CRÓNICAS DO OUTRO LADO

#1

Eram umas quarto da manhã de segunda-feira, dia trinta e um de Dezembro. Nós tínhamos acabado de trabalhar e apetecia-nos um copo. Como era noite de domingo, e a última antes da passagem de ano, as ruas estavam desertas, e os bares quase todos fechados. Encontrámos um aberto, ou “o”, e entrámos e pedimos cervejas.

Para além da cena de porrada que parecia estar prestes a estalar entre uma preta baixinha mas com um ar rijo e alcoolico, e um jovem adulto com ar de betinho, o que mais me chamou a atenção foi um tipo que estava sentado ao balcão. A cara dele, a posição dele; o tipo parecia saído de um quadro sobre um gajo sozinho, encostado ao balcão de um bar, na penúltima noite do ano. Há momentos em que as outras pessoas são só caricaturas para nós, personagens fictícias criadas unicamente para entreter a nossa vida real. Este era um desses. Olhar distante, cabelo em desalinho, construção de maxilar triste. Um corpo grande, curvado, e a sair dele, um braço, ligado a uma imperial em cima do balcão. Um dos gajos que estava comigo conhecia-o, por isso, a coisa alterou-se. Aquele tipo já não era só um figurante da minha vida, ele existia, era real, ele tinha uma vida autónoma, e era capaz de comunicar comigo.

Essa comunicação, no entanto, durou pouco. O beto que estava a a discutir com a preta tinha saído do bar, e tinha voltado, agora com reforços. Com o gajo vinham uns quantos de cabeça rapada, seguranças de discoteca ali à volta. Estava a haver empurrões, vozes altas e sacudidelas, e embora todos os clientes do bar estivessem com um olho a controlar as movimentações potencialmente violentas, com o outro estavam a seguir os acontecimentos na sua prórpia a mesa, e a contribuir para o não dramatismo da situação. Mesmo assim, estalou.

Alguém, que não tinha nada a ver com o assunto, se lembrou de dizer “Heee!” ao mesmo tempo em que esticava os braços, a pedir calma. Isso foi suficiente para os seguranças se erguerem como cavalos enraivecidos e molharem a sopa em toda gente que esticava os braços. Ninguém se virou a eles, ninguém sequer ameaçou virar-se a eles. Bastava dizer “calma”, ou tentar acalmar com um toque não violento, e a porrada era certa. O meu trabalho estava a ser não fazer movimento rápidos para não chamar a atenção, e observar todas movimentações. Desferiram-se pontapés, voaram copos, cadeiras e cinzeiros. A certa altura senti um dos meus amigos atrás de mim a empurrar-me para passar para zona segura.Veio-me à cabeça que um deles se magoava a sério. Olhei à minha volta e localizei os dois. Localizei também, e bem de perto, a cara do segurança maior deles todos, o lider da matilha. O cabrão vinha enraivecido, os olhos cheios de fúria (aposto que cheirava a merda de todos os poros). O animal tinha nascido para aquilo e durante os 15 segundos ou qualquer coisa do género que aquilo durou, desfrutou do seu poder. Os seguranças bateram e bazaram. O bar ficou num nível de silêncio bastante alto. Havia cadeiras e mesas viradas, cacos de vidro pelo chão, e dois ou três gajos agarrados à barriga ou à cabeça, a gemer. Eu agarrei na minha garrafa de cerveja e dei uns goles. Depois lembrei-me que o que eu estava a beber era uma imperial, e repus a garrafa no seu sitio.

Enquanto acabávamos as nossas jolas, ainda perplexos e sem termos trocado uma palavra, assistíamos ao “pós”. O barman acendeu as luzes e trancou a porta. Ninguém estava sentado no mesmo lugar em que estava antes do “ataque”. Os amigos de um dos tipos que levaram na boca sem saber porquê, ajudavam-no a procurar os óculos. “Se tu estás assim, imagina a gaja.”, disse alguém para um dos que ainda gemiam. Aí apercebi-me que a mulher que tinha estado no bife inicial já não estava no bar. Provavelmente estaria a ser espancada num beco escuro qualquer. “Se calhar devíamos ligar à bófia, fazer qualquer coisa. Devíamos era ter feito qualquer coisa.”. O mais provável era aqueles cabrões serem nazis estarem a enfardar na a mulher só por diversão, enquanto nós acabávamos as nossas jolas. Pedimos ao barman para nos abrir a porta e assim que se abriu uma brecha apareceu a preta do filme. Fresca, sem marcas na cara, e até com um sorriso de curtição. Para mim foi surpreendente o quão não vitima ela estava, até porque ainda deu uns pontapés e puxões, só porque sim, a um casal de namorados que estava a sair do bar. Vê-la armada em parva foi, de alguma maneira, reconfortante para a minha cobardia. Eram assuntos do Cais-do-Sodré, os que se tinham passado ali, e a vitima não era a mulher negra, que se mostrava bastante consciente do que andava a fazer, mas sim os gajos que não a conheciam de lado nenhum, e que ainda estavam, torcidos e a gemer, dentro do bar.

