o estado a que chegámos [ texto de Sara Figueiredo Costa ]

O texto é grande, mas tinha de ser.

Não tenho vontade nenhuma de discutir as pedras. E não tenho vontade nenhuma de discutir as pedras porque não posso tolerar que sirvam de argumento para o que se passou ontem em S. Bento, nas ruas adjacentes, no Cais do Sodré. Discutamos as pedras mais tarde – e discutamos também a quantidade (e a visibilidade) de polícias à paisana, o mistério que pode explicar a incapacidade de a polícia resolver um distúrbio localizado (como já fez noutras manifestações, recentes, sem espancar a eito tudo o que mexia), o modo de nos continuarmos a manifestar todos juntos, etc, etc, etc. O que não é aceitável é pensar que as pedras sejam uma justificação para a polícia de choque varrer indiscriminadamente o Largo de São Bento, perseguir as pessoas pelas ruas à volta e andar a caçar manifestantes pelo Cais do Sodré. Quem esteve em S. Bento ontem viu bem que, na linha da frente da manifestação, algumas pessoas atiravam calhaus contra os escudos da polícia, e que puderam fazer isto durante muito tempo. Quem lá esteve também viu como de repente a polícia avançou em bloco, sem nenhuma intenção de cercar quem a apedrejava, sem nenhum gesto que mostrasse que estavam a tentar deter os autores das pedradas; a polícia avançou para carregar indiscriminadamente, e fê-lo porque tinha ordens para limpar o perímetro (talvez porque havia gente na Assembleia da República? É uma pergunta, não uma afirmação disfarçada) e tinha carta branca para arrasar tudo. É importante que se perceba isso: a polícia obedece a ordens, não decide sozinha que vai espancar todas as pessoas, novas ou velhas, que lhe aparecerem à frente (e isto não é uma forma de desculpabilizar a polícia; é só para não nos esquecermos de onde vêm as ordens). E quem lá esteve viu o resto: as bastonadas cegas, as pessoas apanhadas, deitadas no chão e espancadas sem apelo nem agravo, as mãos no ar com pedidos de ‘parem com isso, não fizemos nada de mal’ a terem como resposta mais bastonadas, e depois a perseguição. Não sei como foi na Rua de S. Bento, na Calçada da Estrela e na rua que vai dar ao ISEG, porque eu fugi pela D. Carlos I. Aí, pude ver as sucessivas investidas da polícia de choque, empurrando toda a gente, obrigando-nos a correr como se tivéssemos cometido algum crime, mas sobretudo como se fossemos peões de um jogo, um daqueles jogos onde manda o menino que tem a bola – corram, porque nós não vamos parar, e corram muito, porque depois de os termos espalhado ainda vos vamos caçar. Foi isto que aconteceu depois. Não me contaram, eu vi. E vi porque fiquei pela D. Carlos I, tentando perceber se a polícia ia recuar, se ainda teríamos força para nos reagruparmos, se poderíamos voltar a juntar vozes contra o medo. Fiquei também para tentar perceber onde estava um amigo que tinha ficado para trás, e depois fiquei porque falei com ele e soube que tinha a cabeça partida e que estava no quartel dos bombeiros a meio da rua. Não pude ficar muito tempo no mesmo lugar, porque a caça tinha começado. Algumas pessoas pegavam fogo a caixotes do lixo, a maioria tentava perceber se era seguro continuar na rua ou se a polícia iria continuar a perseguição. Quando soube que o meu amigo já estava numa ambulância a caminho do Egas Moniz, decidi sair dali. E quando estava a chegar à 24 de Julho, a polícia voltou a avançar, as pessoas que por ali estavam desataram a fugir e a notícia das balas de borracha chegou num instantinho, obrigando toda a gente a correr, incluindo muitas pessoas que passavam pela 24 de Junho sem virem da manifestação (provavelmente, algumas dessas pessoas foram as que deram com os costados nos calabouços de Monsanto passado pouco tempo, sem saberem porquê nem como, e que por lá ficaram sem acesso a advogado). Isto é o que posso relatar sobre o que vi nos locais onde estive. Mas mais importante do que os relatos é marcar estes pontos: a carga policial de ontem não tem, não pode ter, nenhuma justificação; a polícia não agiu para parar a “meia dúzia de manifestantes” (palavras do ministro da Administração Interna, não minhas) que estavam a atirar pedras, porque ninguém trava meia dúzia de pessoas à pedrada com uma carga militar que acerta em todas as outras; pessoas perseguidas pelas ruas, gente detida aleatoriamente, detidos impedidos de falar com os advogados e autos em branco não são, nunca serão, coisas toleráveis numa democracia, sendo, pelo contrário, coisas que ajudam a definir a ausência de democracia.

Que depois de tudo isto tenhamos assistido ao desfile dos painéis de comentadores a falarem das pedras, discutindo se quem as atirava era estrangeiro, estivador, anarquista, mal vestido ou outra coisa qualquer daquelas que incomoda os painéis de comentadores, em vez de os ouvirmos falar sobre a gravidade do que tinha acontecido e estava a acontecer; que depois de tudo isto tenhamos ouvido o secretário da CGTP, que convocou uma greve que foi gigantesca e um enorme sucesso, dizer que lamentava o sucedido, mas sem um comentário sobre a violência policial e as questões que referi atrás e que, parece-me, são graves e muito importantes, independentemente de afectarem os trabalhadores da CGTP (de quem o secretário geral fala como se fossem os únicos trabalhadores legítimos, os únicos que sofrem na pele a crise, os únicos que podem, sabem, estão legitimados para protestar e pensar em mudar alguma coisa); que tenhamos tido relatos televisivos onde muitos jornalistas deram a entender que a polícia teve de agir assim porque havia petardos e pedras (não sei se esses jornalistas têm estado nas manifestações, mas tem havido petardos e pedras em todas sem que a polícia tenha usado esse pretexto para espancar e perseguir pessoas indiscriminadamente, e com isto não quero dizer que petardos e pedras são uma boa forma de protesto); que tudo isto tenha acontecido num país que se diz uma democracia e nas televisões que se anunciam plurais, atentas à realidade e preocupadas com essa democracia, só pode acentuar a nossa miséria, a do pão e a outra, a que nos reduz o pensamento à conversa de café e o debate político à bisca lambida.

Sara Figueiredo Costa
jornalista free-lancer
http://cadeiraovoltaire.wordpress.com

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45 respostas a o estado a que chegámos [ texto de Sara Figueiredo Costa ]

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Não podia estar mais de acordo com este texto. Obrigado Sara.

  2. Leo diz:

    “Que depois de tudo isto tenhamos assistido ao desfile dos painéis de comentadores a falarem das pedras (…) o secretário da CGTP, que convocou uma greve que foi gigantesca e um enorme sucesso, dizer que lamentava o sucedido, mas sem um comentário sobre a violência policial (…) relatos televisivos onde muitos jornalistas deram a entender que a polícia teve de agir assim porque havia petardos e pedras” ????

