A minhoca e a maçã. A esquerda nacionalista e o euro – parte II

Aqui seguem excertos da segunda parte do artigo que comecei a publicar na semana passada. Ambas as partes podem ser lidas aqui e aqui.

«Na parte anterior desta série situei-me no plano da caracterização de algumas das propriedades fundamentais da economia portuguesas e de como estas obstaculizam a viabilidade de uma saída do euro. Aqui estenderei a crítica a outra vertente complementar: os impactos de uma saída portuguesa e/ou grega do euro não apenas teriam consequências e custos nos respectivos países mas em toda a Europa. E sobre todos os trabalhadores.

Não é por se regressar ao escudo que as gravosas e terríveis políticas de austeridade iriam retroceder. Bem pelo contrário. Com um aparelho produtivo sustentado numa baixíssima produtividade, com uma balança corrente altamente deficitária e com uma integração económica muito forte com a União Europeia, como a economia portuguesa poderia construir uma economia auto-centrada (se é que é desejável)? A isto somar-se-ia um encarecimento enorme na compra de maquinaria, combustíveis, alimentos, etc. o que tornaria a situação ainda pior… A isto somar-se-ia um Estado ainda mais repressivo e até eventualmente fascista pois perante o choque económico, a enormíssima perda de poder de compra e o desemprego galopante só assim se poderia conter as mobilizações sociais.

Dito isto, parece-me óbvio que não há aqui uma defesa do euro ou das políticas de austeridade. Pelo contrário, eu defendo o caminho menos curto e que permite mais condições para o desenvolvimento das lutas sociais. Se sairmos do euro a Europa vai esfrangalhar-se em pedaços com os trabalhadores alemães a dizer que a culpa da sua igualmente enorme perda de poder de compra seria dos portugueses e dos gregos e estes a dizerem que a culpa será dos alemães… Dentro deste ciclo de mútuas acusações renascerão as condições para a eclosão de experiências nacionalistas. Ou para ser ainda mais directo esses serão óptimos tempos para o avanço dos fascismos. E em jeito de abertura desta segunda parte só acrescento mais isto e que funciona como um apelo à reflexão a todos os que se consideram anticapitalistas: se a esquerda nos anos 20 e 30 era incomparavelmente mais poderosa (independentemente do que achamos das suas várias correntes), se a tradição de lutas autónomas e de tentativa de controlo da vida económica ainda estava bem vivo na classe trabalhadora e mesmo assim perante o descalabro económico de então não se conseguiu deter o fascismo, como se iria conseguir isso hoje quando o actual estado da esquerda e do movimento operário é muitíssimo inferior?

A lucidez perante o actual contexto exige que perante as iníquas medidas de austeridade a esquerda seja capaz de não apresentar uma alternativa política ainda mais nociva e ainda mais perigosa. Entre o mau e o pior, e em vez de escolher entre duas péssimas soluções, a esquerda anticapitalista deve reflectir sobre como ultrapassar esta dicotomia. Enquanto isso não acontecer, o andamento das coisas continuará a ser ditado pelas classes dominantes. As actuais e as que se colocam em bicos de pés a ver se ocupam o lugar das primeiras».

Continua aqui.

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