Ponto final parágrafo

Gestão operária da produção: uma realidade esquecida e desprezada pela esquerda

Comité de Fábrica na Fiat (1919). Gestão operária da produção: uma realidade esquecida e desprezada pela esquerda

Já estava para tomar esta decisão há uns tempos mas entretanto esperei por este dia. Um dia em que ocorre uma data importante na minha vida pelo que decidi oferecer um presente a mim mesmo. Assim, a partir de hoje deixarei de fazer parte deste espaço. Estarei involuntariamente a cumprir o desejo de algumas pessoas deste blog mas a elas nada, absolutamente nada da minha vida, das minhas opções políticas e do meu labor lhes diz respeito.

Nenhum purismo ideológico me move nesta decisão. Simplesmente acho que não vale mais a pena o esforço e o tempo despendido nas condições humanas e sobretudo políticas em que este blog se tornou.

Para a maioria dos membros do blog (nomeadamente vários dos que mais se vinculam ao PCP) parece valer mais uma escrita apologética e salvífica do que pegar nas suas crenças, prensá-las, desfazê-las em pedaços, cozê-las no forno e, no final, provar o pudim. Há naturalmente um mecanismo de auto-preservação psicológica em quem se opõe a fazer de advogado do diabo de si mesmo, dos outros, do passado do movimento operário e das suas organizações políticas. Mas há sobretudo um acto de cristalização política que em nada tem a ver com uma apropriação racional da realidade.

Do meu ponto de vista, um dos poucos actos racionais que nos pode impedir do irracionalismo é mostrarmo-nos capazes de sermos constantes advogados do diabo de nós mesmos e das nossas crenças e convicções. Não adianta alguém benzer-se de racionalidade verbal e não aplicar nenhuma dela para a compreensão da vida, da História, da economia e da sociedade. Nem vou entrar em considerações políticas de fundo. Podem-me acusar de tudo, mesmo que quase sempre injustificadamente, mas não me podem acusar de não fundamentar as minhas opções políticas. Claro que para muita gente na esquerda que se acha marxista-leninista as posições políticas diferentes decorreriam unicamente de oportunismo, de traição ou outra coisa espalhafatosa qualquer. Falam a partir de chavões sem cuidar de saber das razões concretas, da vida das pessoas e muito menos que um tipo até tenha pensado e escrito sobre o assunto.

Nunca se trata de ter ou não ter razão. Trata-se de ser ou não ser racional. Há quem viva com certezas e com pantufas mentais que não valem para grande coisa. Salvo excepções, sempre preferi as inquietações, os pontos cegos, a dúvida metódica. Lá está, não encontro melhor expressão do que sermos constantes advogados do diabo de nós mesmos e dos outros. Nesse aspecto, para uma boa parte dos seus membros, o 5 dias tornou-se uma pantufa. Uma pantufa que afaga egos, que acomoda o pensamento e que ainda serve para dar com a sola na cara dos opositores. Por uma questão de coerência comigo mesmo não seria correcto da minha parte continuar aqui. E que nada há aqui de pessoal mas tudo de político. Se fosse pessoal ficaria aqui só para chatear. Não sendo pessoal, deixo os mais fundamentalistas ao seu potlach político. Eu continuarei a dar o meu modesto contributo à luta contra o capitalismo e contra o nacionalismo noutras paragens.

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Portanto, se nada se trata de ter ou não ter razão, também não se trata do indivíduo A, B ou C por muito insensatas (e até perigosas) que sejam as ideias e o projecto político que debitam.

Sei muito bem qual o projecto político em que uma parte dos membros deste blog milita, mesmo que dele não tenham plena consciência. E compreendo desde há algum tempo o real alcance desse mesmo projecto político: reproduzir o capitalismo e a exploração económica em novos moldes e num grau imensamente superior de repressão sobre os trabalhadores e sobre os opositores. O movimento operário sempre viveu entre os ataques brutais das classes dominantes (como o que vivemos actualmente) e o papel que certas concepções dirigistas à esquerda tiveram na sua desarticulação e no subsequente aumento da exploração económica por via de gestores colocados no Estado.

A exploração não é uma relação jurídica mas uma relação social de trabalho dividida entre dirigentes inamovíveis e dirigidos assalariados e à mercê das orientações dos primeiros. Que os dirigentes instalados ocupem gabinetes num Estado “socialista” ou nas empresas privadas pouco muda do ponto de vista substantivo. A relação mantém-se no fundamental a mesma.

