Balanço musical 2012 (discos)

Depois das músicas, inicio o ano de 2013 recordando os grandes discos do ano que passou:

Comecemos por vinte menções honrosas (por mera ordem alfabética):

A Naifa – Não Se Deitam Comigo Corações Obedientes

Alabama Shakes – Boys & Girls

Andrew Bird – Break it Yourself;

António Zambujo – Quinto

Bill Fay – Life is People

Bob Dylan – Tempest

Chieftains – The Voice of Ages

Damon Albarn – Dr. Dee;

DIIV – Oshin;

Gaiteiros de Lisboa – Avis Rara

Gala Drop – Broda

Godspeed You Black Emperor –  ‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend!

Kayhan Kalhor & Ali Bahrami Fard – I Will Not Stand Alone

 Lotus Plaza – Spooky Action at a Distance

Matt Elliott – The Broken Man

Ombre – Believe you Me

Patrick Watson – Adventures in your Own Backyard

Spiritualized – Sweet Light Sweet Heart

Thee Oh Sees – Putrifiers II

Throes & The Shine – Rockuduro

E aqui fica agora o top-20 discográfico de 2012:

20. Observer Drift – Corridors

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O one-man-show de Colin Ward junta os travos adolescentes de uns Wild Nothing, um negrume devedor dos Cure ou alguma da beleza etérea de uns Galaxie 500. As referências são óptimas e o resultado é devidamente consistente, numa estreia auspiciosa.

19. Julia Holter – Ekstasis

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Com sons celestiais, pequenas experimentações instrumentais e loops de uma voz frágil e planante, musica exploratória e esotérica no segundo disco desta menina americana. Ekstasis é um belo álbum, seja deste ou de outro planeta.

18. Bobby Womack – The Bravest Man in the Universe

Bobby Womack

Num ano onde surgiram Frank Ocean ou Miguel (e outros aclamados bem mais discutíveis), o trono do eixo soul vai para o veterano Bobby Womack. Não só pela voz, mas pelo requinte dos teclados e dos arranjos modernos, que evitam entrar naquele r’n’b futurista de gosto bem duvidoso. Mais uma dívida de gratidão para Damon Albarn: a recuperação deste senhor.

17. Sharon Van Etten – Tramp

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Entre o crescendo de Serpents, a melancolia de Give Out, a dormência de Magic Chords ou o dueto com Zach Condon em We Are Fine, parece que já ouvimos isto vezes sem conta. E talvez não seja mentira, mas, retirando um ou outro momento folk mais aborrecido, nem por isso deixa de ser música particularmente emotiva e inspiradora.

16. Fiona Apple – The Idler Wheel

Fiona Apple

O tom de urgência, de vitalidade, de autêntico grito de alma presente na interpretação da princesa Fiona é particularmente notável em The Idler Wheel. Um belo regresso em 2012 de uma das vozes femininas mais maravilhosas e especiais que a música viu nascer.

15. Air – Le Voyage Dans La Lune

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Depois da aproximação pop agradável, mas sem ser brilhante, dos dois discos anteriores dos Air, eis a dupla francesa de regresso aos tempos áureos mais planantes e cósmicos. E, para o efeito, haveria melhor metáfora que a viagem cinematográfica de Georges Meliès à lua?

14. Wild Nothing – Nocturne

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Entre sintetizadores etéreos, elementos mais tristes e nostálgicos, belas linhas de guitarra e pequenas explorações de ruído, Jack Tatum lança-se em mais uma belíssima viagem à adolescência. Com direito a entrada adulta no mais maduro Paradise, porque nem sempre tudo fica na mesma.

13. Dr. John – Locked Down

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Com blues, funk, rock’n’roll e algum psicadelismo africano num cocktail pulsante, uma bela súmula de muita música negra americana, a cargo da lenda Dr. John e com o toque de midas de Dan Auerbach, dos Black Keys.

12. Calexico – Algiers

Calexico-Algiers

Com excepção de um ou outro tema country mais aborrecido (resquícios de Garden Ruin, a léguas o pior disco da dupla americana), os Calexico mantém o som algures entre o México e os Estados Unidos e a imponência dramática e cinematográfica da música que fazem. E, acima de tudo, como em Para, Epic ou Algers, mantêm as grandes canções.

11. Tame Impala – Lonerism

Tame Impala

Ao segundo trabalho, os Tame Impala mantém o estatuto de uma das bandas mais refrescantes da actualidade. Tudo com um som que deve muito ao psicadelismo, dos Beatles de Revolver, do shoegaze ou aos Flaming Lips, mas também virado para o futuro (ouça-se Elephant e estamos mesmo em 2012). Retro-futurista?

