“O amor é não haver polícia”

A – Sentimos no ar a melodia etérea. É a nossa música. Cantamos e dançamos como se fosse a última vez

Toda a discussão gerada em torno das palavras “a polícia não nos faz mal” de Arménio Carlos deveria levar a esquerda a reflectir sobre um aspecto que ganha sempre importância em momentos de maior tensão política: a relação do movimento operário com o Estado e o seu aparelho de repressão. Não vou entrar na discussão sobre o episódio de quem chamou de vândalos e de arruaceiros o pessoal que foi amaciado com o cacetete na manif da greve geral de Março passado. Nem vou enumerar mais exemplos, pois os que o Rick Dangerous já deu aqui chegam e sobram para lembrar os mais esquecidos.

Como disse acima, as palavras do Arménio Carlos devem (ou deveriam) ser o ponto de partida para que a esquerda e todos os que se consideram anticapitalistas reflectissem sobre o que querem para o aparelho repressivo e seus corpos especializados. Um dos factos mais bizarros do actual estado de degeneração política de boa parte da esquerda que se reivindica do marxismo encontra-se na amnésia a que tem votado os contributos mais libertadores das figuras que dizem seguir. Vejamos porquê.

Na sequência da Comuna de Paris de 1871 Marx vai chamar a atenção para o processo absolutamente inovador que a classe trabalhadora aí operou no âmbito da profunda reconfiguração da sociedade. Na obra “Guerra Civil em França” que escreveu de balanço e de descrição sobre essa experiência de poder da classe trabalhadora, Marx recorda que «o primeiro decreto da Comuna foi a supressão do exército permanente e a sua substituição pelo povo armado». Associado a isto «a Comuna constitui-se a partir dos conselheiros municipais eleitos por sufrágio universal nas várias circunscrições de Paris». Mais, «estes eram responsáveis e amovíveis a qualquer momento. A sua maioria consistia naturalmente de operários ou de representantes reconhecidos da classe operária. (…) A polícia até aí o instrumento do governo estatal, foi imediatamente privada de todos os seus atributos políticos e transformada no instrumento responsável e amovível a cada momento da Comuna, (…) do mesmo modo os funcionários de todos os outros ramos administrativos. A começar pelos membros da Comuna e daí para baixo, o serviço público tinha de ser exercido mediante um salário operário (…)» (negritos da minha autoria).

Claro que as situações não são comparáveis nem é esse o meu objectivo aqui em debate. O que me interessa é discutir até que ponto a esquerda que se aperalta constantemente de fiel seguidora da identidade marxista-leninista se encontra ou não no mesmo comprimento de onda dos seus pais fundadores. Nesse sentido, acompanho completamente o Rick Dangerous quando diz e bem que o busílis da questão não está num qualquer apelo para que a CGTP procure confrontar a polícia mas está em «a CGTP alinhar com todos os esquemas instituídos de controlo policial das manifestações, chegando ao ponto de negar que a polícia intervém repressivamente em cenários de conflito». Esta última parte da frase interessa que seja discutida seriamente pois é nela que está subjacente a concepção entoada por Arménio Carlos e que me leva a levantar a seguinte questão: a polícia enquanto instituição especializada e monopolizadora do exercício da repressão sobre a classe trabalhadora é ou não para manter numa outra forma de organização da sociedade?

B – Os olhos páram em ti e em mim, enquanto preenchemos o espaço vazio, impossível de preencher por alguém que não nós.

Toda a tradição de lutas da classe trabalhadora sempre passou por ter como objectivo político a dissolução dos corpos repressivos (da polícia e do exército) ao serviço da reprodução do capitalismo. Como muito bem é lembrado num texto com quase um ano e que infelizmente passou ao lado de uma discussão atenta e séria: «a generalização desta reivindicação traria um enorme benefício social, porque colocaria na ordem do dia um factor de democratização da sociedade. As forças armadas são uma das principais estruturas autoritárias, tendo a cadeia de comando como eixo fundamental, e constituem o pneu sobresselente do capitalismo, o aparelho de Estado alternativo, para o caso de o aparelho civil fracassar. Um capitalismo sem exército é, a prazo, um capitalismo socialmente mais débil».

