“O Substituto”, de Tony Kaye

Desengane-se quem pense que O Substituto é apenas ou essencialmente um filme sobre o sistema de ensino e sobre a relação entre professores e alunos numa escola problemática. Quem procurar algo do género, nada como ver o filme francês A Turma, em que toda o processo é apresentado de forma devidamente complexa e sem o travo demagógico e simplista de um Mentes Perigosas. Aqui, a escola é apenas o ponto de partida para uma análise social bem mais global.

O Substituto aborda um professor que, fruto das memórias profundamente traumáticas da infância, evita a todo o custo a estabilização numa escola, optando por uma actividade profissional nómada que não implique a criação de grandes laços afectivos com colegas e alunos. Assim, o que aqui temos é um denso e forte retrato psicológico de um homem, extraordinariamente interpretado por Adrian Brody, dividido entre os problemas do passado, uma postura fria como defesa para a revolta interior e a necessidade de alguma libertação, exposta não só nos momentos de maior descontrole, mas também na solidariedade mais descomprometida e dedicada (considere-se, por exemplo, o acolhimento da jovem prostituta). Mas é também mais do que isso…

Talvez o mais importante no filme seja o mosaico de pequenas histórias, pequenas personagens, pequenos momentos que, como um todo, funciona como um retrato poderoso e negativo de uma sociedade individualista e massificada (no pior sentido), em que os cidadãos são apenas números de um mundo sem alma. A força da mensagem  é ampliada por uma filmagem muito crua e in your face, por uma belíssima fotografia e por deliciosos interlúdios, quase documentais, do professor Barthez (Brody), sem que a narrativa perca consistência, antes pelo contrário. E também porque, sem clichés baratos (salvo pequeníssimas excepções), há, entre a denúncia mais pessimista, travos muito bonitos, de um humanismo redentor e confortante, capazes de dar algum sinal de esperança.

Enfim, catorze anos depois da obra-prima América Proibida, abordagem visceral ao racismo e à extrema-direita nos Estados Unidos, mais um belo filme do britânico Tony Kaye. Daqueles que junta um belo texto, uma estética apurada e uma mensagem forte, que envolve o espectador nas suas reflexões mais profundas.

8/10

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