    O mínimo a dizer é que a jornalista free-lancer nem solidariedade revela com os colegas de profissão – nem sequer com os feridos – e muito menos com o Arménio Carlos, Secretário-geral e não “secretário da CGTP. Basta este pormenor para perceber que também nada entende nem nada quer entender da realidade portuguesa.

  3. Estava-mos todos juntos, não há cá tangas. Eu não atirei pedras mas estou ao lado de quem o fez, e como eu havia muitos mais! Quem não aguenta o calor da cozinha é melhor sair dela, agora estar a fazer afirmações por quem lá esteve isso é abusivo. O POVO ESTÁ UNIDO NA ACÇÃO! por isso OS MEU PARABÉNS A QUEM LÁ ESTEVE A APOIAR E EM ACÇÃO.

    • Caxineiro diz:

      Vai lá amanhã mais a meia duzia dos betos atira-pedras-e-foge revolucionários da treta que apoias. A polícia está lá todos os dias, ou precisas de te esconder cobardemente em quem se manifesta em apoio à greve? Revolucionários de papelão que na hora da verdade fogem deixando os outros para trás a apanhar porrada… Oh revolucionários da treta que fugis à frente de meia duzia de bófias, é convosco que vamos fazer a revolução, cagões de merda? foste enfrentar os gorilas de mãos vazias, azeiteirote do caralho?, . A única coisa que conseguiste foi ofuscar o único gesto revolucionário que houve ontem: a greve geral. E o poder está eternamente agradecido
      Aguentar o calor da cozinha é fazer greve como eu e os meus camaradas fizemos cá na província; cá no cu de judas onde nada acontece, prescindindo do salário, correndo o risco de despedimento e mais miséria, e convencendo outros que têm ainda menos condições do que eu que valia a pena toda esta ação concertada, que a nossa voz seria ouvida pelos media, que estamos em crescendo e prontos para novas e mais ousadas ações
      O que o país vê hoje nos media? O que se discute hoje nos media?
      Caralho! Tanta coisa por fazer e estes gajos a brincar às revoluções. Quando um dia o povo se levantar mesmo, até te cagas todo debaixo das saias da avó, tótó

      Foda-se

  4. AMD diz:

    Nada desculpa a polícia mas ainda sereis condecorados, a greve ainda não tinha começado e já vocês estavam fartos de malhar na CGTP e percebe-se porquê. Conseguistes abafar uma greve geral e isso não está ao alcance de qualquer um, só dos eleitos, dos genuínos, dos puros, dos verdadeiros revolucionários que daqui a uns anos ocuparão lugar de destaque nas hostes do PSD, CDS e PS.

    • Leo diz:

      “Conseguistes abafar uma greve geral” ???? Não conseguiram, não. Quem pela 1ª vez participou numa Greve Geral nunca mais o esquecerá.

  5. A.Silva diz:

    “que depois de tudo isto tenhamos ouvido o secretário da CGTP, que convocou uma greve que foi gigantesca e um enorme sucesso, dizer que lamentava o sucedido, mas sem um comentário sobre a violência policial”

    F…-se mas que é esta cretina da Sara Figueiredo para vir dar lições ao Arménio Carlos, depois da CGTP ter organizado uma das maiores e históricas Greves Gerais de Portugal e um pouco por toda a Europa?

    “de quem o secretário geral fala como se fossem os únicos trabalhadores legítimos, os únicos que sofrem na pele a crise, os únicos que podem, sabem, estão legitimados para protestar e pensar em mudar alguma coisa”

    Mas quem é esta cretina para mentir desta forma?

    Mas quem é este zenuno para replicar esses disparates?

    Gente desta está do lado do passos coelho, do macedo, do relvas! É gente que procura dividir para que o capital continue a mandar.

    Tenham vergonha!

    • Zé Nuno diz:

      O senhor A. Silva é acima de tudo um mal educado.
      Mas mesmo assim eu vou ser simpático e vou dirigir-lhe algumas poucas palavras:
      O Sr. Arménio da CGTP faz parte do status quo que pelos vistos tem dificuldade em condenar as barbaridades e ilegalidades perpetradas pelo governo. Como essa agressão selvagem, as detenções com ilegalidades várias e que na prática deixam a nu como tudo o que aconteceu ontem não passou de uma estratégia do governo para destruir o dia de greve histórico que todos devíamos defender.
      Mas o leitor A. Silva deve ter uma outra agenda de agressão a outras coisas. é lá consigo deixar-se levar pelas pedras e outras politiquices do calhau.
      é isso.

      • A.Silva diz:

        Senhor Zé Nuno, não me vou preocupar em ser ou não simpático consigo, é que prefiro mil vezes a má educação à hipocrisia!

        A Greve de ontem, contrariamente ao que o sr. bem educado provavelmente desejava, não se cingiu aos confrontos em frente da assembleia, não, ela foi o resultado de milhares e milhares de comportamentos heroicos de trabalhadores por esse país fora e que deviam ser o motivo da nossa reflexão e não os acontecimentos em frente à assembleia da republica, onde não se sabe onde acaba a manipulação insidiosa do governo e começa o comportamento pueril de uns tantos.

        A Grande Greve Geral fez-se essencialmente da actitude solidária e fraterna dos trabalhadores que querem ser felizes agora e aqui no seu país.

        A Grande Greve Geral que ultrapassou fronteiras e que representou um dos mais duros golpes dos trabalhadores portugueses contra o capital , foi organizado pela CGTP, que tem como secretário geral Arménio Carlos

        A sua afirmação de que, “O Sr. Arménio da CGTP faz parte do status quo que pelos vistos tem dificuldade em condenar as barbaridades e ilegalidades perpetradas pelo governo”, é de tal forma monstruosa que demonstra bem de que lado da barricada está.

        Mas quem é você para pôr em causa a firmeza do combate que o secretário-geral da CGTP tem travado não só contra este governo, mas contra o capital? Esta afirmação só demonstra da sua parte um pedantismo, demonstrativo da sua verdadeira falta de educação.

        Este seu comentário ao meu comentário parece demonstrar outra sua característica; o parasitismo, o querer aproveitar-se do fruto do trabalho dos outros. Sabe sr. bem educado, uma greve é uma coisa que dá muito trabalho, a greve de ontem, não começou a ser preparada anteontem, começou a ser preparada há muito, num trabalho constante e militante contra o capital. Um trabalho que é feito na rua, nas empresas, junto dos trabalhadores, das gentes que são a alma deste país.

        Como lhe disse, prefiro mil vezes gente mal educada a hipócritas!