Desgraçadamente para todos os que se reclamam do marxismo, poucos parecem lembrar-se que vários dos mais importantes processos revolucionários do passado ocorreram na sequência de um decidido e enérgico combate contra as instituições militar e policial. O próprio Lénine, em “O Estado e a Revolução”, lembrava que o Estado burguês tinha a «necessidade de  destacamentos especiais de homens armados (polícia, exército permanente), colocados acima da sociedade» pelo que teriam de ser eliminados e substituídos por um armamento generalizado dos trabalhadores. Que tenha ocorrido um hiato entre as palavras de Lénine e a prática do partido bolchevique (Cronstadt, repressão dos exércitos de Makhno, prisão e proibição das correntes comunistas de esquerda, etc.) é assunto para outra oportunidade. O que me importa salientar é antes o fosso entre a consciência que Lénine tinha do carácter intrinsecamente repressivo dos corpos militares e policiais e a oposta atitude dos leninistas de hoje. Nesse sentido, os discursos que defendem que «os polícias, militares e demais forças fazem parte intrínseca do povo trabalhador» e que metem no mesmo saco trabalhadores do pingo doce, de fábricas de circuitos e polícias (ver aqui) são de um recuo ideológico confrangedor e preocupante.

De facto é terrível e realmente preocupante que mais de 150 anos de lutas do movimento operário passados a pente fino por intervenções repressivas de todo o tipo sejam simplesmente ignorados. Se os que se dizem defensores dos trabalhadores acham que a instituição policial é parte integrante da classe trabalhadora, então andam confundidos sobre a função das instituições de segurança. Os agentes policiais não produzem mercadorias a troco de um salário como os trabalhadores, mas, pelo contrário, nas situações de conflitualidade social e política são um dos instrumentos que tentam salvaguardar a permanência das relações de exploração económica. Para a esquerda que se diz herdeira dos valores de Abril é igualmente confrangedor que se esqueça que não foi por acaso que logo a 13 de Maio de 1974 foi dissolvida a Companhia Móvel da PSP, vulgo polícia de choque. (Só em finais de 1975 voltaria a ser reactivada). Mais uma vez se demonstra que nos contextos revolucionários ou de grande mobilização social, a classe trabalhadora sempre quis colocar em causa a existência dos corpos especializados de repressão e que esse foi sempre um dos seus objectivos políticos de longa data.

Uma esquerda que se refugia nas reivindicações salariais dos membros das forças policiais para daí retirar uma ilusória inserção da instituição policial na classe trabalhadora é uma esquerda que já perdeu a noção das origens ideológicas que diz defender.

C – O mundo é grande e em todo o lado se vive. Diz-lhe para parar aqui, vivemos em caixas de fósforos. Não sopres. Se as mãos pudessem dizer por mim. Eu queria tanto parar aqui!

A política nunca ou só muito raramente deveria ter a ver com indivíduos mas com as suas palavras e práticas políticas. Sei que estou a falar para o boneco, mas não posso deixar de reiterar este princípio. Por isso nada disto tem a ver com os polícias enquanto indivíduos mas com a instituição que é, para todos os efeitos, um corpo especializado de aplicação da força e de restabelecimento da ordem nas situações em que a classe trabalhadora se mobiliza num grau que pode fazer perigar a regular ordem capitalista. E, repito, isto nada tem a ver com os indivíduos que compõem as forças de segurança mas com as instituições. Nem se criticam aqui as justas tentativas que possam impedir a polícia de reprimir trabalhadores. Nem se está a apelar a que se desenvolvam confrontos com a polícia.

Disse e volto a repetir, nos contextos revolucionários são recorrentes as situações de membros das forças de segurança que se passam para o lado das lutas dos trabalhadores. Mas não é disso que se trata quando se canta e festeja a inclusão da instituição policial no “povo trabalhador”. Muito pelo contrário, nas situações revolucionárias quando destacamentos de soldados e mesmo alguns polícias se juntam aos trabalhadores, eles estão a cortar laços com a hierarquia de comando até então existente e, nalguns casos, chegaram mesmo a fundir-se com os trabalhadores em luta. Recomendo vivamente a leitura do romance “Don Tranquilo” para que se compreenda a origem da Revolução de 1917 nas trincheiras e no caso extremo do fuzilamento de oficiais do exército imperial russo pelos soldados amotinados. Para quem não tiver tanto tempo sugiro o visionamento de “Doutor Jivago” onde o mesmo processo surge na trama do filme. Interessantes mas preocupantes estes tempos em que os próprios herdeiros do leninismo se esquecem como ocorreu a revolução que levaria os bolcheviques ao poder… O esquecimento é sempre o primeiro passo para que se reproduzam, ampliem e disfarcem com roupagens mais ou menos vermelhas os mecanismos de hierarquização subjacentes ao Estado e à economia capitalista…

