Oligarcas Tremei, Viva a Liberdade!

Excerto de artigo do Miguel Sousa Tavares no seu editorial do Expresso desta semana, “A hora da verdade”:

Temo que seja já tarde. A UGT irá em breve mudar de secretário-geral e não vem aí outro João Proença. A CGTP mudou para uma linha estalinista pura e dura, à semelhança do seu novo secretário-geral. A classe média, que o Governo reduziu a classe remediada, de certeza que não confia nele nem no seu círculo íntimo de terroristas económicos para restaurar a confiança. E a rua despertou, conseguindo até juntar as tropas comunistas saudosas de novo sequestro da Assembleia da República ao peculiar sindicalismo dos estivadores do porto de Lisboa, ao estilo do sindicalismo dos anos 30 em Chicago.

Até guincham!!!


Fui à procura da música no youtube, o som com umas imagens… mas encontrei algo muito melhor, um comício em Santa Inês onde Chavez e as massas cantam o hino federal, “Oligarcas tremei! Viva a liberdade!” Numa palavra… sublime.

A propósito disto uma breve nota acerca de um problema no seio do movimento de massas. Não é grave, nem é intencional, é mais fruto de uma certa inexperiência…

É a questão do “derrotismo” e do “culpar as massas”. É mais reflexo de um certo entusiasmo misturado com alguma imaturidade, do que propriamente um esforço de desmobilização consciente. Um exemplo disso foi algum pessoal no dia 31 de Outubro no final da manif ter dito algo como ” onde está o milhão de desempregados? Onde estão os estudantes?”. Outro é o segundo parágrafo da convocação de uma manif para dia 17 de Novembro “(…)no entanto resignamo-nos, baixamos os braços, voltamos ao sofá, como resultado foi aprovado um Orçamento(…)”…

1 – Isto não é verdade. Desde o 15 de Setembro (antes sim poderia-se dizer uma coisa destas), que as massas têm estado mobilizadas e em vários protestos, manifestações, greves têm dito presente! Como digo na abertura deste post, nunca se assistiu a uma tal mobilização em portugal desde o PREC, o próprio editorial comicó-trágico do Miguel Sousa Tavares é reflexo disso…

2 – Mesmo em períodos de auge de mobilização o povo nunca está em permanência, aos milhões, na Rua… No Prec uma manifestação das dimensões do 15 de Setembro, só o 1º de Maio… Houve outros grandes protestos, mas por exemplo, da dimensão do 29 de Setembro da CGTP também só deve ter havido uns 3 ou 4… O mesmo se pode dizer para várias outras revoluções e períodos de grande mobilização… A 15 de Setembro estiveram à volta de 1 milhão de pessoas na rua, isso é cerca de 10% da população portuguesa. Em quantos outros países, ou momentos esteve no mesmo dia 10% da população num protesto? Mesmo no Egipto no auge da “primavera árabe” e das ocupações na praça Tahir, alguma vez estiveram 8 milhões de egípcios nesse protesto? Uma das tácticas clássicas da reacção é desvalorizar as próprias conquistas e mobilizações dos movimentos populares… Muita vezes até os activistas de deixam embalar por esse “canto da sereia” reaccionário… Uma importante tarefa é valorizar e dar a devida importância a momentos excepcionais, como foi o 15 de Setembro.

3 – Este tipo de afirmações, implicitamente põe as culpas do que está a acontecer no povo… Isso é o discurso dos cronistas do regime e da situação. Para um revolucionário  a culpa nunca pode ser do povo, porque se é, não há nada a fazer, visto que só o povo pode reverter a situação… E por as culpas no povo também é uma óptima maneira para os activistas e organizações contra-hegemónicas sacudirem a água do capote e inventarem desculpas para a sua ineficácia… Não! Se há problemas de mobilização (o que não é o caso no momento presente em Portugal) estes encontram-se a) na situação objectiva, sócio-politico-económica b) nos erros subjectivos das organizações contra-hegemónicas.