        • zenuno diz:

          Sr. A. Silva sei relativamente bem o que significa conseguir fazer greve e uma greve.

          Creio que me terá percebido mal.
          Justamente por ter ideia de como custa levar uma greve a bom porto que fico muito frustrado quando depois se perde na “guerra” na comunicação social. E é aí que está a minha crítica ao Sr. Arménio e aparentemente a todos os partidos políticos portugueses, pois parece ter-lhes faltado o foco e coragem para dizerem o que considero tinha que ser dito.
          O que se passou em frente ao Parlamento é uma tentativa de dois em um: Por um lado retirar visibilidade à greve de sucesso e por outro acrescentar temor aos potenciais e futuros manifestantes.

          Ao que sei tem havido muito mais manifestações que não só as da CGTP, e ainda bem pois mostra que temos sociedade civil que não só nos sindicatos, que estão disponíveis para lutar pelos direitos de todos nós. A luta, se quiser, não é exclusiva da CGTP, aliás tomara nós que os sindicatos tivessem ainda mais alcance fosse como fosse.

          Mas infelizmente, pelo que percebi, apesar de estarmos em diálogo, a sua intenção não mudou muito – continua a querer saber quem eu sou desejando talvez arrumar-me numa caixinha qualquer. E se necessita mesmo de resposta aqui vai ela: chamo-me zé nuno e sou um cidadão, no caso de nacionalidade portuguesa, julgo que bastará. Assim como não entendo que paute o seu discurso pelo insulto, quer a mim quer à minha amiga Sara que fez um relato, na primeira pessoa, dos acontecimentos de ontem que considero importante e em particular para muitas pessoas que não estiveram presentes ontem em São Bento.

          Sempre me pautei pela defesa do que considero relevante e importante, e nessas causas incluo sem qualquer dúvida ideais de Esquerda e também sem dúvida uma sociedade de direitos e deveres justos e claros para todas as partes.
          Infelizmente, e pelo que vejo, cada dia esses direitos vão sendo mais reduzidos e os deveres aumentados tornando este equilíbrio retrógado e insustentável… na minha opinião urge algures uma inversão de marcha deste triste caminho que nos querem forçar a percorrer.

          É inacreditável que não seja claro que o problema está na decisão do governo e não num pequeno grupo de pessoas que atiraram pedras?!? Acha mesmo credível isso?

          Não condenar a actuação da polícia, que mais uma vez repito agiu por ordem do governo, não me parece que seja uma forma de defender os trabalhadores e todas as pessoas que todos os dias têm se esforçado por lutar por dias melhores em Portugal. E isso sim, a meu ver ofusca o grande dia de greve geral que ontem se viveu em Portugal e fruto do empenho de todos.

          • A.Silva diz:

            Sr. zenuno, a minha questão é só uma; chateia-me e deixa-me exaltado que após um dia histórico em que o povo fez tremer como nunca os fdp que nos governam, apareçam uns tantos a semear a divisão, quando o que precisamos (agora) é de união para acabar com o capitalismo, a fome e a miséria.

            Ainda bem que a luta não é exclusiva da CGTP ou de qualquer outra força política, o meu desejo é que muitas outras forças politicas apareçam para combater o capitalismo, o futuro faz-se de diversidade e liberdade! Mas que seja sinceramente para combater o capitalismo e não que tenham uma retórica de esquerda no intuito de dividir essa esquerda.

          • zenuno diz:

            contra essa chatice não há grande coisa a fazer pois a realidade é que aconteceram coisas que nunca deveriam ter ocorrido e que aparentemente dividiram a opinião pública.
            mas ainda bem que estamos de acordo no essencial.
            e termino com o desejo que a Luta continue em Portugal e no resto da Europa contra estas medidas de austeridade.
            bom fim de semana.

  6. Manel diz:

    Quem vê a comunicação social hoje pensa que a greve geral foi atirar pedras. A coragem esteve do lado de quem fez greve (muitos dos que atiraram pedras nem tomates tiveram para isso), do lado de quem andou em piquetes, de quem enfrentou o patrão. Os que tiveram coragem não se revêm nas pedradas, nem nas bastonadas. Mas sentem-se injustiçados porque a coragem que tiveram foi abafada por crianças a atirar pedras a charcos.

    • Leo diz:

      “Os que tiveram coragem não se revêm nas pedradas, nem nas bastonadas. Mas sentem-se injustiçados porque a coragem que tiveram foi abafada por crianças a atirar pedras a charcos.”

      Até muitos que não fizeram greve – porque lhe faz muita falta o dia de salário, por medo de perder o emprego – não se revêm nas pedradas, nem nas bastonadas. Nenhum ser humano minimamente decente se revê nisso. E é humano que quem fez greve se sinta injustiçado. Mas estou certo que também sente um enorme orgulho.

      Eu estou muito orgulhoso por ter feito greve e por ter estado no piquete na minha empresa. E os meus colegas também estão.

  7. Caro/a A. Silva,

    costumo manter as minhas discussões num nível educado, pelo que me abstenho de comentar os insultos gratuitos com que me brinda. Avançando, posso dizer-lhe que sou cidadã deste país, que trabalho em média oito a dez horas por dia em troca de um salário irregular, incerto e demasiado curto e que tenho o mesmo direito que qualquer cidadão em envolver-me no debate político. Creio, aliás, que um dos grandes males que nos assola é a demissão de tanta gente relativamente a esse debate. Está justificada a minha intervenção? Já posso falar? Continuando, não pretendi nem pretendo dar lições a Arménio Carlos nem a ninguém, mas o debate político implica que podemos, e eu acho que devemos, ouvir aquilo que se passa no espaço público, cabendo-nos o direito de o comentar, se nos parecer que vale a pena. A mim pareceu-me e por isso comentei. Ontem ouvi Arménio Carlos no programa “Política Mesmo”, da TVI24. Nesse programa, o secretário-geral da CGTP teve duas oportunidades, a segunda resultante de uma pergunta perfeitamente clara e objectiva por parte do jornalista, para condenar a actuação da polícia. Não o fez. Mais adiante, separou “os trabalhadores” de “outras situações”, referindo que quando se trata dos primeiros, a polícia intervém logo (caso dos piquetes de greve, por exemplo) e referindo-se às segundas como o que aconteceu ontem em frente ao Parlamento. Ao dizer isto, está dar a entender que ontem não houve violência sobre trabalhadores e que a partir do momento em que a CGTP anunciou que os seus activistas deviam abandonar o Largo de São Bento, não ficaram lá trabalhadores. Ficaram e não foram poucos. E houve violência sobre eles, e também não foi pouca. Dou razão a Arménio Carlos quando diz que ontem aconteceu outra coisa verdadeiramente impressionante, que foi a adesão à greve geral, mas não posso fingir que não o ouvi recusar duas oportunidades de condenar uma actuação policial que só pode ser condenada.

