“Pela Estrada Fora”, de Walter Salles

Adaptação do clássico de Jack Kerouac pelo brasileiro Walter Salles, Pela Estrada Fora é simultaneamente uma viagem pela América no pós-II Guerra Mundial e um retrato muito particular de uma geração. Dean e Sal são dois jovens urbanos que embarcam numa vida de pura diversão, com sexo descomprometido, álcool, drogas, ausência total de preocupações e incapacidade total de levar uma vida minimamente estável. Dean é o sedutor mais descomplexado e extrovertido, enquanto Sal é mais ponderado, tímido e sonhador.

Na evolução destas personagens principais, temos aqui o prazer, a euforia, a libertação, a camaradagem e a ironia mais subversiva (bem vincada na citação de Truman: “temos de reduzir o custo de vida”). Mas, como símbolo de um momento, de uma cultura e de uma forma de estar, o filme não se esgota nesssa vertente, mostrando a realidade complexa destes jovens, onde estão também presentes o vazio, o desencanto e a sensação de abismo (o suicídio é por várias vezes referido). Essa dimensão é cinematograficamente reforçada pelo requinte da imagem, com um cenário fotográfico bem bonito e um ritmo de filmagem impressionante (fará jus à escrita de Kerouac?). Destaque para o belíssimo encontro final entre os dois principais protagonistas, colocando frente-a-frente o desespero e um certo distanciamento em relação ao passado.

Por outro lado, a escolha dos actores revela-se arriscada. A Sam Riley (o eterno Ian Curtis de Control), Kirsten Dunst (após suportar o feitio irascível de Lars Von Trier no belíssimo Melancolia) e o notável Vigo Mortensen (num pequeno papel), junta-se gente habituada a outros palcos mais descartáveis, como Kristen Stewart (saga Twilght) ou Garrett Hedlund (Tron). Contudo, o elenco acaba globalmente por ser consistente e não há aqui, pelo menos de forma notória, verdadeiros erros de casting.

Tratando-se de uma obra literária de referência, haverá necessariamente olhares e ângulos diferentes entre quem leu e não leu o livro (especulando, talvez a narrativa muito literária, ao ritmo das notas de Sal, ajude a dar corpo à aproximação do texto de Kerouac). Pelo olhar de quem não o fez, a sensação que fica é que está aqui um óptimo road-movie existencialista, com um olhar suficientemente abrangente sobre uma certa juventude desenquadrada e sem rumo na América dos meados do século XX.

8 / 10

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