Mas regresso ao assunto que me ocupa neste texto. No pólo oposto das experiências revolucionárias acima descritas, o caso da inclusão da instituição policial no povo equivale a uma concepção de reprodução das estruturas hierárquicas do Estado. Não foi por acaso que no início desta secção falei tanto na necessidade de se distinguir os indivíduos das instituições. O apego ao mito dos soldados, dos dirigentes militares ou dos polícias do povo – que a aliança Povo-MFA foi um exemplo canónico – em nada ajudou a desarticular as estruturas militares. Basta ver o que sucedeu a partir de Agosto-Setembro de 75 quando a grande maioria da estrutura militar do MFA ajudou a reverter o processo revolucionário e foi o principal obstáculo ao avanço do próprio projecto político do PCP. Onde este partido via no MFA a bóia de salvação para o seu programa político de estabilização democrática e de formação de um capitalismo misto de Estado, o MFA tratou de lembrar para que servem as estruturas da autoridade.

Num plano hipotético eu até poderia dizer que à luz do exemplo aqui aludido a lição ficou por aprender. Posso estar enganado mas neste momento em que «vivemos em caixas de fósforos» e sabendo que não há virgindade em política, duvido que tudo isto seja meramente uma questão de aprendizagem.

Linda Martini – “O amor é não haver polícia” (Todos os itálicos que introduzem as várias secções deste post pertencem à letra deste tema)

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24 respostas a “O amor é não haver polícia”

  1. Pingback: ISTO É UMA MERDA (esta situação): TER DE LER ISTO E LOGO ESCRITO POR UM FANÁTICO DEFENSOR DO EURO €€€€ | cinco dias

  2. Diogo Duarte diz:

    Estou longe de concepções políticas leninistas, mas creio que o texto vai muito para além disso e é uma reflexão muito necessária, de que muita gente ainda parece fugir. Também me parece impressionante como é que (por comodismo?) se esquece uma longa história de repressão e aquilo que a subjaz, justificando essa atitude com a consideração de que os polícias são parte da classe trabalhadora, menosprezando as suas particularidades institucionais e esquecendo o que é que a legitima e torna necessária.
    Por isso mesmo, talvez nem seja preciso ir tão longe na reflexão: basta ver quão absurdo é falar para os policias que ali estão, nomeadamente com recurso a afirmações genéricas, como fez o Arménio Carlos, quando aqueles polícias não agem, logicamente, autonomamente ou em nome próprio e a sua existência ou eficácia assenta precisamente nessa condição. Mais simples ainda: veja-se quão perigoso é achar que um corpo que supostamente tem o dever de manter a ordem (seja lá o que isso for), tem legitimidade para intervir quando provocada, sendo que a sua segurança raramente é colocada em causa por lhes atirarem umas pedras, umas garrafas ou por lhes chamarem nomes, como se em causa estivesse um qualquer braço de ferro ou uma qualquer condição viril. Isto para não mencionar que eles constituem a única presença realmente armada e sustentada por um aparato de força – coisa geralmente esquecida por quem crítica a violência e que acaba, dessa forma, por aceitar implicitamente o monopólio da violência por um outro grupo e, pior ainda, por naturalizar esse monopólio.

  3. Antónimo diz:

    Curioso é que eu tenha deixado o comentário “Arménio Carlos no seu dele discurso saudou os estivadores e a sua luta. Raquel Varela não deve ter ouvido o discurso ou de certeza que não teria ter deixado de assinalar o facto” num post da vossa Raquelita sobre cgtp e estivadores e a moça não o tenha aprovado.

