25N Eleições na Catalunha. A Esquerda Radical Independentista soma e segue. É mais uma acha pá fogueira.

Hoje houve eleições na Catalunha… A Esquerda Republicana Catalã (ERC) mais que duplica o seu resultado e é a segunda força política no Països Catalans. A Candidatura de Unidade Popular (CUP), coligação de movimentos e partidos de extrema-esquerda, que pela primeira vez concorre a estas eleições, elege 3 deputados. Os resultados podem ser consultados aqui, aqui ou aqui.

A Direita soberanista CiU é a força mais votada, mas recua. O campo pró-soberanista dispõe de uma clara maioria, sendo que dentro desse campo as componentes mais à Esquerda e claramente Independentista reforçaram-se grandemente.

Para compreender o significado deste resultado convém fazer um curto flash-back ao passado mais recente.

Para deflectir a fúria popular contra as suas políticas austeritárias a CiU tentou cavalgar a histórica manifestação de 11 de Setembro, em que mais de um milhão de pessoas gritou pela independência da Catalunha. A CiU propôs a renegociação da distribuição e controlo dos impostos cobrados na Catalunha com Madrid. Sendo a região mais rica do estado espanhol, a Catalunha é também a que tem a maior dívida. A resposta do PP foi a que se esperava, nem pensar nisso, não haveria um novo pacto fiscal entre o imperialismo castelhano e a Catalunha. Em resposta a CiU provocou novas eleições e comprometeu-se a convocar um referendo sobre a auto-determinação da Catalunha após as eleições regionais (de hoje). O objectivo da direita semi-nacionalista (CiU) era sobretudo o de atirar as culpas das suas políticas direitistas e austeritárias para cima dos espanholistas/semi-fascistas do PP no poder em Madrid. Mas (lider da CiU) só à última da hora disse que participava/apoiava/compreendia a manifestação independentista de 11 de Setembro e só depois do seu estrondoso sucesso é que se atirou “a pés juntos” para a via “a caminho da auto-determinação”…

Esta estratégia do Mas/CiU acabou por não ter o resultado esperado, a CiU não atinge a maioria absoluta e recua face às últimas eleições, mas mantém-se como a força mais votada na Catalunha… Olhando para aquilo que noutras paragens tem sido os resultados eleitorais obtidos pelos partidos no poder pró-austeridade, é caso para dizer que a CiU até nem esteve nada mal… Quanto às forças espanholistas pró-Troika e austeridade vêm-se ultrapassadas pela Esquerda Republicana Catalã, por mais que o El Pais queira enfiar a cabeça na areia como a Avestruz, a verdade é que a Esquerda Radical Independentista é a grande vencedora desta noite, o mau resultado na CiU não é uma derrota das forças pró-independentistas. Antes pelo contrário, o que houve foi uma enorme deslocação de votos para as forças que de forma mais coerente e decidida lutam pela auto-determinação do povo catalão, por uma Catalunha livre da monarquia bourbon que é  filha e aliada do franquismo.

Facto crucial é que estas eleições se dão no contexto da mais grave crise económica desde a transição do franquismo… A luta de classes e popular no estado espanhol tem tido um claro ascenso, a Catalunha é onde se têm travado das mais duras batalhas, nomeadamente no levantamento de 14 de Novembro de 2012. Na Catalunha, às contradições sociais e de classe, acrescenta-se a questão da auto-determinação. Em alturas de intensa crise as velhas feridas abrem-se e somam-se às novas. Este é um caldo explosivo e é, no mínimo, mais um pau na engrenagem dos planos austeritários-troikistas. O reforço do movimento independentista de Esquerda na Catalunha é uma séria ameaça à ofensiva reaccionária em curso por esta Europa fora, sobretudo no Estado Espanhol.

Em resumo os factos e significado fundamentais destas eleições são:

1 – Reforço da Esquerda Radical. A ERC é a segunda força na Catalunha mais que duplicando a sua votação. A CUP concorre pela primeira vez e toma três lugares no parlamento catalão. A Esquerda Unida (EUIA) também sobe. Estas três forças somadas têm 27,07% dos votos. Face à crise sem precedentes que se abateu sobre a Europa, na Catalunha as forças mais à Esquerda são quem mais sobe. Dadas as especificidades do processo histórico, a Esquerda Radical na Catalunha é a grande porta bandeira da luta centenária pela independência e auto-determinação do povo catalão vis à vis o centralismo imperial de Madrid, imposto por Franco e cujo herdeiro actual é o PP.