4 – Este tipo de afirmações derrotistas podem causar um efeito desmobilizador… ao repetir-se “o povo não está nas ruas” o pessoal que está em casa e que deve ser conquistado pensa “pois  a malta até está acomodada, não vale a pena sair do sofá”… Ou seja, esse tipo de afirmações provoca o efeito contrário ao pretendido! A mobilização tem de ser sempre pela positiva e não pela recriminação daqueles que pretendemos que se juntem a nós! Aliás os cães de fila do regime nos media apressam-se logo a apanhar estas deixas, aqui está um exemplo nojento (ver o ponto 4 deste inimigo do povo), são como abrutes que se aproveitam do mínimo de fraqueza do movimento… Essas hienas não perdem uma oportunidade para desmoralizar as massas, não vale a pena dar-lhes munições!

5 – De imediato irão decorrer várias importantíssimas mobilizações!

Bem, a polícia é amanhã

10N – Manifestação dos Militares

12N – Merkel Rua!

14N – Greve Geral Europeia

 6 – Repito, não acho “reaccionários” ou “contra-revolucionários” estes comentários “derrotistas” e “desmobilizadores”…  Percebo perfeitamente que a malta se exalte e pergunte onde está o resto do pessoal que está a ser lixado. Percebo que o pessoal ainda queira mais gente na rua.  Mas cuidado para que isso não se traduza em afirmações contra-producentes. De resto, só tenho de saudar quem ficou no dia 31 de Outubro até às tantas e quem já está a marcar protestos pós-14 de Novembro.

7 – Existe também o problema inverso, o do “triunfalismo”. Mas neste momento o movimento não padece disso.

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13 respostas a Oligarcas Tremei, Viva a Liberdade!

  1. João. diz:

    O Sousa Tavares oscila entre o PS e o PSD o que, neste momento, significa basicamente apoiar as políticas em curso, até porque quem oscila entre o PS e o PSD não tem nenhuma inclinação para a esquerda. Se oscilasse entre o PCP e o PS ou entre o BE e o PS poderia ser um aliado da mudança na comunicação social. Assim sendo, é mais um troikista.

    Como é óbvio, daí o “até guincham”, ou acha que eu descreveria a situação como ele faz??? É apenas revelador do estad da situação e é bom ver estes cronistas do regime a uivar…

    “Repito, não acho “reaccionários” ou “contra-revolucionários” estes comentários “derrotistas” e “desmobilizadores”… Percebo perfeitamente que a malta se exalte e pergunte onde está o resto do pessoal que está a ser lixado. Percebo que o pessoal ainda queira mais gente na rua. Mas cuidado para que isso não se traduza em afirmações contra-producentes. De resto, só tenho de saudar quem ficou no dia 31 de Outubro até às tantas e quem já está a marcar protestos pós-14 de Novembro.

    Aqui refiro-me aos comentários do género “porque é que mais gente não aparece na manifestação?” ou “o pessoal ainda está todo acomodado” ou “não temos força para mudar as coisas”, não às tiradas do MST

    7 – Existe também o problema inverso, o do “triunfalismo”. Mas neste momento o movimento não padece disso.”

    – Por motivos destes também é que, pessoalmente, tenho muito respeito pela CGTP. Tem um tempero na luta que nenhum destes movimentos tem. Eu leio aqui pessoal a criticar a CGTP em relação a um suposto não-sei-quê com os estivadores e, por muito que respeite a luta dos estivadores, se há um problema entre eles e a CGTP – não estou a dizer que haja, apenas colocando a hipótese “se houver” – não tenho dúvidas de alinhar ao lado da CGTP e das suas posições, até porque se os estivadores chegarem a acordo com o patronato a luta deles desvanece – já a da CGTP…continua.

    Respeito a CGTP, tem o problema de achar que é dona da luta e de ser muito pacifista e respeitadora da ordem vigente, mas para haver uma mudança substantiva é uma força necessária e determinante. Não vou entrar em grandes discussões acerca da questão dos estivadores, é ler os posts aqui publicados e informar-se

    • João. diz:

      “Respeito a CGTP, tem o problema de achar que é dona da luta e de ser muito pacifista e respeitadora da ordem vigente, mas para haver uma mudança substantiva é uma força necessária e determinante. Não vou entrar em grandes discussões acerca da questão dos estivadores, é ler os posts aqui publicados e informar-se.”

      Quanto à questão de fundo eu deixaria um comentário em duas mãos.
      De um lado, tacticamente, dados os que aparecem dispostos a acções de confrontação directa e violenta, a proporção da diferença de meios entre o governo e os manifestantes não dá hipótese de um derrube violento do governo.

