Durão Barroso acho que os Portugueses são toscos

O Presidente da Comissão Europeia, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-Primeiro Ministro de Portugal, ex-membro do PCTP/MRPP e desde 1980 membro do PSD, que recentemente co-recebeu o Prémio Nobel da Paz de 2012 em nome da União Europeia, José Manuel Durão Barroso – um homem de longas credenciais e competência comprovada؟ – participou ontem no Seminário Diplomático subordinado ao tema “Projectar Portugal”, na Fundação Champalimaud. (Para ler a intervenção completa ver aqui.)

BarrosoNa sua intervenção, DB afirmou (e recomendou) que «O sucesso de outros programas de ajustamento requer que estes tenham condições políticas e sociais de sustentabilidade, o que implica sensatez nas decisões políticas a tomar e na maneira de as comunicar. Sensatez pode e deve ir de mãos dadas com determinação. Estabelecer compromissos onde eles são necessários e uma permanente procura de consensos – quer entre as principais instituições e forças políticas quer entre os parceiros sociais. Repito estas são condições essenciais para o êxito final: condições políticas e sociais.»

Sublinhou aqui a recomendação da maneira de comunicar pois na minha leitura não há outra forma de interpretar a expressão senão como uma injúria aos Portugueses: as medidas implicadas pelos programas de ajustamento (cuja sensatez não está em questão) para serem implementadas com sucesso (leia-se com aceitação popular) têm de ser associadas a melhor comunicação. Ou seja, se o Governo nos fosse capaz de explicar melhor a necessidade destas medidas, nós aceitaríamos estas medidas sem protesto. Implícito está a ideia de que os Portugueses são toscos: não foram ainda capazes de entender a necessidade das medidas de austeridades. Precisam que lhes sejam explicadas melhor. Fora de consideração está outra hipótese: a de que os Portugueses entendem as medidas e os seus pressupostos, mas rejeitam esses pressupostos e seu corolário. Sugiro: mesmo que o Governo encontre outra forma de as comunicar e as explicar d e v a g a r i n h o, os trabalhadores Portugueses não as vão aceitar.

Qualquer comunicação, por melhor que seja, que queira justificar as medidas de austeridade sobre os trabalhadores, não será bem aceite pelos trabalhadores. Eis uma ideia: não peçam aos trabalhadores que aceitem maior precariedade, menos salários, subidas de preços, perca de custo de vida, maior desemprego, perda de direitos laborais. Se, honestamente, fosse explicado que estas medidas são devido às falhanças do sistema financeiro e à crise do sistema capitalista, que são medidas não devidas ao despesismo dos Estados mas às políticas que impõem menores encargos sobre o Capital, maior liberdade para o Capital fugir à tributação, e maiores exigências sobre o trabalho, sem garantir um Estado Social – isto é, se a situação fosse efectivamente bem explicada e comunicada – não creio que a sua aceitação fosse melhor. Pelo contrário.

Durão Barroso está não só a afirmar que os Portugueses são toscos, mas também que as forças políticas que não estão no governo são irresponsáveis, pois não estão a procurar consensos com o Governo. Ora, as agências de ranking, a chanceler Merkel elogiam o Governo de Passos Coelho como bom cumpridor. Daqui decorre que o erro não está nas políticas deste Governo, mas na sua capacidade de persuadir as forças de oposição. Outra leitura é de que as forças de oposição rejeitam as premissas por detrás das políticas de austeridade, e rejeitam estas como formas de garantir o desenvolvimento económico e social.

Na sua intervenção, DM propõe-se desmistificar várias ideias, entre elas a de que é a União Europeia  que «está a impor austeridade aos Estados membros e aos cidadãos». Segundo DB, «Com ou sem Euro, com ou sem União Europeia este tipo de política teria que ser necessariamente prosseguido…». Uma inevitabilidade. Ora, a UE está a impor, em associação com seu órgão o Banco Central Europeu e em associação com o Fundo Monetário Internacional (a Troika internacional) as políticas de austeridade. Esse é um facto, consumado no memorando da Troika. Não há nenhuma realidade económica insanável, isenta de contexto ideológico ou postura de classe, que implique inexoravelmente as medidas de austeridade. É uma opção de classe. Comuniquem bem isso.

[O símbolo ؟ indica ironia.]

 

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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14 respostas a Durão Barroso acho que os Portugueses são toscos

  1. De diz:

    Um grande texto que não deixa pedra sobre pedra do edifício argumentativo do Barroso.
    Um grande texto de facto

    (E a fotografia escolhida…um achado.
    🙂 )

    • JgMenos diz:

      Sempre otimista!
      Qualquer ajuntamento de palavras-chave e temos DE tomada(o) de fervores revolucionários.
      Por muito tosco que seja o argumento…

      • EOToscoSouEu????? diz:

        Durão Barroso=Submarinos.Não sei se me estou a fazer entender…
        Cada cavadela,cada minhoca.

