Engenharia financeira, roubo ou incompetência. Em que é que ficamos Teixeira dos Santos e Vítor Gaspar? Das três, uma, duas ou três?

Esta entrevista da Raquel Varela ao Económico TV não é só um bom momento de televisão, que esclarece várias das confusões que envolvem o problema da “dívida pública”, que afirma “que a maioria dos desempregados nem é jovem nem licenciado”, que a luta dos Estivadores é central para a luta de todos os outros trabalhadores e que o livro “Quem Paga o Estado Social” é de leitura obrigatória. Além destas e de outras considerações, vale a pena levar até às últimas consequências a denúncia sobre a incongruência descoberta nas contas do Estado (a partir dos 7’30).

Apesar das soluções que a Raquel avança ainda estarem longe da realidade que o debate político nos proporciona, dia após dia, e que algumas das medidas que sugere nem a direita nem a esquerda institucional quer nem ouvir falar – nomeadamente a nacionalização da banca e consequente anulação da dívida, que mais não é do que as verbas transferidas do sector público para o sector privado, garantindo lucros avultados das principais empresas do país – a verdade é que um debate aprofundado sobre a realidade dificilmente prescinde a sua ponderação. Infelizmente, a troca de argumentos entre keynesianos e neoliberais tem sido tão fastidiosa que ainda não foi capaz de explicar que o lucro das grandes empresas é garantido à conta da transferência de capital público.

Se o livro “Quem Paga o Estado Social” desmonta a falácia de que os trabalhadores não pagam o suficiente para garantir os serviços públicos, provando que até os imigrantes, apontados, de forma injusta e ignóbil, como um perigo para as contas do Estado, são contribuintes líquidos – o que significa que pagam mais em impostos do que aquilo que usufruem em serviços – ficamos também a saber que até as contas do Estado apresentam deturpações, nada inocentes, em matéria de despesas sociais.

Depois de provado que as pessoas que vivem do salário pagam mais do que recebem, ainda não sabemos onde é que o Estado gasta o excedente daquilo que nos cobra e porque razão mascara como despesa, nomeadamente em gastos com prestações sociais, verbas que até podem não ter esse fim. Sem qualquer pudor e à vista desarmada, as contas do Estado, nomeadamente de 2009 e de 2010, apresentam incongruências que não podem ficar sem resposta, sob prejuízo de se poder concluir que o custo do Estado Social está a ser usado para camuflar despesas que pouco ou nada têm que ver com o Estado Social.

Não são precisos mais do que os dados tornados públicos pelas organizações oficiais e alguns cliques nas páginas das instituições que o revelam, para se provar que alguns dos custos relacionados com a protecção social dos trabalhadores ou foi falseado ou, não menos grave, contém erros grosseiros e que têm, naturalmente, que ser corrigidos.

Além do que já se sabia – a segurança social tem vindo a ser usada para  ajudar as empresas a despedir trabalhador com dinheiro público – há ainda a suspeita de que também as prestações sociais do Estado estão a ser usadas como testa de ferro de despesas que nada têm a ver com as prestações sociais do Estado, unicamente com o propósito de reforçar a tese, mentirosa, de que vivemos num Estado gordo e despesista, que garante abundantes privilégios acima das nossas possibilidades. Haverá tese que sirva melhor a ideia de que a hora da dieta é inevitável? A quem serve a alocação de uma despesa às contas das prestações sociais? Quem lucra com as medidas impostas pela troika e pelo governo com vista à redução dos gastos, alegadamente exorbitantes, associados às despesas de pessoal? Será que, à desresponsabilização, os sucessivos governos têm vindo a aliar um grave crime económico?

Para se demonstrar a engenharia orçamental exposta, atente-se à seguinte tabela, onde podemos ver o total das despesas relacionadas com a “protecção social” do Estado entre 2002 e 2010 – definidas pelo Sistema Europeu de Contas Nacionais e Regionais na Comunidade (via INE)- e a discriminação da fatia do bolo referente às despesas relacionadas com “doença e invalidez”:

Tabela em jpeg

Fonte: Eurostat, onde pode consultar as contas dos outros países e as restantes despesas do Estado. Valores em milhões de Euros. Tabela melhorada pelo Graza, do Arroios

Como podemos constatar, mesmo sem perceber grande coisa de finanças públicas ou sequer ser preciso falar muito devagar, o total de gastos em prestações sociais entre 2002 e 2008 oscilou entre os 9 e os 19 milhões de euros, tendo disparado em 2009 e 2010 para 2270 e 2371 milhões, respectivamente. Mas é mais grave ainda. Uma parte significativa desse gasto foi alocado às despesas relativas a “doença e invalidez”, 1632 e 1708 milhões, respectivamente.

Parece evidente que esta engenharia trapalhona, este erro grosseiro ou este embuste, além de ter objectivos políticos claros, pode estar também a ocultar um eventual desvio de dinheiro público. Mas, mesmo que não o seja, serve sobretudo do ponto de vista político para justificar que o Estado tem gorduras a mais e que, a pretexto disso, justificar-se a cegueira austeritária com que o governo e a troika nos têm brindado.

Sabemos que vale tudo para trocar trabalhadores com direitos por trabalhadores precários. Que para se pagar uma dívida espúria estamos a ser sujeitos a uma redução brutal do vencimento e a uma taxa de desemprego terrorista. Que tudo isso acontece sem que os argumentos sejam convincentes. Agora, por má fé ou por incompetência, sabemos também que os pressupostos em que se baseia a austeridade estão manietados, não só em Portugal como um pouco por todas as economias onde a dívida foi agravada à conta dos bons negócios dos suspeitos do costume e dos maus negócios dos que verdadeiramente financiam o Estado.

