Conversa inacabada em dia de greve geral

 
 
 
 
 
 
 
 
Renault de Cacia – Foto de Nelson Peralta. «Picada» do esquerda. net
 

 

 

Batem à porta logo pela manhã. É um funcionário de uma empresa privada «ao serviço de…» que vem fazer a leitura do contador. Bom dia para lá e para cá e dois dedos de conversa:

– Então, está em greve?

– Estou.

– Eu não posso. Estou a contrato. E se quer que lhe diga, não sou muito disso de greves. Esta classe política não muda de ideias lá por fazermos greve.

– De ideias não mudam, mas alguma coisa têm de mudar. Olhe o recuo na TSU depois daquela grande manifestação em Setembro…

– Sabe uma coisa? Se me dessem uma arma para as mãos, aí alinhava. Pode crer que alinhava.

Aparece mais gente e a conversa fica por ali.

Não é a primeira vez que ouço este tipo de argumentos «maximalistas» para justificar a não adesão a uma greve: fazer greve não, agora dar um tiro na cabeça a esses cabrões… Que é como quem diz: matar pulgas à unha não, mas com uma carabina acabava-lhes com o sarampo.

A minha intenção não é condenar o tipo que está numa situação de grande precariedade e decide não fazer greve. Nada disso. Apenas rebater o argumento da «bomba atómica». Já o tenho ouvido bastantes vezes, não na boca dos mais fortes, mas dos mais fracos, ou daqueles que estão numa situação de fragilidade. Até vindo de gente encostada aos chamados partidos «do arco da governação»! Ah, pois é…

Recusar a luta presente em nome de que não chega e é preciso mais não é uma manifestação de força, mas de fraqueza. Hoje não faço nada, mas «quando for a sério» ninguém me apanha. Agarrem-me, que eu vou-me a eles!

Desenganem-se porém os governantes, seus patrões e aguadeiros. Entre os que hoje não foram à luta (uma minoria, felizmente) não encontrareis muitos amigos. Os vossos amigos têm a goela larga e a bolsa ávida. Fazem-se pagar bem. E há uma parte de verdade nestas ameaças maximalistas: entre aqueles que ficam para trás, que furam as greves, que baixam a cabeça, há muito orgulho recalcado, muita humilhação acumulada. Num dia em que a situação se ponha a jeito, serão eles os primeiros a querer cortar-vos as cabeças e beber-vos o sangue.

Alguns desses estão entre as «forças da ordem». Vocês precisam deles e usam-nos como a vossa matilha. Mas desprezam-nos, e eles sabem disso: que tratais melhor e tendes mais consideração pelo lobo de Alsácia ou pelo lulu que lá tendes em casa. Cuidado com o cão espancado: um dia ele há-de morder.

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4 respostas a Conversa inacabada em dia de greve geral

  1. A.Silva diz:

    Bom post!

  2. Rocha diz:

    É uma reflexão muito boa e pertinente. O problema não é a vontade de fazer justiça de forma violenta e a vontade de derrubar a opressão que nos governa também por essa via.

    A violência é uma questão que é importante discutir, quer a que vem dos opressores quer a que envolve resposta dos oprimidos. Mas o problema maior é não aproveitar as várias formas de luta não-violenta e naturalmente mais unitárias e abrangentes que ainda dispomos. A luta presente como bem assinalas.

  3. Antonio Carlos diz:

    “Cuidado com o cão espancado: um dia ele há-de morder.”
    O seu post foi premonitório só que a análise estava equivocada. Utilizando a sua metáfora (de que aliás nem gosto muito), quando um bando de crianças apedreja um cão preso, quando ele se solta já sabe o que o espera. Depois de passar uma hora sob chuva de pedras e petardos o que esperavam da polícia, festas e abraços? Com este tipo de actuação dos manifestantes julgo é que vai ser cada vez mais difícil assistir a manifestações conjuntas com a polícia.

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