2009. Entrevista com José Martins[1] (Parte I).  Raquel Varela e Renato Guedes.

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