      • De diz:

        Uma “intervenção” à altura dos pergaminhos de Menos.
        Um pouco patética e demasiado oca, pois então, em apoio de um dos exemplos mais paradigmáticos de um fulano, que prima pela ausência de escrúpulos e de coluna vertebral.
        Este desencadear deste peculiar “ajuntamento de palavras” por parte de Menos surge por reflexo condicionado em solidariedade com um dos da sua igualha.
        Sobra isto.Contribui para o esboço do(s) persnagem (s).

        • JgMenos diz:

          Na minha igualha nem cabem De nem Barroso, nem os da sua igualha.

          • De diz:

            Barroso não é suficientemente extremista para os gostos dos arrufos anti-democráticos de Menos?

            Quanto a mim não me pronuncio, para além de manifestar a satisfação por não ser da mesma igualha que .
            🙂
            Registo apenas que mais uma vez sobre o tema apresentado pelo André Levy surge apenas o deserto.A ausência de.O slogan oco e sem substância dos pequenos propagandistas da direita mais ou menos pouco democrática.

  2. ” ex-membro do PCTP/MRPP (até 1980)”

    Cuidado com os factos. No máximo até 1976/7. Parecendo que não, faz uma grande diferença.
    Sobretudo se formos ver o que foi fazer logo a seguir.

    • De diz:

      O que diz a Wikipedia:
      “Durão Barroso foi expulso do MRPP depois de ter demonstrado uma série de atitudes que atentavam contra os princípios pelos quais o partido se movia; por exemplo: A situação em que Durão Barroso surge na sede do PCTP/MRPP com uma carrinha cheia de mobília da Faculdade de Direito de Lisboa, roubada na sequência dos tumultos pós 25 de Abril. Nesse instante, Arnaldo Matos (líder do partido) ordena a Durão Barroso que vá devolver o material roubado.
      Em 1980, Durão Barroso aderiu ao Partido Social Democrata, partido do centro-direita português, no qual está filiado até hoje.”
      (Até na wikipedia se vislumbra o estofo deste Barroso).
      Eis outro vislumbre:
      http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=vmI9AmCTLHQ
      E outro, desta feita pela pena do Nuno Ramos de Almeida:
      “Que o diga José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, que escrevia no “Luta Popular” de 2 de Abril de 1975, o artigo titulado “Que Viva Estaline”, em que, para combater o desvio da “linha negra” de Maria José Morgado e Saldanha Sanches escrevia: “O camarada Saldanha Sanches é que não se demarca dos oportunistas, nem pouco mais ou menos, não resistiu à contraprova do campo magnético; mal se falou em Estaline começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva.” Se trocarmos “euro” por “Estaline”, nem mudou assim tanto.

      Mas convenhamos que mais importante que tudo isto é o desmontar sereno e peça a peça do discurso de barroso.

      (e a fotografia…um achado)

  3. e é preciso também notar que o autor deste post é filiado no Partido dito “Comunista” a tal organização que a meias com o Copcon durante o PREC mandaram prender 400 e tal militantes do MRPP e o impediu de concorrer às primeiras eleições “democráticas” no país. Só para memória do quem é quem nestes exercicios baratos de manipulação dos factos

    • Caro Xatoo
      afine a mira e guarde, se assim entender, as suas diatribes para quem as instigou. O meu post era sobre as afirmações de Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, tendo eu referido um pouco mais sobre o seu currículo, incluíndo ter sido membro do PCTP, o que creio não está em disputa. Assinalei esse facto porque os caminhos políticos de certas pessoas revelam muito sobre o seu carácter. Neste caso, para mim, nem é importante se ele havia militado no PCTP/MRPP, no POUS, no PCP(R), ou no Partido Etc Revolucionário. Alguns comentários aqui reveleram que poderá ser incerto quando e como deixou de ser membro desse partido, e com base nisso, alterei o texto para reflectir o mais certo, que esteve no PCTP e em 1980 começou a militar no PSD. Sobre o sucedido entre os militantes do PCP e do PCTP-MRPP no tempo do PREC haveria muito a dizer. Mas não me parece politicamente pertinente para o nosso presente.

  4. xatoo diz:

    o Barroso “ter sido incluido no PCTP”?
    é errado e trata-se de uma grosseira manipulação que já está muito gasta, utilizada useira e vezeiramente por todos aqueles que pretendem denegrir o partido.
    o PCTP só existe desde Dezembro de 1976 e este personagem tinha sido expulso antes, da Federação de Estudantes Marxistas Leninistas, organização estudantil do então MRPP. Precisamente por causa da história do roubo do mobiliário que foi obrigado a devolver.

    • Essa do PCTP é historicamente indiscutível.
      Já a expulsão, deixa-me rir. Ninguém foi expulso de coisa alguma, a começar pelo Saldanha Sanches e a terminar por meia direcção da FEML.
      É óbvio que só um maluquinho iria a uma reunião dizer que se ia embora, mas precisamente depois da saída do Saldanha Sanches que passou a expulsão e deu azo a um vigoroso movimento rectificativo (por sinal muito empolgado pelo Durão Barroso), as pessoas foram muito simplesmente desaparecendo do mapa, e depois “expulsas”.
      Até eu sei disto, e sou da província. Ir tratar da vida e não ser “expulso” foi privilégio guardado para o Arnaldo Matos.

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