“Amour”, de Michael Haneke

Há filmes que têm a extraordinária capacidade de, emocionando-nos de forma transcendente, nos retirar algum discernimento e racionalidade para escrevermos sobre eles. Os filmes de Michael Haneke enquadram-se frequentemente neste perfil (goste-se ou não do género), mas talvez nunca como agora. A filmografia do realizador austríaco é composta por obras assumidamente implacáveis e chocantes, seja no sadismo violento de Funny Games, na perversão sexual de La Pianiste ou na morbidez dos fenómenos estranhos e da sociedade ultra-conservadora de Das Weisse Band. É certo que há aqui alguns pormenores mais crus e brutais do passado, mas Amour, Palma de Ouro em Cannes, tem contornos mais realistas e menos extremos, explorando o amor incondicional na fase terminal da vida. Um filme angustiante, mas muito, muito bonito e com um humanismo poderosíssimo.

Antigos professores de música (depois de La Pianiste, temos novamente a música clássica, o piano e Schubert em evidência), Anne e Georges são um ternurento casal de idosos cuja vida é abalada quando ela sofre um conjunto de problemas de saúde. Inicialmente, fica paralisada de um lado e agarrada a uma cadeira de rodas, mas rapidamente passa para um estado vegetativo, com perda de lucidez. Um dos aspectos mais interessantes em Amour é, desde logo, o facto de não ser um melodrama clínico tradicional, não havendo hospitais, nem médicos em cena. Quase toda a trama se passa no apartamento do casal e é através de diálogos com uma forte carga psicológica que nos apercebemos de toda a evolução trágica. Alías, para além de Anne e Georges, com interpretações superlativas de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, e da filha Eva (a divina Isabelle Hupert), todas as restantes personagens têm papéis muito curtos e cirúrgicos.

De alguma forma, este filme aborda os limites da vida e a dignidade humana num momento terminal e paliativo e, nesse campo, há alguma aproximação ao pesadíssimo Breaking the Waves, de Lars Von Trier. Contudo, fiel ao título, o ponto principal é mesmo o amor dedicado, a tempo inteiro, sofrido e quase insano (como se verifica em alguns momentos) de um homem impotente perante a perda progressiva da mulher. E também a questão das memórias, da reflexão sobre o passado, seja de Anne quando vê os álbuns de fotografias (“a vida é tão comprida”, exclama), de Georges quando lembra a mulher saudável ou do pianista e antigo aluno Alexandre quando recorda a aprendizagem da peça Bagatelles (é possível não ficar com os olhos molhados de lágrimas ao longo deste cena?).

Com um final sóbrio e cuidado (a cena do pássaro é deliciosa), Amour é um filme de uma tristeza profunda, de comoção e muitas lágrimas, mas também de uma beleza assombrosa, directamente da alma de quem o fez para a alma de quem o vê. E não é só um dos melhores filmes de 2012, é também um dos melodramas românticos (num sentido peculiar e devidamente abrangente) mais notáveis que o cinema terá visto em muito tempo.

9/10

(texto originalmente publicado no site Arte-Factos)

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

2 respostas a “Amour”, de Michael Haneke

  1. Iuri Palma diz:

    Eu simplesmente C-H-O-R-E-I ao ver este filme. E foi uma coisa totalmente invonluntária. Haneke tem a capacidade de abrir uma ferida na espectador e ficar futricando até a criatura ficar exangue, acabada totalmente. Defiitvamente não existe maior diretor na atualidade.

    • João Torgal diz:

      “Haneke tem a capacidade de abrir uma ferida na espectador”. Sem dúvida… só que, sem perder nem um pouco do seu estilo característico, consegue desta vez fazer isso de uma forma humanista e mais realista. Uma obra-prima

Os comentários estão fechados.