    De resto, dizer o que eu disse sobre a CGTP não é mentir nem dizer a verdade; está num outro nível do discurso e é a minha leitura sobre várias intervenções que tenho ouvido por parte da CGTP, e também sobre algumas atitudes (por exemplo, numa manifestação ocorrida há uns meses, creio que no dia da Greve Geral de 22 de Março, os vários movimentos que declararam publicamente o seu apoio à greve chegaram ao Rossio à hora marcada para a CGTP sair em direcção a São Bento e encontraram uma praça vazia, o que me fez pensar que a CGTP não estria com muita vontade de desfiles unitários com mais ninguém a não ser com os seus sindicatos. É uma leitura abusiva? Não creio. E o mesmo posso dizer em relação ao 1º de Maio do ano passado, quando o desfile do May Day, que, segundo me informaram membros da organização, tinha combinado com a CGTP que integraria o cortejo da intersindical, se viu impedido de entrar na Alameda por membros devidamente identificados do serviço de ordem da CGTP). Se a seguir vai dizer que sou uma perigosa radical inconsequente que se manifesta ao lado de movimentos com contornos pouco claros, não vale a pena gastar o seu latim. Manifesto-me sempre que acho que devo fazê-lo e onde me sinto melhor a manifestar-me; não tenho de prestar contas a ninguém sobre isso, e faço-o de cara descoberta, sem anonimato, no cumprimento das regras básicas de civismo e defendendo a democracia como única forma de organização política e social onde quero viver. O facto de ter opinião sobre estas coisas não faz de mim uma vendida ao grande capital, e parece-me que essa é a melhor forma de acabar com uma discussão sem passar pela casa das ideias, mas também não faz, nunca fez, com que eu não participasse nas manifestações e nas greves convocadas pela CGTP, sempre que as acho justas (portanto, tenho-o feito muitas vezes ao longo dos últimos anos, tenho divulgado essas acções junto das pessoas que conheço, e ontem fiz greve como tantos outros trabalhadores, sindicalizados ou não). O facto de criticarmos as coisas não faz com que as odiemos e as queiramos destruir, ou com que estejamos “do lado do passos coelho, do macedo, do relvas”, procurando “dividir para que o capital continue a mandar”. O facto de criticarmos as coisas é sinal de que nos preocupamos com elas e, neste caso muito concreto, é sinal de que eu gostava muito de ver da parte da maior central sindical portuguesa uma vontade de dialogar com quem está de fora no sentido de se conseguir um movimento conjunto. É a minha opinião sobre isto, tenho direito a apresentá-la e gostaria muito que a respeitasse sem me chamar nomes, um gesto que me parece tão gratuito como distribuir bastonadas a eito ou atirar calhaus à polícia.

    Cumprimentos,
    Sara FC

    • Leo diz:

      1 – “ontem fiz greve como tantos outros trabalhadores, sindicalizados ou não” ????

      Então não é jornalista free-lancer? E como é que pode uma free-lancer fazer greve no mesmo dia em que publica uma extensíssima ctónica na wordpress?

      2 – “a minha leitura sobre várias intervenções que tenho ouvido por parte da CGTP, e também sobre algumas atitudes (por exemplo, numa manifestação ocorrida há uns meses, creio que no dia da Greve Geral de 22 de Março, os vários movimentos que declararam publicamente o seu apoio à greve chegaram ao Rossio à hora marcada para a CGTP sair em direcção a São Bento e encontraram uma praça vazia, o que me fez pensar que a CGTP não estria com muita vontade de desfiles unitários com mais ninguém a não ser com os seus sindicatos. (…) E o mesmo posso dizer em relação ao 1º de Maio do ano passado, quando o desfile do May Day, que, segundo me informaram membros da organização, tinha combinado com a CGTP que integraria o cortejo da intersindical, se viu impedido de entrar na Alameda por membros devidamente identificados do serviço de ordem da CGTP). “

      O excerto é longo porque a free-lancer não consegue ser precisa e concisa. Mas dá para entender que nada vê e se limita a repetir intrigas. Não viu sequer que são pessoas – e não sindicatos – que estiveram nos dois desfiles das duas Greves Gerais. E também não viu os do May Day no 1º de Maio que todos os que participaram no 1º de Maio da CGTP andam há anos a ver!

      3 – “Ontem ouvi Arménio Carlos no programa “Política Mesmo”, da TVI24 (…) teve duas oportunidades (…) para condenar a actuação da polícia. (…) Ao dizer isto, está dar a entender que ontem não houve violência sobre trabalhadores e que a partir do momento em que a CGTP anunciou que os seus activistas deviam abandonar o Largo de São Bento, não ficaram lá trabalhadores. “

      Ninguém, absolutamente ninguém ouviu o Arménio Carlos ou alguém da CGTP a anunciar que “os seus activistas deviam abandonar o Largo de São Bento”. A free-lancer também não ouviu o que nunca foi dito. Nem ontem nem nunca. A CGTP convida à participação nas manifestações e nunca dita o que no fim as pessoas devem fazer. Era só mesmo o que faltava.

      • ana catarino diz:

        “Então não é jornalista free-lancer? E como é que pode uma free-lancer fazer greve no mesmo dia em que publica uma extensíssima ctónica na wordpress?” sabe que existe uma diferença entre escrever e ser pago por isso, e escrever porque nos apetece escrever, seja num blog, num caderno ou na toalha da mesa, certo? é isso, faz greve mas escreve na mesma a crónica

        não faço ideia se o Arménio Carlos disse ou não para que a CGTP se retirasse, nem me interessa em especial. Já se ele condena ou não, se pede explicações ou não para o que se passou ontem com a actuação da polícia, isso gostava mesmo de saber, e até agora nada… e não, não me chega que diga que lamenta, preciso que diga mais qualquer coisa. Preciso que a CGTP diga que repudia a violência, que nada justifica a violência a que os manifestantes foram sujeitos, que nada justifica detenções ilegais, que aos detidos seja recusado acesso a advogado. Preciso mesmo que a CGTP diga o que pensa sobre tudo o que se passou ontem, que foi um dia importante pela imensa adesão à greve.

        • Leo diz:

          Na minha empresa não há ninguém que trabalhe de borla, mas a free-lancer afinal revela-se uma “humanitária” a praticar caridadezinha. Estivesse ela na minha empresa e todos lhe chamaríamos “amarela”.

          E bem compreendo que queiram que o SG da CGTP lhes tirem as castanhas do lume mas ele faz muito bem em não ir para além de considerar lamentável o que se passou em São Bento.

          E vejo que é das que também vê o May Day nas Manifestações do 1º de Maio da CGTP e vê pessoas nas Manifestações das Greves Gerais. Tente explicar isso à free-lancer, OK?

