CARTA ABERTA – Uma canja para a Jonet

Partilho aqui a carta aberta dirigida pelo MSE (Movimento Sem Emprego) a Isabel Jonet. O estilo da carta não é propriamente o meu, mas parece que foi inspirado na carta de um tal Ricardo Araújo Pereira em «Uma canja para a gorda da Merkel» (mais abaixo)

Caríssima Isabel Jonet,

gostaríamos de lhe dizer frontalmente, com o mínimo de mediações, que o nível das suas declarações é aviltante, sobretudo para aqueles com quem se diz preocupar e em nome dos quais desfruta o brunch da beneficência. Queremos dizer-lhe, antes de lhe devolver cada um dos insultos para citar nas vernissages, que o movimento que lhe escreve luta sobretudo para que ninguém se habitue ao empobrecimento. O nosso combate, todos os dias, é pelo pleno emprego e pela justa distribuição do trabalho, única via que identificamos para não ter que contar com o seu negócio a cada vez que falta capital ao mês. Fala-lhe um grupo de pessoas, jovens e menos jovens, desempregados, precários, sub-empregados, gente que se empenha quotidianamente para derrotar quem, como a senhora e a Merkel, insiste em mascarar de caridade o saque que estão a fazer às nossas vidas.

Sabemos que preside à Federação Europeia dos Bancos Alimentares Contra a Fome, posição que ocupa desde Maio de 2012, e que a sua influência aumenta na proporção da miséria nos vai impondo. Sabemos que é rica e privilegiada e nunca falou da fome com a boca vazia. Sabemos que sabe que não falta miséria para alimentar de matéria-prima a sua fábrica. Sabemos que olha para os pobres com desdenho, nojo, pena. Sabemos que na hora de fazer a contabilidade aquilo que a move é a sua canja, o seu ceviche, não o caldo dos outros.

Afirma que vamos ter que “reaprender a viver mais pobres”, quando a senhora só sabe o que é viver mais rica, que “vivíamos muito acima nas nossas possibilidades” quando é sua excelência que tem vivido às nossas custas, que “há necessidade permanente de consumo, de necessidade permanente de bens para a satisfação das pessoas” quando em nenhum momento da sua vida a falta de verba lhe deu tempo para ganhar água na boca. Atira-nos à cara, com a lata da Chanceler, que os seus filhos “lavam os dentes com a torneira a correr” e que se nós “não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias”, quando cada vez mais o problema das pessoas é ter casa onde os filhos possam lavar os dentes e onde os bifes nunca ganharam a tradição dos que são fritos no conforto das Arcádias. Em tempos sombrios, poucos provaram o lombinho do seu talho predilecto, aquele que sempre visita com generosidade, antes dos fins-de-semana que costuma fazer com requinte, no crepúsculo alentejano.

Deixe-nos explicar que enquanto pensava que à sua volta “estava tudo garantido, alguém havia de pagar”, éramos nós, os nossos pais e avós, que lhe aviavam a mesada. Perceba que a cada momento em que delira com a cegueira de que “cá em Portugal podemos estar mais pobres, mas não há miséria”, abastece-se à confiança do nosso fiado e das nossas dores de barriga. Entenda, que o tamanho dos seus disparates não abafa os murmúrios da pobreza e a miséria. Deixe-nos dizer que um milhão e meio de desempregados, com a fome e a subnutrição visível das urgências dos hospitais às cantinas das escolas públicas, a cólera já sobra às páginas dos jornais do dia. Deixe-nos dizer-lhe que o tempo não é de substituir o “Estado Social” pelo “Estado de Caridade”, mas de pelo menos ter tanto cuidado com os pobres como com aquilo que se diz.

Pode caluniar os nossos pais, que nem o histerismo fútil com que os brinda não a torna capaz de encontrar exemplo de quem troque a bucha pela ida ao Super-Rock. Pode gritar, sem sequer dar ao luxo do fôlego, que eles “não souberam educar os filhos”, que a cada desabafo nos permite desvendar um pouco mais o véu das suas intenções, da origem do seu soldo.

O seu mundo, caríssima Jonet, é um decalque da propaganda do Governo, um corpo torpe atirado à máfia de capatazes e dos carcereiros, aqueles que lhes têm ajudado a arranjar mais e mais margem de lucro no plano financeiro da sua pérfida empresa.

O mundo de Jonet é o mundo da classe dominante, do privilégio, da riqueza, do poder desmesurado, dos estereótipos que ajudam a lavar o sangue que lhe escorre das unhas. No mundo de Jonet, as PPPs, os submarinos, a exploração, o assalto dos governantes, são propaganda subversiva ao serviço de gente acomodada, inútil, descartável. No mundo de Jonet “não existe miséria” como “em Portugal”, não é assim? Em suma, no mundo de Jonet não se vive o que é preciso para se ganhar um pingo de vergonha.

Se estiver disponível, teríamos todo o gosto em entregar-lhe esta carta em mãos.

Sem cordialidade mas com muito mais educação,

Seus detractores,

O Movimento Sem Emprego.

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7 respostas a CARTA ABERTA – Uma canja para a Jonet

  1. Luís Teixeira Neves diz:

    Eu isso não acho bem. É claro que a senhora é… forte. Mas isso não se diz. E eu acho bem que não se diga.

  2. Joao Rodrigues diz:

    Só espero que o RAP tenha autorizado esta coisa (que não a da Merkel). É que não o tendo feito isto não passa de 1 tentativa de o colar a algo que provavelmente não quer.

  3. XisPto diz:

    O que deseja um desempregado? Um emprego. Como se criam empregos? Com expansão económica.

    • doorstep diz:

      Parece elementar, caro xpto, mas não é. Está mais que visto que a burla do “crescimento” existe para engorgar uns poucos à custa de muitos. Ou não fosse a reza que debitam os passos, os borges, os gaspares, os alvaros, os seguros, os socrates, etc.

  4. JgMenos diz:

    Esta conversa é a expressão mais acabada da mediocridade da esquerda.
    Complexada até à paranóia, tudo que diga quem vem das classes ditas ‘dominantes’ é escrutinado à luz dum sentimento onde o despeito e a inveja domina.
    Do horror ao capital deduzem o ódio à poupança que o tornou operativo.
    Pindéricos, encontram nos pequenos excessos o conforto que a escassez lhes nega a todo o tempo, insistem em não usar copo dos dentes, como direito inalienável da sua pequena natureza.

  5. Rui diz:

    Tudo isto não passa de uma grande injustiça para com Isabel Jonet. Quando há pessoas que se mobilizam para ajudar os que mais precisam, aparecem sempre os adeptos do “quanto pior melhor”. Na minha opinião Isabel Jonet apenas quis expressar o facto inegável que os Portugueses de uma maneira geral, o País, terá de mudar de vida. Esbanjámos, não gerimos bem, gastámos acima do que podíamos. Utilizou uma figura de estilo que logo aproveitaram para denegrir alguém que a meu ver é um exemplo de dedicação à causa urgente de quem mais necessita. Na urgência de ajudar quem está com fome, dispensam-se as ideologias mesquinhas, as teorias da politiquice brejeira da esquerda e/ou da direita. Fazem falta é muitas pessoas como Isabel Jonet que agem e ajudam prontamente os que mais precisam. De minha parte, obrigado Isabel Jonet.

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