Debaixo da calçada não estava a praia

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Muito se tem escrito sobre o telegénico apedrejamento da polícia, a sua não intervenção durante duas horas e a forma indiscriminada como carregou. Neste texto não me interessa convencer o leitor da bondade de uns e outros mas sim alertar para o que se lhe seguiu.
No mesmo dia foram feitas dezenas de detenções. A 2 km de S. Bento, polícias à paisana detiveram jovens quem ia a passar na rua – alguns declaram não ter estado na manifestação. Aos detidos foi negado o direito de contactar a família e às famílias informação sobre os seus paradeiros. Para serem libertados vários dos detidos alegam ter sido coagidos a assinar um auto com a acusação em branco. Os relatos que começam a chegar das esquadras falam em agressões, humilhações e, pasme-se, revistas às partes íntimas.
Nos dias imediatamente a seguir, fonte do comando policial soprava para os jornais que estariam a poucas horas de realizar mais 30 detenções de perigosos extremistas ainda que começassem a circular imagens de uns quantos apedrejadores encapuzados particularmente familiarizados com o corpo de intervenção. Entretanto a televisão pública de Relvas decidia fornecer não se sabe bem a quem todas as horas de filmagens das várias câmaras que tinha no local.
Mas este soar das campainhas de um estado policial não é novo. Veja-se o caso de três dos activistas envolvidos na organização da pacífica manifestação de 15 de Setembro que, durante o decorrer deste ano, já foram constituídos arguidos – um por fazer uma pintura mural, outro por distribuição de panfletos, outro por ter sido identificado na conferência de imprensa que anunciava a manifestação que o agente terá considerado como um acto político não autorizado.
Por vários motivos Portugal está a ficar um país perigoso. Para que se consiga continuar a respirar em democracia é fundamental que não tenhamos medo de nos continuar a manifestar.

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