100 detidos, espalhados por Lisboa (em actualização)

A PSP deteve cerca de 100 pessoas, hoje, após a manifestação em frente ao Parlamento. Os detidos foram espalhados por vários estabelecimentos.

As detenções ocorreram na zona do Cais do Sodré, de forma aleatória, havendo alguns que nem na manifestação tinham participado. A esta hora, no Tribunal Criminal de Monsanto cerca de 20 estão, aos poucos, a ser libertados. Isto depois de terem sido privados de qualquer contacto com o exterior e depois de serem obrigados a assinar um Termo de Identificação, sob coacção, com vários espaços em branco.

Actualização, à 01h12

Em Monsanto estavam cerca de 25. Não os consegui contar a todos nem falar com todos. Falei com os suficientes para perceber que uma série de abusos foram praticados.
Detidos sem qualquer acusação, impedidos de contactar com o exterior, impedidos de ir ao WC, coagidos a assinar um termo de identificação com espaços em branco…

Na Boa Hora estiveram mais uns quantos e, ao que parece, no Calvário também.

As informações continuam a chegar. E já há, pelo menos, um vídeo das detenções no Cais do Sodré.

Actualização à 01h25

Testemunho do escritor Mário de Carvalho, na sua página do Facebook:

Posso testemunhar que no caso de um detido, já posto em liberdade, foi recusada à família por mais do que uma vez , durante um período de três horas, a informação do local em que o detido se encontrava. Agentes e comissária diziam que TINHAM ORDENS para não dar essa informação. A prisão em local indeterminado configura-se como SEQUESTRO. Lembra os procedimentos típicos das ditaduras da América Latina? Pois lembra.

Testemunho de Ana Margarida de Carvalho (mãe de um dos detidos):

A todos os amigos que se interessaram e que ajudaram. Foi de facto um lindo serviço: hoje à noite, na prisão de alta segurança de Monsanto, onde custumam enclausurar os barões da droga e outros energúmenos estava uma vintena de adolescentes imberbes. Foram detidos porque sim, sem qualquer acusação, por agentes à paisana que os apanharam em vários pontos da cidade, alguns nem sequer tinham ido à manifestação… Sem direito a telefonarem, nem a contactar com os advogados (tinham ordens nesse sentido, diziam os srs agentes)… Havia pais que ainda não sabiam em que estabelecimento prisional estavam os filhos. O joão está bem, com algumas nódoas negras nos pulsos por causa das algemas, mas até suportou bem a humilhação, os insultos, o permanecer descalço durante 3 horas numa cela gelada de pedra (enfim, havia miúdos feridos, a pingar sangue, portanto…) Quanto aos outros, os tipos dos capuzes e das pedras e das claques ou lá o que eles são, não sei… Não os vi por lá. O importante reter é que neste momento, ao abrigo do alerta laranja, das ordens do MAI e da NATO, podemos ser presos por participar numa manifestação.Claro que isto foi «só» uma manobra de intimidação, mas resulta: para a próxima participarão menos, com certeza. Eu mesma, não sei… terei que ir tomar conta dos meus filhos, escoltá-los até chegarem a casa, sãos e salvos… Enfim, a palhaçada continua. obgd mais uma vez.

Em Monsanto, enquanto iam libertando alguns dos detidos, em pequenos grupos, pude escutar a seguinte resposta por parte de um agente de PSP a um detido que lhe perguntava como podia saber por que motivo o haviam levado para ali: «O Comando amanhã abre às 9 horas. Vá lá e pergunte!»

Actualização à 01h45

Testemunho de Rodrigo Rivera, um dos jovens detidos esta noite:

Tivemos de assinar um papel com espaços por preencher para poder sair, impediram o acesso à advogada. Entretanto já conseguimos falar com ela (…).

