Amadores do Protesto

Ao contrário do que o ministro diz, um iletrado da história dos conflitos sociais, naquela manifestação só havia amadores do protesto. Por isso é que 100 polícias conseguiram mandar uns petardos e 10 000 pessoas fugiram como baratas tontas podendo ter sido mortas só no acto de fugir (e a responsabilidade pelos assassinatos seria única e exclusivamente do Governo).
 
Os mineiros da África do Sul, com uma greve acompanhada de catanas no mês passado, conseguiram quase triplicar o salário. Na Argentina, há 10 anos, os bancos tinham que ter grades 24 horas por dia e 4 presidentes tiveram que demitir-se, tendo um deles fugido de helicóptero, depois de sitiado no Palácio Presidencial; no Novo Mundo, em 1830, os escravos incendiavam as plantações e em todos os estados dos EUA houve escravos condenados por assasinar o seu dono; em Buenos Aires em 2000 havia um grupo de advogados cuja função era defender quem passa fome e tinha roubado comida como «presos políticos»; os mineiros das Astúrias, ainda este ano, descarregaram sobre a polícia que reconheceu publicamente «ter medo deles» e foram recebidos como heróis em Madrid por um milhão de pessoas; durante a greve da Vittel em França em 1970 os operários furaram as garrafas todas que fabricaram; em Turim, em 1980, quando a polícia carregou sobre os operários da Fiat, choveram vasos, atirados pelas mamãs italianas!, do alto das janelas, sob a cabeça dos polícias; em 68 Paris ardia sobre barricadas e pedras da calçada; em 1974 e 1975 Portugal era o país do mundo que mais sequestros tinha de patrões; o Movimento Sem Terra no Brasil ocupa terras levando a bíblia numa mão e uma catana na outra. Em todos estes protestos que referi a violência é organizada em sindicatos, partidos, comités de fábrica ou organizações clandestinas e têm reivindicações económicas e políticas claras e logram ter apoio de massas fora para as suas acções.
Em 1974 nasceu, da revolução, o Pacto Social. Na crise de 81-84 mataram o Pacto Social e nasceu a Concertação Social, dando origem ao neoliberalismo, que sinteticamente dividiu por quase 30 anos os trabalhadores portugueses em 2 – os precários e os que tinham «direitos adquiridos» ou que foram mandados para casa com reformas antecipadas. Esta crise, por necessidades do próprio processo de acumulação de capital, está a destruir os direitos da franja de trabalhadores que ainda tinha direitos. Não sobra portanto nenhuma base social a este regime, a não ser a polícia.
Esta carga policial, que devia ser condenada sem nenhum «mas», visa amedrontar não os «amadores do protesto» mas os profissinais que aí vêm, como foi referido em diversos meios. Requisições civis ou serviços minimos sobre os estivadores, «radicais» detidos e ameaçados nas capas dos jornais, carga policial sem travão, violência sobre os piquetes de greve; tudo isto é o caldo de quem está desesperado, como este ministro, porque compreendeu que as suas medidas estão a juntar a uma  só voz aquilo que ele quer impedir – os trabalhadores precários, os desempregados e os que (ainda) têm direitos.
O fim do Pacto Social, com este massacre da Troika/PS/PSD/CDS, é também o fim da base de apoio deste regime. O Ministro tem razão quando diz que os confrontos se deram depois da manifestação da CGTP mas não percebeu, ofuscado pelas luzes da televisão, que a carrinha de som da CGTP saiu mas os trabalhadores ficaram.
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