Resposta e Contas do MSE – “Estivadores ganham quanto? Ângelo Correia aprende a fazer contas!”

Depois de se ter percebido quem quer tramar os Estivadores e por quem mente Ângelo Correia, o Movimento Sem Emprego fez a papa ao ex-ministro e ao antigo Presidente da Associação dos Operadores Portuários:

Ângelo Correia (AC) difundiu o seguinte boato: os trabalhadores portuários ganhariam em média entre 2.400 e 2.600 euros por mês. E estariam em greve pelo direito a fazer as 2 mil horas extras a que têm direito de acordo com o contrato, contra a proposta do governo benemérito de fazer apenas 250 horas e estar mais tempo com a família e aumentar a segurança no trabalho. É a primeira vez que vimos este Governo preocupada com “estar mais tempo com a família e segurança no trabalho”!

Onde é que AC aprendeu a fazer contas? Teve equivalência a quantas cadeiras e em que universidade?

A jornada destes trabalhadores é de 40 horas semanais. Vamos supor que eles trabalhem 7 dias por semana, ou seja, 5,7 horas por dia. Se descontarmos os 22 dias de férias, fazer 2000 horas extra é o mesmo que trabalhar 5,8 horas nos restantes 365-22=343 dias do ano. Ou seja, estes trabalhadores fariam 11,3 horas todos os 343 dias do ano. Como é natural, estes trabalhadores têm dias de descanso mas, se levarmos AC a sério, isso só significa que para cada dia que eles não trabalhassem, a jornada do dia de trabalho seria ainda maior. Se considerarmos outro caso: eles trabalhariam 5 dias por semana, o seu dia de trabalho seria agora de 16,5 horas diárias. Lembremos que o dia tem 24 horas e as pessoas normais costumam usar 7 a 8 delas para dormir.  Claro que isso dependeria das jornadas contratuais dos trabalhadores, mas AC «esqueceu-se» de nos esclarecer este pormenor. Ainda assim, olhando por qualquer ângulo, a conclusão é uma só:  a pouca vida (no sentido fisiológico do termo) que os trabalhadores teriam seria um autêntico inferno. De resto, 5 mil euros brutos ou cerca de metade disso líquido, não seria tanto assim caso fosse esta a real jornada de trabalho.

Toda esta confusão de boatos relacionado com as jornadas dos estivadores não pode esconder um facto simples: os estivadores estão em greve precisamente a essas horas extras que AC afirma que eles querem trabalhar. Tivessem os jornalistas reparado nesse «detalhe», concluiriam que Ângelo Correia mente com todos os dentes. Se se tivessem dado ao trabalho de lerem as reivindicações dos estivadores em greve, teriam percebido que a luta tem como exigência a contratação de mais efectivos. Trabalho com dignidade, sim; precariedade, não. O Governo quer usar mão-de-obra precária, sem contractos de trabalho, mais barata e descartável. É contra isto que os estivadores fazem greve. Foi precisamente esse elemento que o MSE reconheceu nessa luta para assumi-la também como sua.

O boato de AC não diz nada de verdadeiro sobre os estivadores, mas diz muito sobre o mensageiro do boato. AC assume logo no início ser um conhecedor dos portos porque teria sido Presidente da ANEE – Associação Nacional das Empresas Operadoras Portuárias. Ele foi e continua a ser um patrão com interesses bem presentes na matéria.

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25 Responses to Resposta e Contas do MSE – “Estivadores ganham quanto? Ângelo Correia aprende a fazer contas!”

  1. Dezperado diz:

    http://5dias.net/2012/11/05/solidariedade-com-os-estivadores-14-de-novembro-cais-do-sodre-13-horas/

    Segundo um post aqui do blog, no cartaz do MSM, lia-se, que os estivadores, trabalham 36 horas, 7 dias por semana…..ja muito antes do AC falar….estranho que aqui nunca explicassem esse cartaz…

    E agora que os estivadores passaram a hérois nacionais, não pudemos usar a maxima do: “gostava de ve-los a viver com 500 euros por mês”?????

