Tia, ensine-me a ser pobre!

(…) Olho para as ciganas do meu bairro, este bairro do mundo de Jonet, e imponho-me uma estóica reaprendizagem de ser pobre. Isto de reaprender a ser pobre tem muito que se lhe diga, porque só reaprende a ser pobre quem já o foi e deixou de ser. Quem nunca foi pobre pode não ter sequer que aprender a sê-lo, bastando-lhe sugerir aos que já o foram que voltem a sê-lo. Eu quero ser pobre, eu ambiciono ser pobre, eu desejo ser pobre, preciso que me ensinem a ser pobre. Eu venho-me de austeridade. Por isso me levanto bem cedo, antes de ir para o trabalho, e fico a olhar as ciganas do meu bairro. Masturbo-me a olhá-las – as velhas apanhando caracóis, as novas ganhando para o Nestum – e confesso que tenho vivido acima das minhas possibilidades. Nada devo a ninguém, felizmente, mas a verdade é que vivo acima das minhas possibilidades. Contribuo para o banco alimentar, distribuo cigarros pelos carochos, fumo e bebo e vou ao cinema e ao concerto de rock. Só não vou à missa largar tostão no cesto de verga, não quero exagerar nesta coisa do despesismo. Sou um consumista indefectível, tenho asma, respiro mais do que o necessário, do MEO prescindiria não fosse ter a viver comigo uma família idiota. A minha família é idiota, vive num mundo de Jonet. No mundo de Jonet nós vivemos de uma maneira completamente idiota. Nós somos nós, todos quantos lavam os dentes com a água da torneira a correr. Por exemplo, os idiotas dos filhos da Isabel. As ciganas do meu bairro não são idiotas porque não lavam os dentes, mas os filhos da Isabel são. Eles lavam os dentes. Esperemos que limpem a cera dos ouvidos. Aqueles que foram educados a lavar os dentes com água no copo também são idiotas, pois não souberam educar os seus filhos a fechar a torneira. É provável que esses mesmos filhos prefiram um concerto rock a fazer uma radiografia, o que não se lhes censura. Excepto se for um concerto de Rock in Rio. (…)

Mais sobre o maravilhoso “mundo de Jonet” aqui.

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10 respostas a Tia, ensine-me a ser pobre!

  1. Pascoal diz:

    Onde fica esse mundo da Chonet?

  2. béu diz:

    pena a ciganofobia explícita.

  3. Dezperado diz:

    Gosto destes textos….cheio de ironias engraçadas….e tiques xenófebos!!!

    • De diz:

      pato marreco says:
      8 de Novembro de 2012 at 17:09
      Hã?

      Vocemecê está bem?

      Ah….Tiques…”xenófebos” pois então…

      Quanto ao resto…concordo aí com o Rocha.
      Um belo texto.A inteligência é sempre bem vinda. Thanks

  4. Rocha diz:

    É um belo texto. Eu diria que é até poético pois me apetece dizê-lo, recitá-lo.

    Béu, béu…. diz o outro, com a mania das fobias, mas eu até acho que é ao contrário: este texto é ciganófilo. Quando se focam as atenções das artes nos miseráveis há sempre quem tenha ciúmes – por incrível que pareça. Não é por acaso, a mistura entre arte e miséria é explosiva, é dinamite, promete não deixar pedra sobre pedra.

    Pois então, venham daí mais textos destes! Venham mais!

  5. JgMenos diz:

    Tretas de quem quer esquecer que há décadas que vive de dinheiro emprestado!

    • De diz:

      Tretas de quem nos quiser fazer crer na conversa que vivemos há décadas de dinheiro emprestado.
      E que repetem até à exaustão o aprendizado bebido nos media e nos porta-vozes dos neoliberais caceteiros que nos governem.
      Adivinha-se até o tom histérico sobre o “viver acima das suas possibilidades”.
      Jonet foi o que fez.
      Este é apenas a vesão masculina da dita cuja. Um slogan vazio a tentar replicar o velho aforismo “uma treta mil vezes repetida…”
      Sorry.Conhecemos o estilo.

      De salientar que o humor e a inteligência sempre causaram mossa entre os cultores da exploração.Por isso as rosnadelas permanentes (ou outras coisas muitíssimo piores) contra a cultura cono direito inalienável dos cidadãos.
      O que sobra são estes pequenos gestos,quase que pavlovianos.
      🙂

  6. De diz:

    Mas o que tentam ocultar estas frases batidas,repetidas até à náusea ? Por exemplo coisas como esta:
    ” Segurança Social terá perdido mais de 1,5 mil milhões na bolsa”..
    “Os 1,5 mil milhões de euros da Segurança Social perdidos no casino capitalista que é a bolsa não foram queimados, não foram destruídos na fogueira, não desapareceram por artes mágicas; os 1,5 mil milhões de euros da Segurança Social perdidos no casino capitalista que é a bolsa transferiram-se do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social para os bolsos de alguém. Ou seja, não foram criados nem perdidos mas apenas e tão só transformados. Transformaram-se de dinheiro dos trabalhadores em dinheiro nos bolsos da plutocracia.”
    Qual era a história? Ah, sim o “viver-se acima das suas possibilidades”.Ou o “viver-se com o “dinheiro emprestado”
    O capitalismo no seu “melhor”
    “Não há verdadeiramente nada mais nojento. E este nojo tem responsáveis que devem ser julgados. Desde logo no plano político.”
    (e de como um post com humor, dá origem a um comentário tão acre).

    (Citações tiradas de um texto de Rui Silva no Kontra-Korrente)

  7. Caxineiro diz:

    “eles gostam dos pobrezinhos, quando são vítimas indefesas. Por isso, a sra.Lagarde diz que tem muita pena das crianças do Níger.Mas vocês , gregos, vocês lutam, não se comportam como vítimas , e por isso, eles odeiam-vos”.— Zizek

    Podemos trocar Grécia por Portugal à vontade , porque as Jonets são iguais em qualquer lado
    O movimento nacional feminino ainda está vivo

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