2 – A causa independentista sofre um grande impulso. O referendo é para ir avante. A independência da Catalunha não será para amanhã e o reforço dessa via dependerá (no futuro próximo) sobretudo de como as forças semi-fascistas/espanholistas reagirem. Mas a ideia ganha força “A ERC representa a opção mais clara pela independência, que sempre defendeu, e centrou a campanha na ideia de só uma forte presença sua no Parlamento poderia obrigar Artur Mas a cumprir a sua palavra e a não deixar cair o projecto soberanista.”

Para lá da justa reivindicação histórica da auto-determinação das nações forçadas a integrar o estado espanhol, o mais relevante no contexto da luta popular internacional, é que a desintegração do estado espanhol (ou a real possibilidade de um tal cenário) constitui uma muito séria ameaça à avalanche reaccionária em curso. Ainda para mais, quando quem encabeça a luta pela independência são forças de Esquerda proto-revolucionárias.

3 – As forças do regime e potencial agudizar das contradições. Debacle do Partido Socialista, crescimento marginal do PP (é a quarta força… mesmo assim atrás do PS da Catalunha, o PP consegue mais um deputado que aqueles que tinha), crescimento dos nacional-tótós do “Partido da Cidadania” (estes pseudo social-democratas espanholistas metem-me cá um asco…). Ou seja, face à onda independentista há um muito marginal crescimento do PP e sobretudo uma provável deslocação de votos do PS para os nacional-tótós (porque não estão poluídos pela passagem pelo poder e são mais claramente espanholistas)… A estratégia “humpty dumpty” de ficar em cima do muro (ou fingir que se está em cima do muro…) não encaixa no actual momento histórico. Estes são tempos em que as massas exigem clareza e determinação, o pessoal não está para “paninhos quentes”, quem ficar hesitante, no meio, vai levar porrada de ambos os lados e ser triturado.

Face aos ganhos marginais das forças espanholistas e retrocesso da CiU, poderá haver a leitura em Madrid que a causa soberanista perdeu folgo, poderá haver a tentação de responder de forma inflexível e autoritária à convocação do referendo e outras reivindicações soberanistas. Isso seria a “tempestade perfeita”. Isso a acontecer será excelente, se a Esquerda Radical jogar bem, a postura inflexível dos espanholistas empurrará a CiU para uma postura mais radical. Irão-se aprofundar os ressentimentos Catalunha vs espanholistas e o caminho independentista será visto como única alternativa viável por um número crescente de Catalães. Será mais uma valente acha para a fogueira da luta popular contra a austeridade neo-liberal.

4 – Da importância das contradições inter-imperialistas e das divisões no seio da classe dominante. As contradições entre os espanholistas do PP e a direita nacionalista CiU não deve ser sobrevalorizada, mas também não deve ser tratada como uma “guerra de alecrim e manjerona” sem consequências. Estas divisões no seio da classe dominante enfraquecem o poder das elites dominantes e abrem espaço às forças subversivas. Neste caso em específico, a CiU ao tentar agarrar-se à bóia independentista, mais do que evitar o seu naufrágio, o que fez foi dar legitimidade e força à causa independentista e aos seus mais honestos porta-bandeiras… A ERC e a CUP.

Qualquer revolução só é bem sucedida quando as classes dominantes estão divididas e desmoralizadas. Quando a defesa do corrente status quo não as mobiliza e quando ainda não dispõe de uma alternativa consensual que polarize o seu apoio – e atenção!!! se lhes for dado tempo suficiente acabarão por encontrar uma alternativa sua, geralmente de carácter bem mais autoritário e repressivo que o anterior status quo.

Face a isto, as tarefas da Esquerda Revolucionária são: a) perceber quando existem divisões no seio da classe dominante que vão para além do teatrinho mediático para “zé povinho ver” b) reconhecer a oportunidade e espaço que se abre quando existem, de facto, essas divisões de alguma substância no seio das classes dominantes c) tendo como prioridade  o crescimento, radicalização e politização do movimento popular, fazer o máximo ao seu alcance para aprofundar as contradições dentro da classe dominante.

5 – Previsões e análise da realidade, fariseus vs 5dias. Para os mais cépticos recomendo a leitura deste meu post, escrito aquando das últimas eleições gerais no Estado Espanhol. Passado um ano, é verificar se a análise e previsões mais correctas e relevantes se encontrão aqui no 5dias, ou se são as dos fariseus

Aliás, muitos deles boys/assessores que recebem subsídios de férias e restantes mordomias enquanto pregam à plebe a acomodação à miséria e destilam o seu ódio sobre quem luta por mais justiça. Na verdade essa escumalha arrogante tem apenas uns quantos conhecimentos superficiais e genéricos acerca da realidade, a sua verdadeira especialização é o “lambe-botismo” ao poder instituído.

INDEPENDÊNCIA, SOCIALISMO E REVOLUÇÃO

Na Catalunha, em Portugal e em todo o mundo!

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