Quem nunca leu ou ouviu nalgum lado sobre a introdução de um gestor único nomeado pelo Partido-Estado nas fábricas soviéticas e a consequente dissolução dos Comités de Fábrica, acabando assim com a autonomia colectiva e democrática dos operários nos locais de trabalho? Quem nunca leu ou ouviu nalgum lado sobre a proibição (e repressão) das greves em diversas (e pretensas) experiências socialistas? Quem acha que nas pretensas experiências socialistas a atenuação dos problemas económicos não vivia sem uma massa de trabalho não-pago de milhões de presos comuns e de presos políticos? Quem utilizou toda essa massa humana para edificar uma economia capitalista a dirigir a partir do Estado? Quem construiu uma economia industrial de Planos Quinquenais a partir da aplicação de princípios de militarização do trabalho? Quem acha que nos regimes pretensamente socialistas o suposto controlo da inflação pela fixação dos preços não vivia sem um gigantesco mercado negro à sua volta? Quem distribuía senhas de alimentação para os que se portavam bem e quem dificultava a vida à dissidência? Quem ia aliciar comunistas de esquerda exilados, prometendo-lhes o perdão do regime para depois os fuzilar (por exemplo, Miasnikov)? Quem apoiou a reconstrução do exército alemão e ajudou a rearmar os corpos francos? Mais de um ano depois de Hitler chegar ao poder numa reunião plenária do comité executivo da Internacional Comunista, quem, numa das suas resoluções, continuou a defender delirantemente que «a social-democracia continua[va] a desempenhar a função de principal apoio social da burguesia mesmo nos países em que vigora declaradamente uma ditadura fascista»? Quem sempre reprimiu, atacou e/ou caluniou todas as iniciativas de auto-organização da classe trabalhadora, de Kronstadt à TAP em 74-75, do Maio de 68 ao Outono Quente italiano? Quem ainda hoje prefere desprezar os movimentos sociais e o carácter de espontaneidade que estes comportam? Quem não condenou a repressão policial sobre milhares de manifestantes no passado dia 14 de Novembro?

Marina Abramovic, Balkan Baroque (1997)

Marina Abramovic, Balkan Baroque (1997)

Passadas tantas e tantas experiências estatistas e repressoras um pouco por todo o mundo situadas na linhagem leninista, alguém ainda é ingénuo o suficiente para pensar que as nacionalizações que o PCP preconiza são para entregar as empresas à gestão democrática e colectiva dos trabalhadores e sem interferências externas privadas ou estatais? Alguém ainda é ingénuo para achar que os opositores colocados à esquerda e que as iniciativas autónomas da classe trabalhadora não seriam reprimidas? Quem achar que tudo isto é mero acaso ou ainda tem falsas esperanças numa corrente política que trágica mas humoristicamente se considera socialista então mais vale dedicar-se à astrologia ou à cartomancia. Pelo menos aí o hábito iria condizer com a careta…

Já escrevi um bom par de vezes que na política os indivíduos não interessam para nada. Digo isto não para subscrever a ideia mecânica de que os indivíduos não têm qualquer importância na política (que a têm) mas porque a discussão política deve ser sempre política. Quando ela deixa de o ser então já não é mais possível o diálogo e o debate de posições.

Discutir política não é discutir a lentidão verbal ou a suposta incompetência de Vitor Gaspar, desejar pegar fogo à Merkel, escrever posts unicamente com imagens chocantes e com uma frase espampanante, insultar o João Aguiar, escrever comunicados a defender a prisão de mineiros sul-africanos ou achar que a merda que vivemos hoje em dia é apenas por causa do BPN, da corrupção e do compadrio. Como é fácil e confortável a vida quando basta colocar meia dúzia de pinos ao fundo da pista, atirar-lhes com uma bola de cuspo e, no fim, refastelados, exclamar “que bela jogada!”. Entretanto, a máquina voltou a baixar mais uma catrefada de pinos. E assim se vão entretendo os incautos…

Como nota final quero deixar um abraço aos leitores que sempre debateram comigo de modo educado e sério e um abraço a alguns membros desta tasca com quem vale a pena confraternizar. Aqui merecem uma palavra especial o Bruno Peixe, o Carlos Guedes, o Renato Teixeira, a Raquel Varela e o António Paço já que, diferenças políticas à parte, foram dos poucos capazes de debater e de evitar o histerismo que caracteriza as personagens mais marinettianas da blogosfera portuguesa. Ao Nuno Ramos de Almeida e ao Zé Nuno pela sua simpatia. Ao Manuel Gusmão com quem aprendi que “o leitor escreve para que seja possível…”. Ao André Levy por me ter convidado para este espaço.

Para terminar. Posso ter sido injusto e incorrecto algumas vezes. Fui insultado do piorio muitas mais ainda. Perdi tempo a aturar pessoas que se recusam a reflectir e a evoluir. Aturei ofensas de ignorantes. Aturei acusações feitas sem qualquer fundamento. Mas enquanto existia discussão política isto aqui ainda valia a pena. Agora que isto se tornou numa espécie de Deserto de Atacama de ideias políticas não vale mesmo a pena continuar por aqui.

Agora vou gozar o presente que decidi oferecer a mim mesmo.

Segui il tuo corso, e lascia dir le gentil (Segue o teu caminho e deixa falar a gente!)

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