Actualização às 10h20

Testemunho de João Pinheiro (um dos detidos em Monsanto):

Fui um dos Detidos no Tribunal da Boa-Hora em Monsanto. Não participei em nenhum acto de Violência, não atirei pedras. Apenas fugi de Polícias de Choque que espancavam toda e qualquer pessoa, mesmo que tentasse acalmar o ânimos, como vi.
Os Detidos no Cais do Sodré foram arbitrários, entre um grande grupo de pessoas que fugia pela 24 de Julho, das balas de borracha que eram disparadas contra o manifestantes, ao contrário do que se anda ai a espalhar (uma das outras detidas foi atingida por uma).
Fomos levados, algemados e revistados por três vezes, para a Boa-Hora sem nos ser dada informação para onde íamos ou do que éramos acusados. Nenhum dos Polícias tinha identificação.
Fomos postos em grupos de 5 em cada cela e deixados, descalços, durante 3 horas, sem qualquer informação, mais um vez.
Por fim, fomos levados a assinar um papel em que nos identificávamos e que não continha qualquer acusação, sendo depois mandados para fora, pela polícia sem que tivéssemos usufruído do direito ao telefonema ou a falar com um advogado.
Foi esta a experiência minha e de mais cerca de 20 manifestantes Pacíficos, que durante o tempo na cela, cantaram em uníssono, a Internacional.

Última actualização às 18h30 de 16/11/2102

Durante a minha participação pacífica na manifestação da Greve Geral frente à Assembleia da República a polícia dispersou os manifestantes com foguetes, bastões e balas de borracha. Eu, como milhares de pessoas, corremos pelas ruas do Largo de São Bento para evitar bastonadas.

Não querendo confusão, eu e os meus amigos seguimos pela 24 de Julho, no sentido do Cais do Sodré a caminho de casa.

Fomos surpreendidos por um grupo de polícias fardados a correr atrás de nós e, pela frente, homens não fardados mas armados ordenaram que nos deitássemos. Deitei-me de barriga para baixo e gritei “por favor não me faça mal” duas ou três vezes. A resposta do homem não fardado foi clara – uma bastonada na nádega direita e outra nas costas com marca bem visível.

Fui algemado enquanto me gritavam que não me mexesse. Entretanto trocaram as algemas por braçadeiras, bem mais desconfortáveis.
Fui revistado (não possuindo nada de ilegal ou ilícito). Um agente da PSP rebentou as abas da minha mochila para ma tirar das costas através das braçadeiras que me prendiam os braços.

Fui empurrado para uma carrinha da PSP com 6 lugares, onde me fizeram sentar na parte de cima da roda, nas traseiras. Fomos transportadas 9 pessoas na carrinha de 6 lugares.

Chegado ao Tribunal fui revistado mais duas vezes e, descalço, fui colocado numa cela com mais 4 pessoas, um deles com ferimentos na cabeça e costas, com sangue a cair na cela. Outro, um menor, de 15 anos, foi libertado com aflição pelos agentes ao aperceberem-se da detenção ilegal do menor.

Eu pedi várias vezes para fazer o telefonema a que tenho direito. Responderam-me que “aqui não há telefones”. Insisti com diferentes agentes que sempre me recusaram esse direito.

Nenhum dos agentes que me detiveram e revistaram estavam identificados, tendo retirado a placa com o seu nome. Nenhum dos agentes no tribunal estava identificado.

Horas depois fui chamado a uma sala onde fui coagido a assinar um Auto de Identificação com os meus dados mas em branco no “local, hora e motivo da detenção”. Questionei o agente que me disse ser um procedimento normal, que depois eles preencheriam o resto “para bater certo com os outros detidos”. Insisti não me sentir à vontade para assinar um papel que será preenchido depois. O Agente colocou, então, o local de detenção mas recusou-se a pôr a hora e motivo. Foi-me dado a entender que bastaria assinar para ser libertado. Coagido, assinei. Levaram-me para a rua, para a porta do tribunal, onde, já libertado, confirmei que não tinha direito ao telefonema.

