Da simplicidade

Ela tinha três anos quando perguntou pela primeira vez se os pais podiam ficar desempregados. Na rua, com cada vez mais pessoas a mendigar, não conseguia controlar a indignação contra quem não libertava as suas moedas. Desde os cinco que tudo quer pagar, da conta do supermercado ao carro dos avós, com aqueles círculos de metal que de nada lhe valem, mas que percebe fazerem tanta falta aos adultos.
Aos pais também compete dar segurança e aligeirar as preocupações. Explica-se-lhe para que serve o Estado. Uma entidade para a qual contribuímos, todos os meses e em todos os gastos, para que ela e todos os seus amigos independentemente da sua raça, credo ou situação financeira possam estar na escola, para que todos possamos ter cuidados de saúde ou para que os pais que fiquem desempregados possam ser apoiados. Ao Estado compete assegurar a todos os bens de primeira necessidade, tendo como limite mínimo a música do Sérgio Godinho, que conhece desde que começou a repetir lenga-lengas: “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”.
Agora, com seis anos, não se importará de ajudar o ministro Vítor Gaspar a descobrir o que deve ser o Estado. Explicar-lhe-á, sem hesitações, que o Estado não é de ninguém em particular, mas de todos. Que não pode ser vendido. Creio que o faria sem exigir remunerações faraónicas para consultorias e grupos de trabalho, ainda que não desdenhasse umas quantas guloseimas para partilhar com os amigos no intervalo da escola pública. Não creio que se impressionasse com deixar de pagar uma dívida a um banco se lhe dissessem que era por isso que a escola não podia substituir o vidro partido ou o hospital não podia dar o remédio certo à avó. Mas o pai diz que pode garantir que tem mais respeito pelo que é de todos, do que todos os consultores, assessores e deputados que apoiam esta maioria.

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