Debaixo da calçada não estava a praia

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Muito se tem escrito sobre o telegénico apedrejamento da polícia, a sua não intervenção durante duas horas e a forma indiscriminada como carregou. Neste texto não me interessa convencer o leitor da bondade de uns e outros mas sim alertar para o que se lhe seguiu.
No mesmo dia foram feitas dezenas de detenções. A 2 km de S. Bento, polícias à paisana detiveram jovens quem ia a passar na rua – alguns declaram não ter estado na manifestação. Aos detidos foi negado o direito de contactar a família e às famílias informação sobre os seus paradeiros. Para serem libertados vários dos detidos alegam ter sido coagidos a assinar um auto com a acusação em branco. Os relatos que começam a chegar das esquadras falam em agressões, humilhações e, pasme-se, revistas às partes íntimas.
Nos dias imediatamente a seguir, fonte do comando policial soprava para os jornais que estariam a poucas horas de realizar mais 30 detenções de perigosos extremistas ainda que começassem a circular imagens de uns quantos apedrejadores encapuzados particularmente familiarizados com o corpo de intervenção. Entretanto a televisão pública de Relvas decidia fornecer não se sabe bem a quem todas as horas de filmagens das várias câmaras que tinha no local.
Mas este soar das campainhas de um estado policial não é novo. Veja-se o caso de três dos activistas envolvidos na organização da pacífica manifestação de 15 de Setembro que, durante o decorrer deste ano, já foram constituídos arguidos – um por fazer uma pintura mural, outro por distribuição de panfletos, outro por ter sido identificado na conferência de imprensa que anunciava a manifestação que o agente terá considerado como um acto político não autorizado.
Por vários motivos Portugal está a ficar um país perigoso. Para que se consiga continuar a respirar em democracia é fundamental que não tenhamos medo de nos continuar a manifestar.

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15 Responses to Debaixo da calçada não estava a praia

  1. Pedro Marques diz:

    http://www.facebook.com/joao.casanova1/posts/522126697798984 O que é mau é que não são casos únicos, tens estes da CGTP, da JCP, e depois tens aqueles casos que o Renato menciona da violência nos bairros sociais.

  2. ignatz diz:

    “A 2 km de S. Bento, polícias à paisana detiveram jovens quem ia a passar na rua – alguns declaram não ter estado na manifestação.”

    fugiram por ali abaixo inocentenente, virando e incêndiando caixotes do lixo e destruindo mais uns equipamentos urbanos, tudo coisas legais desde que não praticadas à porta da assembleia.

    “Aos detidos foi negado o direito de contactar a família e às famílias informação sobre os seus paradeiros.”

    pois, parece que o check in de monsanto não tem capacidade para excursões, o atendimento é lento e com clientela exigente é difícil tratar todos os pedidos com igual urgência.

    “Para serem libertados vários dos detidos alegam ter sido coagidos a assinar um auto com a acusação em branco.”

    quem tinha pressa e não esteve para esperar pelo preenchimento da papelada, pôde optar livremente por essa coacção.

    “Os relatos que começam a chegar das esquadras falam em agressões, humilhações e, pasme-se, revistas às partes íntimas.”

    fotografias das agressões, néria e quanto ao resto só o facto de ir na ramona já é humilhação, quanto mais ser revistado numa esquadra.

    • Neri Moreira diz:

      Bolas que este ignatz deve ser muito bem relacionado na PSP aí de Lisboa…

    • De diz:

      Igatz continua a arvorar um primitivo estado de negação.
      Negação dos factos.Afirmação sim da versão do ministro macedo e do seu governo de pulhas.
      Compreende-se que, a pretexto da defesa do status quo governamental, igatz se pronuncie sobre a fuga pelas ruas abaixo.Não estava lá.Estaria em 25 de Abril de 1974 a fugir para o curro da antónio maria cardoso se já tivesse nascido? Apostaríamos que sim.
      Agora faz o que pode na defesa da artilharia fascistóide que pouco a pouco este governo de neoliberais caceteiros destapa.O check in do igatz é apenas o desejo de voltarmos ao tempo em que todas as barbaridades se podiam cometer. Assume-se como um baboso apologista da ilegitimidade troglodita e range os dentes quando lhe mostram fotografias das agressões.
      Palavras para quê?É o prototipo dos moços do relvas.Com um toque boçal pidesco a condizer.

    • A.Silva diz:

      ignatz e o gosto que a direita tem em mostrar como são boçais!

  3. xico diz:

    2 Km de São Bento! Lisboa não é tão grande assim. Em linha recta não vão 2 Km de S. Bento ao Castelo. Alguém disse que só a verdade é revolucionária.
    Admira-me (se é que ainda me consigo admirar) que um blog ligado a comunistas, trate tão mal a memória dos seus camaradas vítimas do fascismo, com comparações entre o que aconteceu com aquilo que acontecia no tempo da pide.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Se o xico consegue ir em linha recta, tudo bem. Não possuo esse dom. Quanto à comparação entre a situação actual e o fascismo tem andado desatento. Jerónimo de Sousa tem-na utilizado com cada vez mais frequência.

      • xico diz:

        Vou-lhe contar como era no final da década de 70, já passados 4 anos após o 25 de Abril. Numa tarde qualquer, onde nada acontecia ou acontecera, na baixa de Coimbra, chegava a ramona, fechava-se a Ferreira Borges nos dois extremos opostos, e tudo o que se mexesse dentro da rua ia dentro, novos e velhos. Na esquadra ninguém dava explicações, ninguém autorizava coisa nenhuma, todos eram devidamente revistados e a identificação feita. Depois de umas horas, mandava-se o pessoal embora. Era assim depois do fascismo. É preciso preservar a memória e não fazer comparações patetas. Pensei que para quem acredita em detenções de gente a 2 kms sem nada terem feito, também acreditasse em linhas retas. Eu que estava a muitos mais kms não abri a porta a ninguém com medo que me detivessem. Traumas que me ficaram de viver em países com regimes louvados por Jerónimo de Sousa.

        • Pedro Marques diz:

          Tudo isso depois do 25 de Novembro! Lembra-se o que foi? Eu não me lembro, ainda estava nos coisos do meu avô, mas que foi uma contra-revolução foi.

          • xico diz:

            Antes dessa contra-revolução era pior. Não se lembra porque não pode. Havia prisões arbitrárias sem qualquer julgamento (não detenções), e sem culpa formada.

          • De diz:

            Errado xico.
            Antes dessa contra-revolução não era pior.
            Viviamos um processo complexo de facto.Mas o dito PREC foi infinitamente mais favorável a quem trabalha do que os momentos que estamos a atravessar.
            Nem vou perder tempo a enumerar os dados.Eles estão aí e podem ser consultados, e quem for justo e assumir uma postura independente sabe tirar as devidas conclusões.
            Hoje em dia retornamos em certa medida ao tempo pré-25 de Abril.Do ponto de vista social.E se não é ainda justo dizer que do ponto de vista da repressão estamos pior do que antes de Abril, já é uma realidade que em muitas matérias laborais e sociais estamos pior hoje do que em 1973.
            Quanto aos sinais de repressão eles avolumam-se.E só mesmo um cego não quer ver.

            Ficará para depois a comparação entre o que narra e o que se passou no presente.Porque comparação não tem.Nem nos propósitos nem nas intenções.

    • De diz:

      A repetição ainda se aceita.Já os nicks salteados dá que pensar.
      🙂

      Mas uma pergunta indiscreta.Quem é este guedes que aqui é citado?

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