  2. António Carlos diz:

    “E estariam em greve pelo direito a fazer as 2 mil horas extras a que têm direito de acordo com o contrato …”
    Uma questão muito simples e directa. Esta frase é verdadeira, isto é, actualmente os estivadores têm direito a fazer 2 mil horas extras?

    • Renato Teixeira diz:

      Têm, mas não fazem. Estão em greve às horas extraordinárias para deixar claro que é fundamental haver mais contratações.

      • Antonio Carlos diz:

        Se têm direito a fazer as 2 mil horas extras, como é que as entidades empregadoras vão contratar mais pessoas para fazer essas horas?
        Vamos supor que contratavam. Em qualquer altura os estivadores exerciam o seu direito e o que ficavam a fazer os novos trabalhadores contratados?
        Se querem deixar claro que é fundamental haver mais contratações, basta prescindir do direito a fazer as 2 mil horas extras (confesso que nunca tinha ouvido falar de um direito a fazer horas extraordinárias!): podem até subscrever um acordo que os proíbe de fazer mais de 50 horas extraordinárias (por exemplo). Aí sim haveria razões para mais contratações (eu diria até que haveria “obrigatoriedade” para mais contratações).
        Confesso que não percebo e, neste aspecto, confesso que também começo a não perceber o apoio do MSE que devia lutar pelos direitos de que não tem emprego para que outros temham direito a horas extraordinárias.

        • Renato Teixeira diz:

          Eles não reivindicam o direito às horas extraordinárias. Reivindicam que elas devem ser feitas por novos contratados, e não por precários pagos miseravelmente.

  3. Dezperado diz:

    Consegue me explicar como é que um trabalhador consegue trabalhar 36 horas, 7 dias por semana como estava no cartaz do MSE????

  4. António Paço diz:

    O senhor Ângelo Correia não estava só a «ser parcial», como diz Helena Roseta. Há uma parte que ele não diz é outra parte, a que diz, não é verdadeira.
    Além disso, há um facto curioso: o debate é entre um representante do patronato do sector (Ângelo Correia) e uma pessoa que diz que não pesca grande coisa do assunto (Helena Roseta). Cadê os estivadores?

  5. António Carlos diz:

    “E estariam em greve pelo direito a fazer as 2 mil horas extras a que têm direito de acordo com o contrato …”
    A ser verdade esta parte, são 2 mil horas que poderiam ser realizadas por outros trabalhadores a contratar, porventura alguns do MSE. No entanto, como são um direito dos estivadores …

  6. Rocha diz:

    Está a melhorar a argumentação. Está a ficar mais clara.

    Mas continuo sem saber qual o salário fixo (o das 40 horas), sem hora extras. Qual o valor das horas extras, por cada hora. E qual o salário de um efectivo e de um precário.

    Acho que não há nada como pôr tudo em pratos limpos, tudo em cima da mesa.

  7. mário diz:

    deve ser defeito meu, pois continuo sem percerber qual é a reivindicação.
    concretamente, querem mais ou menos horas extras ?

    • Renato Teixeira diz:

      Mais contratações para fazer face às necessidades de trabalho.

      • Antonio Carlos diz:

        E estão dispostos a prescindir do seu direito às 2 mil horas de trabalho extraordinário para que outras pessoas possam ser contratadas para fazer o trabalho correspondente? Essa é que me parece ser a questão.

        • Renato Teixeira diz:

          Não é essa a questão. Eles querem que as greve às horas extraordinárias deixe claro que é preciso mais contratações. Se assim não fosse, porque estariam em greve?

          • Antonio Carlos diz:

            “Se assim não fosse, porque estariam em greve?”
            Estariam em grave, compreensivelmente, para não perder o direito a 2 mil horas extraordinárias que, naturalmente, lhes complementam o salário.