      Estrategicamente, e aqui é que importa, o tecido social de hoje não é o mesmo de há 100 anos. Hoje se a polícia reprimir com violência uma acção violenta de operários nada indica que exista uma massa de gente que se solidarize com os operários e vá, no momento, engrossar as suas fileiras na luta violenta – simplesmente porque há uma massa de gente que, sendo assalariada, não é imediatamente solidária com os operários ou com todos os demais assalariados.

      Há 100 anos quando de um lado estavam operários e camponeses e de outro o Estado e o capital, um abuso do Estado e do capital sobre um grupo de operários poderia incendiar os ânimos dos demais operários porque fundamentalmente eram um corpo económico muito homogênio e extenso. Hoje, você tem operários, tem trabalhadores de escritórios, pequenos e médios empresários na área de serviços e seus assalariados, etc, etc, que não se tomam como operários à antiga, que não vêem necessariamente uma injustiça sobre um grupo de operários como uma injustiça cometida sobre a própria classe a que pertencem e portanto a hipótese de um grupo de operários suscitar por si só uma sublevação de massas de trabalhadores é escassa; ou seja, há um trabalho de fundo que corresponde a fabricar pontes entre os diversos sectores do trabalho e que tem de levar em conta sensibilidades muito mais diversificadas do que aquelas de há 100 anos.

      O que eu quero dizer é que o risco de precipitação na violência pode levar muitos portugueses a afastar-se da luta, a pensar que a opção à política actual é andar diariamente à porrada com a polícia ou coisa que o valha e, portanto, a preferir ainda assim a política actual, a preferir emigrar, etc. Neste momento o que o país precisa de saber é que alternativa coloca a esquerda; e se a alternativa de esquerda é andar a mostrar o rabo à polícia, então, meu caro, receio dizer-lhe que já perdeu a luta.

      Muitos dos extremistas que no PREC criticavam o PCP por ser demasiado soft, são hoje eleitores do PS e do PSD.

      • franciscofurtado diz:

        Acha a CGTP uma organização perfeita? Acha que a CGTP é imune a qualquer crítica e que não deve ser permitida crítica alguma à CGTP? Acha que qualquer crítica/sugestão feita por outros sectores em luta à CGTP é ilegítima e deve ser combatida?

        Quanto ao argumento do “à 100 anos atrás” ele é completamente falacioso… à 100 anos atrás as vastas camadas camponesas eram muito influenciadas pelo clero e ideologias reaccionárias… “à 100 anos atrás” a classe operária era tão ou mais exígua (em Portugal) que nos dias de hoje… “à 100 anos atrás” também havia vastas camadas de pequenos lojistas, empregados de escritório, comerciantes, etc… “à 100 anos atrás” as condições para uma luta insurreccional eram tão ou mais negativas do que são hoje… “à 100 anos atrás” não é argumento para nada do que disse… aliás hoje em dia o regime tem muito menos capacidade repressiva do que “à 100 anos atrás”.

        • João. diz:

          A CGTP não é imune a críticas. O que me parece é que há uma grupo de gente que parece imune à experiência que a CGTP acumulou ao longo de 40 anos de luta – gente que, no lugar de colocar em causa o comprometimento da CGTP com a luta porque a CGTP não corresponde às suas expectativas, talvez devessem começar, por questionar primeiro as essas expectativas (até porque muitos chegaram, comparativamente, há pouco tempo à luta) e perguntar-se porque razão a CGTP prefere uns métodos a outros. Mas perguntar-se sem querer responder rapidamente com a primeira coisa que lhe vem à cabeça, ficar algum tempo com essa pergunta na cabeça e ver onde ela os pode levar.

          É que se quer que lhe diga, desconfio que você não anda longe de dizer da CGTP que a sua luta interessa apenas aos dirigentes e não aos trabalhadores, algo que é demasiado semelhante ao que diz a direita. Mas isto aqui é só uma desconfiança que talvez não tenha razão de ser.

          • franciscofurtado diz:

            Em vez de mandar insinuações para o ar e começar com o discurso automático responda às outras perguntas: Acha que a CGTP é imune a qualquer crítica e que não deve ser permitida crítica alguma à CGTP? Acha que qualquer crítica/sugestão feita por outros sectores em luta à CGTP é ilegítima e deve ser combatida?

            Pelo menos admitiu que a CGTP não é imune a críticas!!! Vá lá… quanto às insinuações torpes, leia os meus posts e tire as suas conclusões.

