«Sempre que os protestos contra a hegemonia do capital bancário permeiam os movimentos populares, temos o indício mais claro da aproximação do fascismo»

Esta frase de Franz Neumann, um dos mais importantes historiadores do nazismo e membro destacado da Escola de Frankfurt, aparece transcrita num importante artigo do colectivo Passa Palavra sobre os perigos da penetração do nacionalismo à esquerda.

Na linha do que eu próprio já aqui escrevi há alguns meses, o nacionalismo representa a incapacidade para se raciocinar e pensar a realidade socioeconómica fora dos marcos nacionais. Para ser mais exacto, a dinâmica da análise do capitalismo tem sido transferida da compreensão dos seus aspectos económicos e políticos de classe para uma oposição entre nações. Oposição entre nações que 1) tanto se refere às posições que se assumem abertamente contrárias e adversárias de outros países (geralmente a Alemanha), como 2) se refere contrária à criação de um espaço supranacional (seja dentro do capitalismo seja enquanto horizonte de luta pelo socialismo), sendo favorável à manutenção de um espaço europeu de nações independentes entre si. E assim temos dois pólos de um mesmo fenómeno nacionalista a fermentar. Onde os mais extremistas defendem abertamente que o problema da austeridade radica na Alemanha (portanto, a austeridade seria um ataque de ordem colonial/ocupante e não mais económica), outros há que querem manter um quadro de nações independentes, numa versão vestfalliana retardada. Sintoma destes tempos tenebrosos, o objectivo comunista centenário de uma terra sem amos é cada vez mais substituído por um novo princípio: uma terra portuguesa sem amos alemães.

O interessante deste artigo do colectivo Passa Palavra tem a ver com o acrescento que eles desenvolvem em torno da ligação entre o nacionalismo e a tese da oposição entre capital financeiro e capital industrial. Quando interrelacionados entre si, é daqui que têm surgido as mobilizações de movimentos fascistas motivados pelo desejo de unir trabalhadores e pequenos capitalistas indutriais contra a finança internacional.

Como de costume, se calhar estou a ser demasiado optimista perante o irracionalismo que tem varrido a maioria da esquerda portuguesa, mas o perigo da actual conjuntura deveria levar todos os que seriamente se comprometem com a luta dos trabalhadores a ler com preocupação e a debater sem preconceitos o artigo mencionado. Enquanto a esquerda não se libertar da ganga nacionalista «podem os capitalistas ficar descansados».

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