Tia, ensine-me a ser pobre!

(…) Olho para as ciganas do meu bairro, este bairro do mundo de Jonet, e imponho-me uma estóica reaprendizagem de ser pobre. Isto de reaprender a ser pobre tem muito que se lhe diga, porque só reaprende a ser pobre quem já o foi e deixou de ser. Quem nunca foi pobre pode não ter sequer que aprender a sê-lo, bastando-lhe sugerir aos que já o foram que voltem a sê-lo. Eu quero ser pobre, eu ambiciono ser pobre, eu desejo ser pobre, preciso que me ensinem a ser pobre. Eu venho-me de austeridade. Por isso me levanto bem cedo, antes de ir para o trabalho, e fico a olhar as ciganas do meu bairro. Masturbo-me a olhá-las – as velhas apanhando caracóis, as novas ganhando para o Nestum – e confesso que tenho vivido acima das minhas possibilidades. Nada devo a ninguém, felizmente, mas a verdade é que vivo acima das minhas possibilidades. Contribuo para o banco alimentar, distribuo cigarros pelos carochos, fumo e bebo e vou ao cinema e ao concerto de rock. Só não vou à missa largar tostão no cesto de verga, não quero exagerar nesta coisa do despesismo. Sou um consumista indefectível, tenho asma, respiro mais do que o necessário, do MEO prescindiria não fosse ter a viver comigo uma família idiota. A minha família é idiota, vive num mundo de Jonet. No mundo de Jonet nós vivemos de uma maneira completamente idiota. Nós somos nós, todos quantos lavam os dentes com a água da torneira a correr. Por exemplo, os idiotas dos filhos da Isabel. As ciganas do meu bairro não são idiotas porque não lavam os dentes, mas os filhos da Isabel são. Eles lavam os dentes. Esperemos que limpem a cera dos ouvidos. Aqueles que foram educados a lavar os dentes com água no copo também são idiotas, pois não souberam educar os seus filhos a fechar a torneira. É provável que esses mesmos filhos prefiram um concerto rock a fazer uma radiografia, o que não se lhes censura. Excepto se for um concerto de Rock in Rio. (…)

Mais sobre o maravilhoso “mundo de Jonet” aqui.

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