    • A.Silva diz:

      Cara Sara

      Como já disse noutro comentário, prefiro mil vezes a má educação à hipocrisia.

      Aquilo que você pretende, e que de certa forma coincide com o que o governo passos/macedo, mais o capital pretendem, é que a discussão sobre a Grande e histórica Greve Geral se centre à volta dos tristes acontecimentos em frente à assembleia da republica.

      O Arménio, tal como qualquer revolucionário, prefere deslocar as luzes, para os milhares e milhares de trabalhadores que ontem por todo o país de forma heroica protagonizaram um dos golpes mais fortes que já foi dado ao capital no nosso país.

      Os milhares de trabalhadores que vivendo cada vez pior economicamente e de forma precária, tiveram a coragem e a ousadia de prescindir de um dia de salário para mostrar aos filhos da puta que governam este país, que querem uma politica diferente.

      Fala você que o Arménio Carlos, ”não condenou” a violência policial, santa ingenuidade, mas você sabe o que é a violência sobre os trabalhadores?

      A violência sobre os trabalhadores não se manifestou ontem em frente à assembleia, a violência sobre os trabalhadores manifesta-se todos os dias, em milhares de fábricas e empresas, nos despedimentos, na precariedade, na desregulação dos horários de trabalho, nas ameaças veladas do patrão ou do capacho, na incerteza em relação ao futuro. Tal como a verdadeira coragem dos trabalhadores se demonstrou nesta Greve Geral e em centenas e centenas de outras lutas que durante todo o ano se registam por todo o país e que jornalistas pedantes como a Sara não referem e desconhecem, porque não faz parte das agendas mediáticas.

      Diz a Sara; “a partir do momento em que a CGTP anunciou que os seus activistas deviam abandonar o Largo de São Bento”, e com isto demonstra uma coisa grave para um jornalista, falta à verdade. Aonde é que ouviu esse anuncio por parte da CGTP?
      É uma afirmação falsa, que demonstra outra coisa da sua parte; o preconceito, que é bem claro quando pretende imputar à central sindical a ideia de que “não ficaram lá trabalhadores”, de certeza que não ouviu isso de nenhum dirigente da CGTP, é o preconceito a falar mais alto que a verdade dos factos.

  8. ana catarino diz:

    sr. A. Silva, replico-lhe a sua pergunta: quem é o senhor? porque se acha acima quer da Sara quer do Zé Nuno? quem ou o quê lhe conferem tal suposta superioridade?
    o debate faz-se trocando pontos de vista e não insultando, regra elementar quando mais não seja da boa educação, e o que se passou ontem foi simultaneamente histórico (a enorme adesão à greve geral) como grave (a violência policial)

    • A.Silva diz:

      Mas quem é que insulta?
      É quem mente?
      É quem intriga?
      É quem prefere alinhar com o governo desvalorizando a Greve Geral e centrando-se num acontecimento que foi desejado e provocado por esse mesmo governo?

      É que talvez não tivesse reparado, mas a Greve Geral não foram aquelas cenas deploráveis em frente à assembleia, foi o comportamento heroico de milhares e milhares de trabalhadores em todo o país durante todo o dia 14, foi a coragem de muitos que pela primeira vez fizeram greve, foi a coragem de muitos que enfrentaram os patrões e a policia nos piquetes de greve.

      Insultar os trabalhadores é tentar omitir este seu comportamento heroico, valorizando aquilo que o passos/macedo pretendem.

      • ana catarino diz:

        leu o que eu escrevi? onde é que insulto trabalhadores? eu vou repetir o que disse: a greve foi histórica e importante, muito mesmo. Isso em nada apaga o facto de que houve violência policial em frente à Assembleia da República contra manifestantes que são também eles, trabalhadores, que fizeram greve, alguns deles pela primeira vez.

        ou tem qualquer coisa a acrescentar a esta discussão ou desde já lhe digo que não responderei…

        • A.Silva diz:

          Eu vou explicar; eu não disse que a ana insultava, eu respondi no pressuposto que a ana me estava a acusar a mim de insultar com esta frase: “o debate faz-se trocando pontos de vista e não insultando”.

          E a resposta a si partiu desse pressuposto, está entendido?

          • ana catarino diz:

            dizer isto: “F…-se mas que é esta cretina da Sara Figueiredo para vir dar lições ao Arménio Carlos, ” é insultar, entende?
            só isso…

  9. josé cerqueira diz:

    Sara Figueiredo Costa até podia, por hipótese, ter razão em tudo
    mas trai-se miseravelmente e perde razão quando não resistiu a
    chamar «calhaus» a cubos de cálcario tirados dos passeios.
    Peça a um amigo que lhe atire um calhau a cinco metros de distância
    e depois lhe atire uma pedra do passeio e aprenderá a diferença.

  10. ana catarino diz:

    sim, é isso mesmo, o essencial é percebermos a diferença entre calhau e pedra…

  11. João Duarte diz:

    Greve só serve para mais austeridade. São uns egoistas duns insatisfeitos, que andam a prejudicar quem quer trabalhar. É inadmissivel haver piquetes de greve que impedem as pessoas de trabalhar, ou haver pessoas que não podem trabalhar porque não há creches ou transportes. A quantidade de greves que os trabalhadores da CP fazem são um exemplo do egoismo desta gente, e do pouco que se preocupam com a sociedade de que dizem fazer parte.
    E os jornalistas têm todo o interesse em provocar estas situações porque assim conseguem vender fotografias e histórias “eu estive lá” para os jornais. Gosto de minorizar a situação dos incêndios que estavam a ser provocados. A manifestação já estava reduzida ao ordinarismo e ao terrorismo urbano, e claro que à procura de oportunidade por parte dos jornalistas.

    Ridiculos.

  12. Respondendo aos pontos elencados pelo Leo (uso o masculino porque suponho que seja abreviatura de Leonardo, mas se não for, as minhas desculpas):

    1 – Sim, sou jornalista free-lancer. Sim, fiz greve ontem, como tenho feito em todas as vezes anteriores. Não publiquei uma crónica no wordpress, que por acaso é a plataforma que alberga o meu blog onde escrevo sobre livros e edição, área profissional onde trabalho como jornalista free-lancer. O que fiz, como ficou claro um pouco mais atrás, na resposta a um outro comentário, foi escrever um texto com a minha visão dos acontecimentos de ontem à tarde, e fi-lo porque me recuso a não participar no debate político, porque o que vi acontecer me deixou muito preocupada com a saúde e o futuro da democracia e porque ainda podemos expressar publicamente as nossas opiniões. Não o fiz no blog, porque esse é um espaço que actualizo em paralelo com a minha actividade profissional (e por acaso até coloquei uma imagem no blog, referindo que não haveria posts como de costume porque estava em greve), mas sim na minha conta pessoal do Facebook. Está esclarecido como é que uma jornalista free-lancer da área cultural pode fazer greve e ainda assim querer partilhar alguns pontos de vista no Facebook?

