
Depois do balanço musical, apresento também um balanço cinematográfico do ano que passou. Comecemos por 10 menções honrosas e depois um top-10 de 2012 (para esta tabela, consideram-se filmes do ano os que estrearam em 2012 em Portugal).
Menções honrosas:
4:44 – O Último dia na Terra, de Abel Ferrara
Um Amor de Juventude, de Mia Hansen-Love
César Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani
Dos Homens Sem Lei, de John Hillcoat
Florbela, de Vicente Alves do Ó
A Invenção de Hugo, de Martin Scorsese
Le Havre, de Aki Kaurismaki
Millenium – Os Homens que Odeiam as Mulheres, de David Fincher
Pela Estrada Fora, de Walter Salles
Polissia, de Maiwenn
E agora o top-10 do ano:
10. O Verão do Skylab, de Julie Delpy
O espectro da queda do skylab é o catalizador metafórico de uma excêntrica reunião familiar, marcada pelo choque de gerações e pelas divergências políticas nos conturbados anos 60 do século XX. Uma deliciosa comédia de costumes dirigida por Julie Delpy, com personagens e diálogos criados de forma altamente inteligente.
9. Apollonide – Memórias de um Bordel, de Bertrand Bonello
Aparantemente, é apenas um filme sobre a prostituição francesa nos finais do século XIX, segundo o ponto de vista das mulheres de um bordel. Mas é muito mais do que isso. Com um cuidado de imagem tremendo, é também um retrato desencantado sobre uma sociedade degradada e moralmente corrompida, que funciona independentemente do local e do contexto histórico.
8. O Artista, de Michel Hazanavicius
Contrastando com a paranóia pelos artifícios técnicos e pelo espectáculo visual gratuito de algum cinema americano, O Artista é de uma simplicidade refrescante. Um filme mudo, que acompanha o drama de um actor na transição para o sonoro. Prestando a devida homenagem ao cinema dos primórdios, um belo e pertinente exercício de estilo.
7. O Substituto, de Tony Kaye
O Substituto é muito mais do que um filme complexo sobre uma escola problemática, muito mais do que o retrato de um professor instável e atormentado pelas memórias e dificuldades afectivas (e já poderia ser imenso). Com uma interpretação soberba de Adrian Brody, uma imagem crua e uma notável fotografia, é uma obra que, de forma densa e magnífica, contrasta os lados mais preversos de uma sociedade individualista e massificada com um certo humanismo redentor.
6. Temos de Falar Sobre Kevin, de Lynne Ramsay
Chocar sem ser gratuito, despertar consciências sem ser moralista, é no equilíbrio da mensagem que está a grande virtude do filme de Lynne Ramsay. Uma reflexão sobre o contexto familiar, sobre a educação, sobre um certo lado fatalista da vida, com uma certa freakalhice formal mais que justificada, e que nos põe a pensar e a desejar, por tudo, nunca termos um filho como o diabólico Kevin.
5. Michael, de Markus Schleinzer
Um filme sobre um pedófilo e raptor de crianças, sobre a relação hedionda, mas complexa, que se gera entre o violador e o miúdo subjugado. É o retrato desta preversa vida quotidiana, exposta de forma tão paciente, como perturbadora e irónica, que choca sem apresentar a violência física ou a revelação sensacionalista (o final é paradigmático). Depois de Haneke, mais um austríaco a desafiar o espectador e a confrontá-lo com os piores aspectos da humanidade. E a fazê-lo com mestria.
4. Procurem Abrigo, de Jeff Nichols
O drama de Curtis, um homem que prenúncia de forma paranóica um cataclismo destruidor, é a base de uma metáfora sobre a crise e a instabilidade do presente. Um simbolismo concretizado de forma notável, não só pelo fabuloso final e pela forma pausada e cuidada como Nichols nos envolve na trama e com as personagens, mas também porque conta com duas extraordinárias interpretações: Michael Shannon e Jessica Chastain.
3. Martha Marcy May Marlene, de Sean Durkin
Numa narrativa construída com suaves e deliciosas analepses e com uma enorme intensidade psicológica, um retrato sobre a manipulação individual de uma seita preversa (Martha, Marcy May e Marlene são uma e a mesma pessoa) e sobre os fantasmas da memória. Rejeitando entrar pelos caminhos de um thriller igual a tantos outros, mais uma grande obra recente do cinema independente americano.
2. Vergonha, de Steve McQueen
Depois do já de si notável Fome, Vergonha consegue aliar uma profunda densidade psicológica na apresentação de um tarado sexual, cujo espírito é abalado quando se revê na instável irmã, um genial desempenho de Michael Fassbender, o impacto da música de Harry Escott e a forma impressionante como McQueen joga com o silêncio. E, como se não bastasse, tem alguns dos melhores momentos de cinema dos últimos anos: a cena inicial no metro, a filmagem da interpretação de New York, New York por Carey Mulligan ou os 10 a 15 minutos finais. Uma indiscutível obra-prima.
1. Amor, de Michael Haneke
Embora o passado de Haneke seja francamente interessante, o realizador austríaco fez bem em, mantendo firme a identidade cinematográfica, refrear os seus ímpetos e incutir maior realismo e humanismo desde o anterior Laço Branco. Dificilmente este filme não será o cume desse percurso evolutivo: uma obra dura e crua, mas deslumbrante, sobre a memória, o amor absoluto e genuíno na terceira idade, a dignidade humana, a solidão, a perda e a música enquanto símbolo nostálgico. Com interpretações sublimes do casal protagonista (Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant) e uma beleza imensa, directamente da alma de quem o fez para a alma de quem o viu, Amor é o filme do ano e de muitos anos.





Lista quase perfeita e de muito bom gosto. Por mim só punha o Mercenários 2 porque é uma crítica ao cinema de acção por via de ser sempre a gozar.
Escapou-me, mas como gozo pode ser efectivamente bom