            Aliás, diga-me, que outra classe profissional tem a possibilidade (o direito!) de trabalhar mais 2 mil horas extraordinárias (pagas em conformidade, naturalmente)?

            Pretender que os estivadores estão dispostos a perder esse direito (que efectivamente lhes garante um rendimento extra à custa de mais trabalho, naturalmente, mas pago a valores superiores) para “ajudar” os desempregados é uma ingenuidade.
            Se não, pergunto. Porquê agora esta súbita “sensibilidade social” por parte dos estivadores quando podiam ter levantado a questão nas negociações do contrato em vigor?

            Espere até os estivadores alcançarem um acordo que lhes convenha e vejamos depois o que acontece à sua solidariedade para com os desempregados e precários. Temo que ainda vá ter de “engolir muitos sapos” (desculpe a expressão).

  8. Pingback: ANTÓNIO MARIANO ARRASA ÂNGELO CORREIA – Os Estivadores, os Ministros, a Greve Geral e a Manifestação com os Movimentos Sociais e a CGTP. | cinco dias

  9. Rodrigo diz:

    Tenho procurado perceber o que defendem os estivadores, e o que os motiva para estarem a fazer greve (ao que parece às horas extraordinárias). Percebi que o que querem é manter essas mesmas horas extraordinárias, e um belo de um complemento salarial. Que essas horas são precisas para o normal funcionamento dos portos, parece-me evidente, agora o que me parece menos claro e pouco justo é o “direito” de fazerem 2000 horas extraordinárias por ano é que me parece um absurdo. E se por exemplo, exirtir (ao que parece não é o caso) uma menor procura de trab. dos portos, os meninos tem de ter as suas 2000 horas pagas porque está no seu direito laboral. É um absurdo! Isto só cabe na cabeça mesmo de sindicalistas. Francamente só não fico chocado com estas propostas, com esta greve, porque a forma como o estado no tempo do Sr Socrates cedeu a exploração à Lisconte por mais 20 ou 30anos (ajuste direto) no porto de Lisboa, eles merecem, merecem maus funcionarios, com maus principios, apoiados por pessimos sindicalistas que fazem um péssimo serviço ao país. As pessoas por norma confundem “direitos” com deveres, e dever não é só ir trabalhar e desempenhar de forma profissional o seu trabalho, mas sim o dever de dar o meu contributo para uma sociedade melhor e mais justa. A questão é, como somos (des)governados por gente como a que está no poder politico à muitos anos não existe qualquer tipo de moralidade para “pdir” bom senso. A questão é que se essas 2000 horas fossem pagas ao mesmo valor do horario normal seguramente não estariamos aqui com esta greve, mas sim com a greve que os obrigava a fazer estas 2000 horas. Secalhar o problema é mesmo este…. a mama é boa demais, e quando se pretende cortar a mama e a regalias os bebes choram. Temos pena!

    • Renato Teixeira diz:

      Percebe mal. O que querem é mais contratações. Se a sua cena fosse garantir as horas extraordinárias, não fariam greve a essas horas.

  10. Marco diz:

    Esperem um pouco a ver se percebi bem… Então os senhores estivadores (que não dizem quanto ganham) estão a lutar para que, em vez de serem eles a fazer horas extraordinárias pagas a peso de ouro, se contratem novas pessoas reduzindo assim a carga de trabalho e, consequentemente, o seu salário?! Mas querem chamar ignorantes a quem??? Vergonha é o que falta a muita gente. E ainda por cima fazem greves regadas a cerveja e música pimba, prova da seriedade das suas intenções… Se tivessem de “esfolar” o pelo para ganhar 500 euros não andariam em greve, e rezariam para que a fonte do sustento não se acabasse. Afiguram-se-me todos como abutres, à espera que a última estocada seja dada para reivindicar o seu quinhão!!

    • Renato Teixeira diz:

      Não dizem quanto ganham? Mas o troll chegou a ler alguma coisa sobre o assunto ou limita-se a salivar depois do titulo?

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