    2 – A free-lancer não tem de ser concisa, até porque está a escrever na sua página pessoal e tem caracteres ilimitados para o fazer. A visão da free-lancer é boa, apesar dos óculos. A free-lancer não tem ambições de ser dona da verdade e viu muito bem “os do May Day” no 1º de Maio, até porque esteve sempre com eles. E viu, sim, porque estava lá e participou na discussão, membros do serviço de ordem da CGTP devidamente identificados impedirem o acesso do desfile do May Day à Alameda. E não foi só a free-lancer que viu. Mas a free-lancer não fala disto por ter prazer na intriga, e antes porque acredita que se deve falar das coisas abertamente, discuti-las e tentar resolvê-las. E também porque acredita que a luta dos trabalhadores e do povo podia ser um pouco mais abrangente e eficaz se houvesse um pouco mais de diálogo entre a CGTP e outros movimentos, e não pense que digo isto por algum prazer especial em criticar a CGTP; digo-o porque é a minha convicção sincera. Já agora, muito antes do May Day, já a free-lancer participava no desfile do 1º de Maio da CGTP.
    3 – A free-lancer não ouviu o apelo à desmobilização ontem, é verdade, e não sabe se aconteceu porque estava longe das colunas de som. Mas já ouviu esse apelo noutros eventos da CGTP (lembro-me de uma manifestação entre o Marquês e os Restauradores, por causa da NATO, onde foi pedido ao microfone que as pessoas começassem a ir para suas casas, se dirigissem aos transportes públicos ou outros, porque a manifestação tinha acabado, e isto apesar de ainda virem umas poucas centenas de pessoas a chegar, só que essas pessoas não eram da CGTP, ainda que tenham respondido positivamente ao apelo para que toda a gente participasse na manifestação, e isto a free-lancer viu e ouviu, porque estava bem perto do palanque) e tem visto, nas manifestações mais recentes, como as pessoas identificadas com coletes saem rapidamente do meio da multidão, com as faixas e as bandeiras, apesar de a manifestação continuar. Não contesto o direito de qualquer pessoa abandonar as manifestações quando bem entende, estou apenas a dizer o que tenho visto. Ontem, é certo, não se notou muito a diferença (mas vi um aglomerado grande de pessoas com coletes e bandeiras da CGTP sair logo depois do hino nacional), ainda que hoje as declarações da PSP e do ministro Macedo tenham deixado bem claro que a confusão das pedradas só começou “depois de acabar a manifestação da CGTP”, como se estivéssemos a falar de duas manifestações diferentes.

    Deixando agora o discurso da free-lancer na terceira pessoa, para não parecer que estamos na bola, agradeço ao José Cerqueira o preciosismo lexicográfico que distingue calhau de “cubos de cálcario tirados dos passeios”. Realmente, é um ponto essencial neste debate e só posso ter-me traído quando confundi as duas coisas.

    • Leo diz:

      “A free-lancer não ouviu o apelo à desmobilização ontem, é verdade, e não sabe se aconteceu porque estava longe das colunas de som. ”

      Afinal a free-lancer nada ouviu, ela mesmo o disse! E contudo escreveu que “a CGTP anunciou que os seus activistas deviam abandonar o Largo de São Bento”. Isto é a free-lancer mentiu.

      Cesteiro que faz um cesto faz um cento. Mentiu agora e também mentiu em relação a anteriores desfiles do 1º de Maio da CGTP, manifestações em dias de Greve Geral e outras. Com boa razão: ela próprio afirma ser partidária dessas organizações/causas.

      Isto é a free-lancer não é observadora imparcial, pelo contrário é propagandista de certas organizações/causas.

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      Sara,
      A verdadeira razão pela qual o Arménio Carlos não critica a acção da polícia é que se o partido dele estivesse no poder a polícia actuaria exactamente da mesma maneira. Ele bem sabe que a polícia não serve para proteger os cidadãos ou a ordem pública, mas para impor a vontade dos governos. Nesta altura ele até deve estar a pensar que o Miguel Macedo seria uma óptima aquisição para o partido, e como já tem experiência das técnicas de opressão, nem tinha de se reciclar…

      Aqueles de nós que somos de esquerda e anti-capitalistas, mas não pertencemos ao partido de Arménio Carlos, temos de estar bem conscientes do que nos aconteceria se fossem pessoas como ele que mandassem no país.

      • Leo diz:

        Cá temos o mais serôdio, estúpido e desgastado anti-comunista. Nada de novo de certas bandas, afinal. Só faltam mesmo o comer das criancinhas e a injecção na orelha dos velhotes.

        • Nuno Cardoso da Silva diz:

          Não, não sou anti-comunista. Sou anti-marxistas-leninistas-estlinistas requentados, como o Arménio Carlos, que conseguiu fica impávido e sereno perante o espectáculo indecente de camaradas anti-capitalistas a serem barbaramente agredidos pela polícia de um ministro que a primeira coisa que fez foi elogiar o comportamento pacífico da CGTP. Sem que esse elogio o tivesse minimamente incomodado. Ele lá saberá porquê…

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  14. Zé Nuno diz:

    A opinião pública e as cargas policiais….

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  17. marta diz:

    a conquista do poder não se faz com escadas cujos degraus sejam instáveis: há que ter a certeza de que ao pôr o pé o degrau não é inexistente ou vai ceder. qualquer organização que aspire ao poder ou apoie outras que aspiram ao poder sabe que tem de controlar os degraus e os que seguram a escada! o arménio carlos faz o seu papel: dois passos à frente, um atrás, se preciso for.

  18. Caro Leo,

    vou explicar uma vez mais, porque parece que não ficou claro: eu não trabalho de borla, e não estava a trabalhar na quinta-feira. Como já expliquei, o meu trabalho é na área do jornalismo cultural e o que fiz, na quinta-feira, foi partilhar no facebook a minha visão dos acontecimentos. Já o fiz sobre muitos outros temas que nada têm a ver com o meu ganha-pão, porque o facebook permite isso, discussão política, debate, troca de ideias. Está esclarecido? É que não me apetece voltar a perder tempo a responder a comentários para dizer as mesmas coisas por outras palavras (porque tenho de trabalhar). Não era trabalho, percebe, nem pago nem gratuito, e sobre a caridadezinha não tenho nada de bom a dizer, mas era debate, partilha, uma contribuição para a discussão. Por exemplo, se o Leo distribuir panfletos num dia de greve também lhe chamam amarelo lá na empresa? E se discutir com outros trabalhadores a situação, dando os seus contributos e pontos de vista, também chamam? Ou percebem que para si é importante falar com os outros sobre o que se passa, discutir, procurar soluções?
    Se acha que Arménio Carlos “faz muito bem em não ir para além de considerar lamentável o que se passou em São Bento”, estamos conversados. Eu já apresentei o meu ponto de vista para explicar por que é que acho o contrário, o Leo já insistiu no seu, não vale a pena passarmos os próximos dias neste ping-pong. Já percebemos todos os argumentos de ambos os lados, creio.