Antes de sair, olhei para trás. Sentado ao balcão, grande, curvado, agora com o cabelo ainda mais em desalinho por causa dos empurrões, a caricatura de “um gajo num bar” lá estava, com um braço ligado ao copo. Agora com o bar virado do avesso, toda a gente de trombas, e ele com a mesma expressão indiferente. Eu ainda tinha o corpo a vibrar de excitação, à nossa volta volta toda a gente tinha ficado tensa, mas nele não se notava a mínima alteração. A sensação era a mesma, a mesma exacta distância. Talvez tenha sido naquele momento, enquanto eu saía do bar e olhava uma última vez para trás, que aquele tipo se tornou finalmente numa caricatura. Talvez os seus sorrisos leves e indiferentes à nossa comunicação tivessem sido os seus últimos estertores de humano, e agora ele cimentava-se como um ser fora das pessoas, fora dos jogos dos vivos, uma caricatura de carne. Ou talvez esta história do “um gajo num bar” não seja mais do que mais um gajo a inventar mitos para colorir o desconhecido. Seja como for, não interessa.

Despedi-me dos meus amigos e segui para casa. À medida a que a adrenalina se acalmava crescia em mim um grande tristeza desconfortável. A cara enraivecida do segurança, a bater em gente que não lhe fez mal nenhum, voltava à minha mente.

Num pequeno momento completamente marginal a tudo o que é importante para espécie humana, tinha-se desenhado claramente uma condição dessa mesma espécie. A minha espécie. Por mais que se construa tudo com muito cuidado, por mais que se utilize todo o carinho, vai sempre haver um filho da puta que teve uma infância difícil, tem uma pila pequena, ou é só otário, com o cérebro idealmente estúpido para estragar tudo. Se há cinco gajos destes neste bairro, quantos é que não há, por aí, no universo, só à espera de uma ordem ou de um sinal, para bater. Bater, por prazer, na minha cara, na tua, na dos teus filhos e na da tua mãe. Como é que se param gajos destes? Até onde é que eles podem ir? Qual é o limite em que o nosso instinto de sobrevivência cede à consciência? Por quanto tempo é que se pode ter o luxo de ficar só a ver a porrada?

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5 respostas a CRÓNICAS DO OUTRO LADO

  1. Nightwish diz:

    Chamar-lhes de pretos não ajuda muito, sabe…

  2. Leitor Costumeiro diz:

    Não é bem a resposta que me apetece dar mas…
    É fazer como eles, é começar aparecer nos jornais: ” Skin head brutalmente espancado por pessoas com bom senso…”
    Sim, porque quando existem pessoas assim, quem lhes põe termo só tem de ser considerado de bom senso…o mal dos pacifistas é que levam sempre na boca, não pode haver monopólio do uso da força, há que respeitar as leis da concorrência, quem sabe ela não salvará a pele no futuro…

  3. Maria diz:

    Preto ou branco, diferença ;- nenhuma ! A questão põe-se na evolução da espécie humana.
    Darwin, não acreditaria neste primitivismo.

  4. JgMenos diz:

    Um texto bem escrito …
    ‘Preto’ é porque tem cor e merece tanta crítica quanto ‘branco’ porque não tem cor. Dizem ter a ver com quem foi apanhado pela glaciação.
    ‘Betinho’ já é conotação classista.
    Quanto ao animal, há-os de todo o tipo e por tão variáveis razões, que traçar-lhes o perfil psicológico é exercício pouco produtivo. Serve no entanto para relembrar as origens – nunca obliteradas, sempre disponíveis para um despertar; assim surja um líder propiciador.
    Toda a irracionalidade traz violência – a ter em conta…

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