A minha advogada foi impedida de entrar enquanto lá estive, foi impedida de ver os papéis que assinei. Chegado cá fora pedi aos agentes de serviço que me facultassem uma cópia do Auto que assinei, ou que o mostrassem à minha representante. Esse acesso foi negado com o argumento de
que “já não estava detido”.

Saí sem nenhuma acusação ou explicação para o sucedido.

Conclusão: Estou no Cais do Sodré a caminho de casa (ali perto) quando homens não fardados me agridem, me algemam e detêm durante horas, sendo libertado cerca das 00h em Monsanto, sem
forma de voltar a casa ou ao local de detenção. Não me foi feita acusação nem dada qualquer explicação. Foi-me recusado telefonar e também me foi recusado ver a minha advogada, como é direito de qualquer pessoa detida. O meu dia foi transtornado, fui agredido, e nenhuma explicação
me foi dada. Foi uma experiência miliciana.

Fábio Filipe Varela Salgado
BI xxxxxxxx – DN x/x/1986 Lisboa,

15 de Novembro de 2012

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36 respostas a 100 detidos, espalhados por Lisboa (em actualização)

  1. Jorge diz:

    sim sim, eu também tenho a mania da perseguição, mas estou a ser tratado

  2. JgMenos diz:

    Que horror!
    Sob coacção tiveram que se identificar?
    Como é possível?
    Isto é fascismo puro!!!!

    • Homer diz:

      “obrigados a assinar um Termo de Identificação, sob coacção, com vários espaços em branco.”

      Se não percebes, não explico.

      isso está é tudo minado.

      • JgMenos diz:

        A vítima, com a caneta na mão, depara-se com o espaço em branco que não sabe ou não quer preencher; num rasgo de rara inspiração —- faz uns risquinhos! Complicado!

    • eu diz:

      Andavam à procura do Dias Loureiro,grande Ladrão,como sabes,do assassino de velhinha,s Duarte Lima,de grandes corruptos como o Ferreira do Amaral,o tal da negociata da Lusoponte e dos pedófilos da casa…

  3. Hugo diz:

    A advogada no final da peça fala que eles foram detidos às 18:35 o que quer dizer que foi antes de qualquer tipo de violência. Mas que raio………. esta pide(ups: policia) anda a passar dos limites……

  4. Pingback: Anónimo

  5. joão miguel diz:

    Os miúdos tinham ido à missa, querem ver?…

    • Carlos Guedes diz:

      Quer com isso dizer que…

      • Wimston Smith diz:

        O que a ovelhita (ver George Orwell) acima quer dizer é que andamos todos com a mania das perseguições e das conspirações, que não existem agentes policiais e atrasadecos mentais da extrema-direita infiltrados nas manifestações para incitar os VERDADEIROS manifestantes à violência, para com isso denegrir os verdadeiros motivos da luta e para justificarem as cargas dos seus colegas fardados, que o Pai Natal e o Coelho da Pascoa existem, que “a lua é apenas o sol à noite”, que existem lobisomens e mulas-sem-cabeça, e que não vivemos numa ditadura fascista disfarçada (ainda) de democracia.

        É graças às ovelhitas que continuam, descontraidamente, a ruminar a palha que lhes é dada (futebois, secret stories, Merdosos Sousa Tavares, Julias Pinheiros, etc.) que os lobos em pele de ovelha, os criminosos nazis que nos têm governado, continuam e continuarão a fazer dos seus escravos o que bem quiserem…

        O rebanho será todo encaminhado para o matador, mas pelo menos alguns poderão erguer a cabeça e dizer que lutaram. Quanto à maioria, enfim, puta que os pariu! (Não tem sido assim que tenho pensado ao longo de muitos anos sem comer palha, mas depois de ver tanta burrice e ruindade neste povo…)