10. Cloud Nothings – Attack on Memory

Cloud Nothings

Música crua e lo-fi cujo único comprometimento é com um certo caos, desespero e ausência de futuro. Em plena crise económica e de valores, um disco rock que espelha a urgência do presente de forma visceral e imponente.

9. Roberto Fonseca – Yo

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Se não nos deixarmos influenciar pela pavorosa capa (típica do r’n’b ou do hip-hop mais duvidosos), o que aqui encontramos é uma extraordinária fusão entre elementos cubanos, magia africana e o jazz como ponto central. Previsível, se atendermos que Roberto Fonseca foi aprendiz do grande pianista do Buena Vista Social Club, Ruben Gonzalez.

8. Moda Impura – Moda Impura

Moda Impura

Citando Janita Salomé, um disco de música alentejana com “um olho na nuca, virado para o passado, e outro virado para o futuro”. Unindo Janita, Vitorino, o Grupo de Cantadores do Redondo, a surpreendentente colaboração de Chullage num tema ou alguns textos de António Lobo Antunes, com tremendos arranjos, um belo disco de modernização do património tradicional português.

7. Beach House – Bloom

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Longe vão os tempos em que a música dos Beach House era excessivamente dormente, como que fugindo a uma maior sensibilidade pop. Entretanto, libertou-se e o resultado está à vista. Entre a euforia de Myth ou Irene e a maior melancolia de Wishes ou Troublemaker, temas tão celestialmente bonitos, como grandes canções pop. Um disco recheado de singles em potência e isto, no caso, é um grande elogio.

6. Grizzly Bear – Shields

Grizzly Bear - Shields

Entre aproximações ao prog ou a uma pop mais barroca e orquestral, a música dos Grizzly Bear alargou-se e dirigiu-se para outras sonoridades. Risco compensador, com uma manifestação de ecletismo que preserva toda a magia resultante da colaboração dourada entre Edward Droste e Daniel Rossen.

5. Chromatics – Kill For Love

CHROMATICS KILL FOR LOVE

O requinte sensual e frágil da voz de Ruth Radelet, a base do italo-disco convertida em algo bom e o ambiente cinematográfico negro mantêm-se, mas há uma outra grandiloquência, uma outra consistência e mesmo as variações mais discutíveis, como o autotune contido de dois temas, ficam no lado certo da fronteira. Exemplo paradigmático de evolução na continuidade.

4. Dead Can Dance – Anastasis

Dead Can Dance Anstasis

Entre as coordenadas do passado e um ponto da situação de muito do que se faz agora em termos de música mais misticista e espiritual, Anastasis é um disco à Dead Can Dance, unindo a criatividade imensa de Perry e Gerrard (e a voz dela continua deslumbrante). E isso é mais que suficiente para ser um dos discos do ano.

3. Caspian – Waking Season

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No ano do regresso discográfico de Godspeed You Black Emperor!, o disco post-rock do ano é bem mais pragmático. Loops de voz, momentos de piano arrepiantes, crescendos avassaladores, percussões diversas… tudo junto em temas pequeninos, quase canções (à escala do género), mas não menos extraordinários.

2. Django Django – Django Django

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É possível resistir ao sintetizador esquizóide de Waveforms, à entrada da guitarra de Hail Bop, ao ritmo imparável de Default, ao grande tema folk retro que é Firewater e a tanto, tanto mais?  É difícil, não é? É por isso que o homónimo de Django Django, um dos discos mais deliciosamente americanos de terras britânicas, é tão colossal e grandioso.

1. Alt J – An Awesome Wave

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A voz de Joe Newman é deliciosamente peculiar (numa espécie de falsete curioso), a música tem a mesma frescura folk-pop que catapultou os Fleet Foxes para o topo dos discos do ano de 2008 e as letras são magnificamente complexas. A interpretação a capella de Interlude I é arrepiante, a entrada consequente de Tessellate é verdadeiramente sagrada, Something Good tem um piano maior que o Mundo, Dissolve Me tem uma percussão veraneante maravilhosa, Fiztpleasure tem uns baixos imponentes, Matilda é de uma beleza romântica magnífica (aquela versão da Blogoteque…) e, por fim, Taro termina como o tema pop perfeito, com direito a elementos orientais e uma guitarra soberbos (“Hey Taro”…). An Awesome Wave é disco do ano.

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2 respostas a Balanço musical 2012 (discos)

    • João Torgal diz:

      Não cheguei a ouvir o “Sinais do Tempo” e muito provavelmente faltará esse grande mítico. Como muita coisa fica sempre de fora, deixo no balanço uma lista de discos e músicas do ano anterior que ouvi posteriormente. É bem provável que integre essa lista quando fizer o balanço de 2013 😉

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