The revolution will not be facebooked

A estética e o folclorismo violento de certos grupos políticos denota a arrogância e a sobranceria de quem se acha na posse de uma receita mais rápida e eficaz de se chegar ao destino. Na canção dos Calle 13, Pa’l Norte, alguém grita que o caminho não é fundamental: “o importante é chegar”. Na obra-prima de Mathieu Kassovitz, La Haine, uma voz-off abre a película destacando que é a aterragem que importa e não a queda. Mas sendo certo que o objectivo é aquilo que a todos nos move e nos faz empreender o caminho também não é menos verdade que qualquer pasteleiro diria que sem um cuidado escrupuloso sobre a receita acabaremos com um desastre entre mãos.

Mas não, não se trata de música, de cinema ou de culinária. Trata-se da luta de classes. E os que com o seu ruído tentam abafar as muitas variáveis em jogo não fazem mais do que ajudar o inimigo. É que as polémicas que alguns tentam relançar sobre a postura dos comunistas em relação à violência não é nova. Foi, é e será discutida enquanto houver capitalismo. É que os detentores do poder económico e político acusam-nos de violentos e os que se dizem à esquerda dos comunistas acusam-nos de pacíficos e, em consequência, colaboracionistas.

À direita, durante o debate sobre o Orçamento do Estado para 2013, um deputado do PSD citava o Manifesto do Partido Comunista para destapar os propósitos violentos da “extrema-esquerda radical”. Há cerca de um mês, José Pacheco Pereira brindou-nos com uma excelente prosa que enunciava os perigos da actividade do PCP e da CGTP face à inconsequência dos grupos que se dizem à esquerda dos comunistas e que tentam romper com o modelo de luta da central sindical. A coincidência da análise de Pacheco Pereira não traduz sintonia entre o antigo maoísta e actual membro do PSD com o PCP e a CGTP. Traduz um alerta que significa medo.

Muitas destas discussões repetiram-se ao longo do século XX. Em Portugal, foram particularmente intensas durante os anos 70 com o advento do maoísmo e do trotskismo. Mas foram varridas durante a longa travessia contra-revolucionária em que boa parte dos que se diziam à esquerda do PCP se entregaram à causa dos que nos afundam o país. Pacheco Pereira é um deles, o presidente da União Europeia é outro. Não se sabendo onde estarão, dentro de décadas, alguns dos que agora criticam os comunistas, é aqui e neste momento que devemos desmontar as acusações que são feitas.

Em primeiro lugar, é curioso assinalar que durante todos estes anos de ventos contrários, à direita e à esquerda, apontou-se o dedo ao PCP. Quando Álvaro Cunhal faleceu, em 2005, a imprensa europeia anunciava a morte do último grande stalinista. O líder histórico de um partido que era fiel à ortodoxia soviética. Todo o conjunto de epítetos anti-comunistas foi partilhado da direita à esquerda, sem qualquer pudor, por aqueles que desde o poder ou do contra-poder alimentaram, durante décadas, o eurocomunismo, a social-democratização dos partidos comunistas e a sua desfiguração.

Toda esta linha de desvalorização das organizações representativas dos trabalhadores, acusando-as de ser manobradas pelo PCP, o que considero ser um insulto para os próprios trabalhadores, todo este fascínio pelo espontaneísmo, toda esta promoção de acções e atitudes sem qualquer preocupação pela elevação da consciência social e política da maioria da população, pela radicalização das massas, é um gigantesco pontapé na memória histórica e não deixa de ser resultado de um longo processo de revisionismo histórico.

Velhas discussões que já haviam sido ultrapassadas pela experiência regressam pela mão da mesma classe de gente que noutros tempos as protagonizava. Alguns deles são os mesmos que gostam de se dizer leninistas, apesar de trotskistas, não sabendo, por exemplo, que Lénine, em 1917, criticou violentamente uma manifestação desencadeada contra as declarações de Miliukov, ministro de Relações Exteriores do governo provisório, que anunciara a fidelidade aos compromissos contraídos pelo Czar com os aliados sobre a guerra. Este protesto que acabou com vários mortos e feridos em choques violentos com os apoiantes do governo provisório seguia a consigna de derrubar o poder.

Se fossem alguns dos que cá e hoje se dizem de esquerda carregariam violentamente contra a resposta de Lénine: Esta saída estava fora do tempo por ser prematura. Qualquer movimento insurreccional, qualquer que seja, deve ser levado até ao fim. Se se detém a meio do caminho, isso pode ter consequências graves para toda a revolução. E acrescenta: “Dediquem todas as vossas forças a orientar os recuados, a unir as vossas filas, a organizar-vos de cima abaixo, de baixo acima. Não vos deixeis desconcertar nem pelos conciliadores pequeno-burgueses nem pelos partidários da defensa nacional nem pelos energúmenos que querem precipitar as coisas e gritar «Abaixo o governo provisório!» antes que se forme uma maioria popular coerente e estável. A crise não pode ser resolvida nem pela violência exercida por alguns indivíduos sobre outros, nem pelas intervenções esporádicas de pequenos grupos de gentes armadas, nem pelas tentativas blanquistas de «tomar o poder», de prisão do governo provisório”.

Em Portugal, a crise económica e política agudiza-se. Também dizia Lénine que o proletariado, na sua educação revolucionária, pode aprender “mais num só ano de recrudescência política do que em vários anos de calma”. Se a direita avançar com o processo de destruição das funções sociais do Estado e decidir rasgar a Constituição da República Portuguesa estaremos perante um golpe. A resposta à altura dessa agressão também tem de ter a maioria dos trabalhadores ganhos para as tarefas que serão necessárias para desenvolver uma luta sem tréguas contra o poder político e económico.

O próximo passo é a greve geral. Ela não só afecta muito mais o poder económico como exige um maior comprometimento e uma maior confrontação onde a luta de classes é mais aguda: no local de trabalho. Mais do que uma manifestação ou lançar petardos de cara tapada, uma greve é a etapa superior de quem tem a coragem de enfrentar o patrão. É, por isso, que é grave a desvalorização que alguns fazem da necessidade de todos fazerem greve propondo a abertura de outros espaços para que quem fura a greve possa participar sem se bater com quem o explora. E se no dia seguinte há a possibilidade de tudo continuar igual, nada continuará igual para o trabalhador que de queixo erguido soube estar do lado certo. Para os outros, nada mudou.

Para o êxito das lutas que se avizinham, só com a unidade, a consciência e a disciplina revolucionária se poderá bater-se com eficácia. No momento em que surgirem as condições objectivas e subjectivas para a ruptura com este sistema não será a escadaria da Assembleia da República que teremos de tomar. Os edifícios só têm importância económica, política e militar pelas pessoas que albergam. Sem elas são apenas um monte de pedras e cimento. A tomada do Palácio de Inverno foi importante mas o verdadeiro poder estava nas mãos dos industriais, dos banqueiros e dos latifundiários. Sem a tomada de consciência de que é o sistema que urge derrubar, que não é pela troca de este ou aquele político, não saberemos caminhar. Se não soubermos o ritmo a que devemos caminhar, ficaremos a metade. E já é tempo de abrir passo para chegarmos definitivamente ao fim da estrada.

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