    Não vale a pena generalizar com pontos de exclamação, que eu já expliquei o que disse e porque disse. Sim, escrevi que a CGTP anunciou tal coisa, na sequência de ter visto as pessoas identificadas com a CGTP saírem todas ao mesmo tempo, com todo o material (bandeiras, faixas, etc), assim que acabaram os hinos; ora, como tenho visto esse apelo à desmobilização nas outras manifestações, não me parece difícil perceber a dedução. Se isto fosse uma notícia de jornal, o Leo tinha toda a razão em bradar, mas não é e o comentário onde explico esta mesma dedução um pouco mais atrás está publicado e serve de complemento (posso explicar melhor: se o Leo vir, todos os dias, que um navio sai do porto depois de apitar três vezes e houver um dia em que está longe do porto e só vê o navio a sair, o que é que deduz? Que ele apitou três vezes antes de sair.) De qualquer modo, vamos lá centrar a discussão no que interessa, que eu não pretendo passar os próximos dias a comentar a mesma coisa: todas as declarações da PSP, do ministro Macedo e do próprio Arménio Carlos deixam bem claro que uma coisa foi a manifestação da CGTP, outra coisa foi a manifestação que ficou em São Bento, quando a da CGTP já tinha acabado. Ora, o meu ponto de vista é outro: houve uma só manifestação, convocada por várias organizações e movimentos (entre eles a CGTP, que foi a organização que convocou a greve geral), e essa manifestação só acabou quando a polícia varreu tudo e todos à bastonada, espalhando as pessoas pelas ruas adjacentes e divertindo-se a caçá-las até ao Cais do Sodré, para depois prender umas quantas aleatoriamente e as levar para os calabouços do tribunal sem direito a advogado, soltando-as em troca de autos em branco. Isto é que me preocupa realmente, e preocupa-me que o secretário-geral da CGTP não tenha condenado publica e veementemente o que se passou. Mas como o Leo já explicou mais acima, para si isso não era importante, por isso estamos conversados quanto ao ponto central. É mais fácil assumirmos que pensamos de modo diferente do que passarmos os próximos dias com o Leo a procurar pintinhas nos i’s que não estão lá e comigo a responder-lhe sobre o modo de ver as pintinhas que só parecem não estar lá quando não se quer vê-las. Pensamos de modo diferente sobre isto, pronto, não é o fim do mundo; em democracia, é assim. Tendo em conta que, pelo que posso inferir do seu discurso, o Leo será um homem de esquerda e, provavelmente, um activista da CGTP, só posso dizer-lhe que as minhas críticas à CGTP não derivam do ódio, da vontade de aniquilação ou de qualquer outra ideia obscura, mas da preocupação, porque vivemos tempos muito difíceis e porque eu acredito que termos de encontrar alguns pontos comuns para podermos trabalhar juntos, lutar juntos e descobrir juntos como construímos uma sociedade diferente. É por isso que me dou ao trabalho de criticar, é por isso que continuo a participar, é por isso que estou aqui a responder aos seus comentários. Fico um bocado triste que deduza que pelo facto de ter críticas a apontar à CGTP sou uma agente do capital ou coisa parecida, porque essa atitude acaba por alimentar uma certa ideia feita que algumas pessoas têm sobre a CGTP e eu tenho a certeza de que a generalidade das pessoas da Intersindical tem abertura para discutir com pessoas que não subscrevem a totalidade das suas propostas, modos de intervenção e visão do mundo, mas que ainda assim apoiam a sua intervenção, mesmo que com algumas reservas.
    Quanto à sua obsessão por encontrar falta de imparcialidade no que eu disse, e tendo-lhe já explicado mais do que uma vez que não estamos a falar de trabalho jornalístico, nem sequer de trabalho, o que é que quer que lhe explique mais? Se fui eu própria a colocar as cartas na mesa e a deixar bem claro como tenho participado na luta nos últimos anos, que tenho ido ao 1º de Maio com o May Day, por exemplo, não me parece grande argumento estar a anunciar isso mesmo no seu comentário como se fosse um ataque. Seria o mesmo que eu gritar por aqui “estão a ver, estão a ver, este senhor deve ser partidário da CGTP”, ou seja, é ruído desnecessário quando já todos sabemos. Vou ao desfile do 1º de Maio com o May Day porque me revejo nas propostas que apresenta e nas reivindicações que faz, mais do que me revia nas da CGTP (a cujas manifestações continuo a ir, é bom lembrar, porque o Leo anda há dias a tentar provar ao mundo que eu odeio a CGTP ou que sou uma perigosa agente de qualquer coisa, ainda não percebi bem), talvez porque o May Day nasceu da discussão e do trabalho de pessoas cujos problemas laborais (precariedade, recibos verdes eternos, polivalência, etc, etc) são os meus, e portanto é-me mais familiar do que a CGTP e por isso passei a ir com eles no 1º de Maio. Claro como água. Se quiser continuar a discussão, por favor, não use os mesmos argumentos de forma diferente, porque o meu tempo é limitado e não quero desperdiçá-lo a responder ao mesmo com outras palavras. Não estou a ser irónica nem a querer ser desagradável, estou a ser sincera: podemos debater ideias, mas repisar as mesmas até ao infinito é perder o meu e o seu tempo, que são valiosos, não tenho dúvidas.

    Cumprimentos

    • Leo diz:

      “houve uma só manifestação, convocada por várias organizações e movimentos (entre eles a CGTP, que foi a organização que convocou a greve geral), e essa manifestação só acabou quando a polícia varreu tudo e todos à bastonada” ???

      A free-lancer membro de várias organizações/causas tenta de novo virar o bico ao prego. Ela não desconhece este cartaz/convocatória: “A Plataforma 15 de Outubro, o Movimento Sem Emprego, o Movimento Dos Cidadãos Pela Dignidade, o M12M e os Estivadores de Portugal juntam-se neste cartaz a apelar a todos que no dia 14 de novembro façam Greve e se juntem a nós no Cais Sodré as 13h.”

      Ela sabe que houve duas manifestações: a da CGTP que terminou ordeiramente depois do discurso e dos hinos e a outra. Mas como esta última deu bota, finge que não há responsabilidades nas agressões e desrespeito da Plataforma 15 de Outubro, Movimento Sem Emprego, Movimento Dos Cidadãos Pela Dignidade, M12M e Estivadores de Portugal. Mas há. E isto não é uma questão de pontos de vista, é uma questão de factos.

