Somos todos arguidos


(imagem daqui)

Há mais de um mês a Mariana Avelãs recebeu a visita da polícia. Vinham notificá-la para comparecer na esquadra no âmbito de uma “manifestação ilegal” alegadamente realizada no momento em que a manifestação “Que se lixe a troika!” era anunciada à imprensa. Na esquadra, foi informada que a conferência de imprensa se tratava de uma manifestação ilegal pelo facto de ter sido aberto um pano na qual se podia ler uma mensagem política. Foi constituída arguida com termo de identidade e residência.
Ontem, várias pessoas entre as quais me incluo divulgaram publicamente o caso através deste texto, que deu origem a uma onda de solidariedade e inúmeras notícias na comunicação social. Ao final da tarde, a Mariana foi informada por um jornalista que o seu processo teria sido, até ver, arquivado.
Podemos cantar vitória? Não. Bem pelo contrário.
A constituição de arguido está a ser usada como uma arma de arremesso político para limitar o direito ao protesto e à manifestação – e o caso da Mariana deixa-o muito claro. O termo de identidade e residência permitia o controlo de uma activista ainda que o governo (sim, responsabilizo o governo e não a polícia!) soubesse que não tinha nenhuma hipótese de ganhar o caso. Enquanto a Mariana esteve sozinha e poucos sabiam, essa era uma forma de coagi-la, mantendo-a sob pressão. A partir do momento em que o caso saltou para os jornais, toca de varrer o lixo para debaixo do tapete.
O problema é que este não é um caso isolado. Ontem, um sindicalista da CGTP, comentava no facebook que já tinha tido 30 processos a decorrer ao mesmo tempo e que, actualmente, tinha três termos de identidade e residência. Ou seja, ao mesmo tempo que Macedo elogia publicamente a CGTP, procura coagir e limitar a acção dos seus sindicalistas.

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6 Responses to Somos todos arguidos

  1. Armando Cerqueira diz:

    Trata-se de uma transição ‘en douceur’ para o salazarismo/mmarcellismo…, de um regresso ao passado, afinal os antepassados culturais, sociais, ideológicos desta corrente do PPD…

    Espanta-me que a maior parte da nossa ‘intelligentzia’ de esquerda ainda não o tenha compreendido…

    Armando Cerqueira

    • De diz:

      Estou de acordo.Embora ache que a transição não será por muito tempo en douceur.
      O avolumar da dita austeridade e das medidas de terrorismo social vão apressar inevitavelmente o relógio…

      E concordo também com Caxineiro. Eles sabem mais do que pode desunir os trabalhadores do que a nossa capacidade em dar uma resposta conjunta.

    • Carlos Carapeto diz:

      Oh Armando Cerqueira. Mas só agora é que se apercebeu que estamos a regressar ao passado?
      Disse ou fez alguma coisa para alertar do perigo que era os descendentes do Salazarismo conquistarem o poder?

      Se o fez desejo saber onde estão os seus avisos sobre o perigo que iria-mos correr se tal viesse a acontecer ?

      Espanta-se porque tem andado a ler a imprensa errada.
      Há quem nunca deixou de martelar nessa questão prevenindo dos perigos que se avizinhavam. Para nosso mal a professia cumpriu-se.

      Se pretende fazer criticas à esquerda, também não seja tão modesto.
      Ou será falta de conhecimento saber aquilo que está a acontecer por toda a Europa?

      Aqui em Portugal ainda somos dos mais combativos.
      Porque na maior parte dos outros países as ditas esquerdas foram completamente sufocadas por poder do capital.

      Ignora isso?

  2. Caxineiro diz:

    atenção a esses “elogios” do Macedo que a única coisa que pretende é lançar trabalhadores contra trabalhadores e o resto da população contra todos

  3. António Paço diz:

    Chama-se «assédio jurídico», uma prática de certas empresas-piranhas que este governo parece decidido a adoptar.

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