“Um dos grandes objectivos da troika é aproximar-nos da China”

Entrevista  que dei ao Jornal I, edição de hoje, a propósito de Quem Paga o Estado Social Em Portugal?. Entrevista de Nuno Ramos de Almeida.

Aqui, alguns destaques:

«A obra contraria a tese muito em voga de que o nosso problema é que os pobrezinhos comeram muitos bifes. Nas suas páginas fazem-se contas e chega-se à conclusão de que alguém ficou com o dinheiro dos nossos impostos»

«Se nós tivemos de nos endividar nos últimos 20 anos para compra de habitação isso não significa que tenhamos vivido acima das nossas possibilidades, mas abaixo delas. Os salários portugueses mantiveram-se tão baixos nos últimos 20 anos que as pessoas para resolverem este direito básico que é a habitação tiveram de se endividar» 

«Estão-se a criar condições para ter um mercado de trabalho à escala continental. É por isso que a nossa precarização vai ser o enterro dos direitos sociais dos trabalhadores alemães. O que se prepara é que de hoje para amanhã os trabalhadores qualificados do Sul ocupem por um salário muito mais baixo o lugar de um trabalhador alemão. É este o objectivo da política da troika»

«O processo de globalização que vivemos é um processo de globalização imperialista. Era bom que recuperássemos a esse respeito este conceito que os cientistas sociais têm tido medo de usar. Embora recentemente nas discussões de instituições internacionais como a OIT (Organização Internacional do Trabalho) haja alguns autores que recuperam estes conceitos»

 «É preciso ter cuidado com todas essas chamadas teorias do decrescimento. Dizer que um país vive acima das suas possibilidades não é correcto do ponto de vista histórico. Num país há pessoas que vivem acima das suas possibilidades e outras que não (…) Nós não temos um consumo excessivo, temos é um consumo exagerado de hidratos de carbono, temos um consumo deficitário de legumes frescos com nutrientes, temos um consumo exagerado de transportes individuais e um consumo deficitário de transportes colectivos. Ou seja, o problema do consumo não é abstracto, concretiza-se numa sociedade que é desigual»

«Os historiadores marxistas estão sempre a anunciar crises terminais que nunca o são. Aquilo que eu tenho lido é que se não tivesse havido um socorro enorme ao sistema financeiro estaríamos numa crise muito semelhante à Grande Depressão de 1929, embora nós vivamos um processo substancialmente diferente devido à globalização da economia. A interdependência dos mercados é hoje infinitamente superior. Se a crise teve as consequências que teve, revoluções e contra-revoluções durante dez anos, eu não sei que consequências teria tido esta sem as medidas que foram adoptadas. Agora salvar o sistema financeiro teve um preço que é a situação de barbárie social que vivemos»

«Chegamos a um nível de desenvolvimento tecnológico que naturalmente acarreta um patamar de desemprego estrutural se nós não mudarmos a nossa forma de viver. Temos de criar uma sociedade em que toda a gente trabalhe menos horas, mas que trabalhe»

Entrevista completa aqui

 

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7 respostas a “Um dos grandes objectivos da troika é aproximar-nos da China”

  1. Zecas Lopes diz:

    Hum. Uma comunista a dizer mal do regime comunista. Mt bom.
    Já agora: já percebeu a história da dívida do povo e da dívida ao povo ou ainda lhe faz confusão?

  2. Carlos Carapeto diz:

    Vá lá, está ser bastante piedosa. Encosta-nos aos Chineses.
    Devia esclarecer quais as condições de trabalho na India e no Bangladesh.

    Podia citar também a exploração desenfreada que são submetidos o trabalhadores Romenos.

    E se estas coisas acontecem na China ?

    http://www.youtube.com/watch?v=hl2kOz2TVrI

    Onde foi que a Raquel já denunciou estas situações? Portanto o que é considerado desumano num sitio silencia-se noutro onde as vitimas são crianças?

  3. Argala diz:

    Raquel,

    A entrevista está muito interessante, mas tenho as minhas dúvidas de que Merkel queira fazer de Portugal, e países afins, uma enorme fábrica de mão-de-obra intensiva, isto é, uma China aqui mais perto. Não me parece haver escala, nem vontade de implementar um modelo cambial para isso. Não dá para competir com a China em custos do trabalho sem mexer na estrutura cambial. Só haveria uma maneira de reindustrializar o que quer que seja aqui: impedir os produtos de entrar com subsídios, taxas alfandegárias, barreiras burocráticas (homologação, etc..).
    Também gostava de saber donde vem esse dado de que um aumento de 10% nos custos do trabalho chineses, torna a deslocalização desinteressante.

    Cumprimentos

    • Raquel Varela diz:

      Caro Argala,
      A entrevista decorre, como sabe, num formato que podia e devia ser precisado. De facto, eu não dosse que 10% de salário iriam ter essa consequência mas exemplifiquei, ou seja, a partir de um valor, não muito alto (até pode ser mais baixco do que os 10%), devidos às diferenças de produtividade, não compensa, do ponto de vista da produção para o licro, deslocalizar produção para a China (acrescente-se a isto os custos dos transportes de lá para cá). Depois teria que se ver que tipo de produtos vêm para aqui – serviços que precisam de trabalhdaores qualificados? operários superqulaificados para componentes automóveis? Temos meio milhão de pessoas a receber o salário mínimo e 300 mil abaixo disso, o que nos coloca a passos largos a caminho de uma “China”, creio.
      Saudações

      • Argala diz:

        “operários superqulaificados para componentes automóveis?”

        Componentes?! Os carros não chegam aqui por outras razões.
        A China produz mais automóveis do que EUA, Japão e União Europeia somados. A maioria deles para consumo interno.
        Eu precisaria de mais dados para concluir que o trabalho é menos produtivo na China. Se tiveres mais informações que possas partilhar.

        “Temos meio milhão de pessoas a receber o salário mínimo e 300 mil abaixo disso, o que nos coloca a passos largos a caminho de uma “China”, creio.”

        Pior que a China, porque eles ao menos industrializaram-se. Nós não podemos ser a China por mais desvalorizados que sejam os nossos salários.

        Cumprimentos

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