  19. Caro A. da Silva,

    eu não pretendo que a discussão sobre a Greve desapareça e já não sei muito bem como explicar-lhe que não pensar exactamente como o A. da Silva pensa sobre como se devem discutir estas coisas não é sinónimo de ser amigo do governo. Raciocínios maniqueistas nunca me serviram para pensar o mundo, não é agora que vão servir. A Greve foi forte, um sucesso, uma prova de força dos trabalhadores, que estão fartos de levar porrada e de verem os seus direitos e o seu futuro a esboroarem-se à sua frente. Mas eu escrevi sobre outra coisa, uma coisa que me preocupa e sobre a qual acho que devemos reflectir. O A. da Silva acha que reflectir sobre qualquer outra coisa que não seja o sucesso da greve é fazer o jogo do governo e está no seu direito; eu não acho. O facto de eu não achar isso não permite a conclusão de que eu não sei o que é a violência sobre os trabalhadores e de que eu não sei o que é perder direitos, contar tostões, ver o futuro a desaparecer como fumo. Lições de moral, desculpe, mas não. Não sabemos nada da vida um do outro e se eu não estou a inferir coisas sobre as suas dificuldades, as suas experiências quotidianas ou o seu conhecimento do que é a opressão, agradeço que não faça o mesmo sobre a minha pessoa. Se lhe dá algum prazer chamar-me jornalista pedante, esteja à vontade, que eu não costumo reagir a insultos, mas volto a citar dois comentários anteriores, para ver se fica claro que o meu texto não é trabalho jornalístico e que a minha área profissional é a cultura, nomeadamente os livros: “O que fiz, como ficou claro um pouco mais atrás, na resposta a um outro comentário, foi escrever um texto com a minha visão dos acontecimentos de ontem à tarde, e fi-lo porque me recuso a não participar no debate político, porque o que vi acontecer me deixou muito preocupada com a saúde e o futuro da democracia e porque ainda podemos expressar publicamente as nossas opiniões. Não o fiz no blog, porque esse é um espaço que actualizo em paralelo com a minha actividade profissional (e por acaso até coloquei uma imagem no blog, referindo que não haveria posts como de costume porque estava em greve), mas sim na minha conta pessoal do Facebook. Está esclarecido como é que uma jornalista free-lancer da área cultural pode fazer greve e ainda assim querer partilhar alguns pontos de vista no Facebook?” Mais adiante: “Como já expliquei, o meu trabalho é na área do jornalismo cultural e o que fiz, na quinta-feira, foi partilhar no facebook a minha visão dos acontecimentos. Já o fiz sobre muitos outros temas que nada têm a ver com o meu ganha-pão, porque o facebook permite isso, discussão política, debate, troca de ideias. Está esclarecido? É que não me apetece voltar a perder tempo a responder a comentários para dizer as mesmas coisas por outras palavras (porque tenho de trabalhar).” Já ficou claro?
    Quanto ao desmobilizar da manifestação por parte da CGTP, respondi há pouco ao Leo (pode ler o comentário em questão, que também responde sobre a ideia de que eu nunca ouvi a CGTP apelar à desmobilização – já ouvi, mais do que uma vez). Já agora, leia o comentário todo, porque me parece que a resposta serve para os dois. Desculpe lá remetê-lo para outro comentário, mas o meu tempo está apertado, tenho trabalho para entregar e acho, sinceramente e sem o estar a despachar, que o que escrevi no comentário anterior responde também às suas questões.

    Cumprimentos

  20. Caro Leo,

    a free-lancer não é “membro de várias organizações/ causas”, com excepção de uma associação cultural dedicada às artes gráficas. A free-lancer pensa pela sua cabeça, concorda ou discorda das propostas apresentadas e dos princípios defendidos por organizações e causas e participa nas manifestações onde acha que deve participar em função disso. Explicando melhor: nem todas as pessoas que integram as manifestações da CGTP são da CGTP (as pessoas respondem ou não a um apelo público aberto a todos os que concordem com os princípios das manifestações, segundo creio), o mesmo é válido para as manifestações de todas as outras organizações.

    O cartaz de que fala (e ainda falta um outro, do Que Se Lixe a Troika) é um bom exemplo do que digo: várias organizações aderiram à manifestação do dia da greve convocada pela CGTP e convocaram as pessoas com cartazes diferentes e com pontos de encontro diferentes, MAS, e este mas é importante, com hora comum de concentração para as 14h/14h30 no Rossio, onde toda a gente, CGTP incluída, estaria para daí rumarmos todos juntos até São Bento (também vem no cartaz, mas é a parte que não citou). Eu já percebi que para si houve duas manifestações, e já percebi que para a PSP e o governo também, mas espero não perceber que para a CGTP também, porque acredito que devemos lutar lado a lado e que não precisamos de o fazer dizendo exactamente as mesmas palavras e tendo exactamente as mesmas ideias. Espero, também, que quando diz que “houve duas manifestações: a da CGTP que terminou ordeiramente depois do discurso e dos hinos e a outra. Mas como esta última deu bota, finge que não há responsabilidades nas agressões e desrespeito da Plataforma 15 de Outubro, Movimento Sem Emprego, Movimento Dos Cidadãos Pela Dignidade, M12M e Estivadores de Portugal. Mas há.” não esteja a justificar a carga policial, ou a acusar os movimentos em questão de a terem provocado. Esperando isto, espero ainda mais que, caso seja essa a sua leitura dos acontecimentos, seja apenas a sua, e não a da CGTP. É que apesar deste nosso longo debate, eu continuo a acreditar que a CGTP não quer lutar sozinha.

    Cumprimentos

    • Leo diz:

      Goste ou não goste o cartaz/convocatória diz tão somente: “A Plataforma 15 de Outubro, o Movimento Sem Emprego, o Movimento Dos Cidadãos Pela Dignidade, o M12M e os Estivadores de Portugal juntam-se neste cartaz a apelar a todos que no dia 14 de novembro façam Greve e se juntem a nós no Cais Sodré as 13h.”

      Repito: “e se juntem a nós no Cais Sodré as 13h.” Nem sequer menciona a CGTP. Está pois na hora de assumirem as responsabilidades.

  21. sara diz:

    é óbvio que não devemos – aliás, não podemos – ignorar que a polícia estava a cumprir ordens, e que se temos que culpabilizar alguém pelos actos violentos, é acima de tudo quem ditou as ordens. mas faz-me (muita) espécie como é que os senhores agentes não são capazes de usar dois dedos de testa (fizeram-lhes uma lavagem cerebral?) e compactuarem com tais ordens. se as forças militares continuarem a acatar cegamente ordens, por mais bárbaras que sejam, e não se unirem à voz do povo (por assim dizer), não consigo ver um futuro, nem longínquo, para este país.

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