Ontem inventaram-se armas de destruição maciça para justificar a invasão do Iraque, hoje transferem-se despesas obscuras para despesas relacionadas com prestações sociais para justificar a transferência de recursos públicos para o sector privado. Nesta nova forma de guerra, a Raquel está coberta de razão. A salvaguarda dos direitos sociais depende inteiramente da capacidade de quem está a ser roubado em manter, e até aumentar, a instabilidade política. A sustentabilidade do nosso futuro depende do desgoverno dos que tomaram de assalto a conta corrente de todos os que pagam, de longe, muito mais do que o custo do Estado Social.

images

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

12 respostas a Engenharia financeira, roubo ou incompetência. Em que é que ficamos Teixeira dos Santos e Vítor Gaspar? Das três, uma, duas ou três?

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    A Raquel tende a ser demasiado trapalhona na exposição das suas ideias no campo económico – o que não admira, já que não é economista – para me convencer, não das suas preocupações, que partilho, mas da correcção dos seus argumentos. Mas esta discrepância no que diz respeito às despesas sociais em 2009 e 2010 é de tal ordem que é necessário esmiuçar isto e procurar saber o que esses valores contêm. Só por ter chamado a atenção para isto já a Raquel merece que lhe tire o chapéu. Gostava que alguém me dissesse se esta informação está já disponível nalgum sítio.

  2. JgMenos diz:

    Fico preocupadíssimo!!!!
    Devendo o país 190.000 milhões, parece que há uma 1.600 milhões que mudaram de sítio nas contas.

    • Renato Teixeira diz:

      O “pais” deve? O quê e a quem?

      • De diz:

        🙂
        E a forma como esta cambada escamoteia os roubos da cambada.

      • JgMenos diz:

        Erro meu!
        Os 190.000.000.000 de euros era a dívida pública.
        «Dívida total de Portugal ascende a 432,1% do PIB»

        • De diz:

          E a forma como se põe muitos zeros para ver se se apanha moscas. Os números são os mesmos, mas assim fica mais bonito.Sob o pretexto de…erros pois então

          Mas há mais sobre as dívidas publicas e as privadas.
          Vamos começar :
          “A dívida bruta dos Estados da zona do euro representava 86% do PIB dos 17 países em 2011 |10|. A dívida pública grega representava 162% do PIB grego em 2011. Por seu turno, as dívidas do sector financeiro representam 311% do PIB, ou seja, o dobro. A dívida pública espanhola atingiu 62% do PIB em 2011. No entanto, as dívidas do setor financeiro atingiram 203%, ou seja, o triplo da dívida pública.

          Vamos começar a desbravar o caminho e a olhar mais de frente para as pulhices ofertadas.

    • De diz:

      Uma ninharia.
      Tal como estas notícias são puramente má-língua de indivíduos que apenas têm inveja da forma como os bons rapazes vivem
      Para isso estará cá pessoal “menor” para corrigir o alvo e afinar a pontaria:
      http://otempodascerejas2.blogspot.pt/2012/12/nada-de-populismos.html#links

  3. Rocha diz:

    Das três uma: roubo.

    Sobre as outras duas:
    1 – Vítor Gaspar é muito competente a instituir o capitalismo monopolista de rapina, a arquitectar o feudalismo financeiro (servidão pela dívida), fazer-nos recuar ao estatuto de colónia (como nos tempos da anexação por Castela) e a fazer-nos recuar ao tempo do fascismo. A palavra competência em abstracto, como é habitualmente utilizada na sociedade burguesa, apenas indica a capacidade e inteligência da gestão e administração das metas e interesses da classe dominante.
    2 -Vítor Gaspar não tem particular habilidade na orquestração de engenharia financeira, ele não precisa, porque tem um exército de acessores, burocratas e tecnocratas que tratam de cozinhar os números do orçamento de Estado e todas as outras estatísticas processadas por um imbecil instituto (INE) e demais instituições (tribunais do regime incluídos). A tarefa de Vítor Gaspar é meramente de posar como um técnico de uma inteligência superior enquanto nos trata a todos como crianças de 5 anos e/ou atrasados mentais.

  4. Graza diz:

    Grave, grave, grave! Linkado e difundido!

  5. Pingback: Os 1600 milhões nunca foram gastos naquelas despesas com pessoal | cinco dias

  6. Pingback: Ladrões, aldrabões ou simplesmente incompetentes? | cinco dias

  7. Rafael Ortega diz:

    “Depois de provado que as pessoas que vivem do salário pagam mais do que recebem”

    Uma família tem dois filhos. Estão so dois na escola pública. O Estado gasta 8 mil euros/ano com as crianças para elas estarem na escola.

    O papá e a mamã pagam 8mil euros/ano de impostos?… (já nem falo se apanharem gripe e forem ao centro de saúde, fiquemos só pela escola)

    Alguns pagam mais do que o que recebem (os 15% que pagam 85% do total do IRS). Outros nem tanto.

    Meter no mesmo saco o tipo que paga em impostos 50% do que ganha e aquele que nem IRS paga, e dizer que os impostos dos trabalhadores chegam para tudo, é tão desonesto como as trapalhadas do Relvas.

Os comentários estão fechados.