          • João. diz:

            Porque razão é que a minha crítica à sua crítica da CGTP significa que não é permitido criticar a CGTP? Eu simplesmente não concordo com você. Não tem nada a ver com ser ou não ser permitido criticar. Você parece pensar que a CGTP ou os seus apoiantes são mesmo estalinistas, que não permitem críticas. Veja lá se não vai acabar a fazer coro com o Sousa Tavares.

        • João. diz:

          Não falava em Portugal, que, de facto há 100 anos atrás praticamente nem era industrializado, para os padrões da época, mas nos movimentos que levaram a sublevações e mesmo a revoluções em países mais industrializados. Mas aqui fui eu que não fiz a distinção entre Portugal e aqueles a que me referia.

          • franciscofurtado diz:

            Sim, mas é que até houve uma revolução “à 100 anos atrás” em Portugal… mesmo nessas condições… agora poderemos discutir porque é que ela, em grande medida, falhou e aí uma parte importante da resposta é que os seus dirigentes hostilizaram e combateram o operariado que era exactamente a sua base de suporte… mas essa seria toda uma outra discussão.

          • João. diz:

            Sim. Julgo que não será ilegítimo dizer que 1910 foi uma revolução burguesa.

        • Antónimo diz:

          O João escreveu bem. “Há 100 anos”, ou seja “Existem 100 anos”, e nunca “à 100 anos”

          Depois o João escreveu bem “há 100 anos”. E nunca “[h]á 100 anos atrás.” Há 100 anos remete para o passado, logo foi atrás. é redundante.

  2. Carlos Carapeto diz:

    Aquilo que o Sousa Tavares escreve já todos sabemos. Portanto não aquece nem arrefece quem está do outro lado da barricada, a não ser estar preparado para disparar um tiro certeiro na testa quando existirem condições para tal.

    Preocupa-me muito mais isto que está aí por baixo que o autor do artigo escreveu.

    “A CGTP mudou para uma linha estalinista pura e dura, à semelhança do seu novo secretário-geral.”

    A frase acima é do Miguel Sousa Tavares, parece que há indivíduos que têm pouca capacidade de interpretação, tudo o que no post está em itálico é do artigo do Miguel Sousa Tavares…

  3. eu diz:

    Este gajo do MST,vai bater na mesma mentira dos 75% dos gastos da FP é para pagar vencimentos!O Professor Doutor Eugénio Rosa publicou um estudo sobre isso há bem pouco tempo http://5dias.net/wp-content/uploads/2012/09/39-2012-A-ignorancia-Antonio-Borges.pdf

    é prudente não se ‘fundamentar’ em doutrinadores e papagaios como esse sr..Aliás,antes de publicar aqui as bocarras de mentirosos goebbelianos,debveria ver a PRATA da casa como o Eugénio Rosa q não se compara com a merda representada por MST!!!!

    Há gente muito básica, incapaz de perceber uma sátira… então eu termino a citação do MST com o grito “Até guincham” e até guincham porque estamos numa situação em que esses cronistas do regime Vêm-se atormentados e confusos, por um lado lamentando a situação e por outro fazendo criticas caricaturais ao movimento de resistência… Mas a própria natureza das suas carícaturas e críticas é para mim reveladora do estado de algum desespero a que estas elites chegaram!!!
    Há gente que está tão formatada, tão condicionada que se comporta como o cão na experiência de pavlov, mal ouvem uma palavra começam a uivar… Ficam cegos, confundem os autores de diferentes afirmações, não percebem a sátira e o sarcasmo, não têm qualquer flexibilidade mental. Eu&CªLda veja se desenvolve a sua capacidade de análise e intrepretação, veja se consegue reflectir para além dos seus reflexos condicionados e para lá do discurso em piloto automático.
    Para o movimento popular derrotar a Troika terá de se movimentar, ser flexível, ser criativo…Ir para lá do discurso automático e os reflexos condicionados pavlovianos.

  4. Antónimo diz:

    O Sousa Tavares só diz asneiras umas em cima das outras mas olha-se para ele e não tem o ar daqueles jornalistinhas que enchem agora as redacções.

    Ao menos não é um pau mandado dos patrões da imprensa. Diz asneiras por convicção e não por causa das vendas e dos accionistas.

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