  6. João Macedo e Santos diz:

    O mais engraçado é que esta policia de merd… são uma cambada de covardes pois são sempre uns 10 ou mais para deter um cidadão, porque nem isso eles são essa cambada de filhos da pu.. e andam todos armados em parvos pois eles sofrem na pele o mesmo que nós, ou pior e ao invés de se unirem com o povo, nem isso eles são, teimam em serem superiores a nós, e claro cometem mais ilegalidades do que nós, isto não foram detenções foram raptos, e agora quem é que vai denunciar esta palhaçada a Bruxelas, cá não vale a pena, pois o Palhaço Mor, de seu nome coelho é que marca os passos, desses palhacitos todos, pois mas eles podem tudo até roubar já quem nada tem e esse montes de esterco de certeza que nada lhes falta, a não ser civismo, respeito por quem lhes paga os salários, sim são os nosso impostos que pagam os salarios, desses retardados que vestem o fato de palhaços, e ainda tem que o pagar, em vez de andarem a vender empresas que nos faziam muita falta para a nossa economia, deviam era vender essas coisas, tipo a psp e por aí adiante, mas também quem é que queria comprar essa mer.., que só dá prejuizo ao estado, é lamentavel que mais uma vez quem paga é sempre o Zé povinho, que lhes faz um grande toma, revolução é o que é necessario, mas temos que nos unir todos, exceptuando o Palhaço Mor , o circo onde estão sempre mais de duzentos e os palhacitos que pagam o próprio fato para exercerem o trabalho nas tasquas , desculpem, adegas, desculpem outra vez, mas foge-me sempre a boca para a verdade, rua onde mal se veem a não ser nestas alturas, será que esses montes de mer.. não tem familia em casa, tristes palhaços, e não palhaços tristes, the end.

    • Leo diz:

      “e claro cometem mais ilegalidades do que nós” ????

      Duvido………….

    • Ricardo diz:

      e tu deves ser dos palhaços que gostam de pegar fogo a caixotes do lixo, partir carros e montras numa manifestação e dar uma boa imagem do pais.. só tenho pena que não tenham matado um ou dois dos que la estavam a atirar pedras na frente. se fossem todos plantar batatas de certeza que faziam melhor ao pais.. só agora se lembram de fazer manifestações.. mesmo podendo não ser reais, estes números de detidos vão servir para acalmar a má imagem com que o resto da europa fica de portugal.

  7. JG diz:

    Continuo sem perceber como é que um blog de esquerda permite que fascistóides venham para aqui com provocações e insultos. Não estamos num chá dançante, estamos num período pré-revolucionário. Há que identificar o inimigo de classe e combatê-lo por todos os meios.

  8. Pingback: Algumas considerações imediatas | Spectrum

  9. Dezperado diz:

    A forma de vitimização é uma arte!!!

    Querem violencia, mas depois não se aguentam….parecem uns meninos!!!!

  10. notrivia diz:

    Alerta laranja decretado pela nato e pelo mai….? Alerta laranja?
    Suspensão dos direitos constitucionais a propósito do quê?
    Qual é a justificação?
    Acho que são perguntas cujas respostas têm que ser bem explicadas, porque se não forem meus amigos, significa que a ‘doença’ está mais avançada do que se poderia supor…

  11. Pingback: A palavra ao movimento | cinco dias

  12. Pingback: Night Clashes Overshadow Portugal’s Largely Peaceful General Strike · Global Voices

  13. Pingback: Sobre a carga policial | Sentidos Distintos

  14. Este post está a ser citado num artigo do Global Voices Online:
    http://globalvoicesonline.org/2012/11/16/portugal-general-strike-clashes/

    Obrigada pela vossa cobertura ao minuto!
    abraço,
    Sara

  15. Pingback: Deriva Antidemocrática: Testemunho de Sara Didelet sobre os acontecimentos de 17 de Novembro de 2012 « O Peso e a Leveza

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