    Gostava de saber o que tem de tão ofensivo. Acho que a inteligência a ofende.

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      A Raquel é a candidata número um a chefe do primeiro Gulag que seria instituído, se a facção a que pertence viesse a dominar num quadro de ruptura sistémica. Ideologicamente fanática, inculta, intolerante, desmesuradamente vaidosa e ambiciosa, contribui – sem se aperceber disso – para a permanência do capitalismo mais odioso. De facto, entre este capitalismo e os gulags raquelianos, a única alternativa seria mesmo emigrar para Marte…

      • Leo diz:

        “Ideologicamente fanática, inculta, intolerante, desmesuradamente vaidosa e ambiciosa, contribui – sem se aperceber disso – para a permanência do capitalismo mais odioso.”

        Sem se aperceber disso? Ora………

      • José Lemos diz:

        … até é possível que seja isso tudo, mas…

      • clarindo barnabé matoso pires alcâncio mateus moreira barnabé outra vez diz:

        Nuno Cardoso da Silva, sugiro a criação de um batalhão simultaneamente anti capitalista e anti raquel varela, aka reencarnação do Estaline, mais a troop de mentecaptos ou fanáticos (os únicos que vão atrás dela e da sua versão masculina, que até evito nomear e de quem outro dia constatei contente que já nem me consigo lembrar da cara!)
        esta malta grita esquerda mas os seus comkportamentos são de direita: elitistas, supra-esclarecidos, e claramente a defender nada mais que o seu ego.. parece que as mobilizações dos ultimos dois anos vieram trazer a estes gajos a sensação de que chegou a oportunidade de liderar as massas. ajudam a que “esquerda” seja para muitos sinónimo de fanatismo e loucura e, acima de tudo, de que neste campo os fins justificam os meios..
        Medo!

  4. Nuno Cardoso da Silva diz:

    João,

    Sem querer ser lamechas, não posso deixar de dizer que são muitas das tuas reflexões que me fazem ainda esperar que uma futura ruptura com o actual e odioso sistema sócio-político-económico não fique entregue a adolescentes tardios com sonhos húmidos de regressos impossíveis a tomadas de Palácios de Inverno imaginários. Se houver pastilhas de inteligência e bom senso, é altura de as distribuir em boa quantidade por estas bandas da esquerda atacada de delirius tremis. Fosse eu um proverbial “porco capitalista” e estaria agora a esfregar as mãos de contente com a qualidade de alguns dos opositores que os deuses me proporcionaram…

  5. João Pedro diz:

    Raquel e os seus cripto-seguidores querem que as massas partam ao assalto de adversários secundários, desarmados, os primeiros, crescentemente equipados os segundos, para uma batalha, desordenadamente, sem direcção de luta, em vez de os neutralizar, de trazer para o nosso lado muitos daqueles que arranjaram emprego nas forças de segurança e têm pais e irmãos no outro lado da barricada. Dito de outro modo, querem a derrota das massas populares, a decapitação de direcções coerentes e consequentes e o regresso ao princípio da luta na modalidade do sacrifício de Sísifo…É isso que querem ?….

    • João Valente Aguiar diz:

      Escrevi o seguinte no texto:

      “o busílis da questão não está num qualquer apelo para que a CGTP procure confrontar a polícia mas está em «a CGTP alinhar com todos os esquemas instituídos de controlo policial das manifestações, chegando ao ponto de negar que a polícia intervém repressivamente em cenários de conflito»”.

      e

      “isto nada tem a ver com os indivíduos que compõem as forças de segurança mas com as instituições. Nem se criticam aqui as justas tentativas que possam impedir a polícia de reprimir trabalhadores. Nem se está a apelar a que se desenvolvam confrontos com a polícia”.

      Não sei onde está a dúvida… Em lado nenhum se escreveu que se devam promover confrontos com a polícia… O fundamento do texto está no que se pensa sobre a polícia e os corpos especializados de repressão. E recusar uma posição de aberta hostilização não nos deveria a cair na posição de que a polícia faz parte do povo…

      • Antónimo diz:

        Como disse à Raquel Varela em comentário não aprovado (e pela hora a que está lá que o pus, foi feito primeiro que os outros 13 que ela aprovou até ao momento. Pode ser que – como de costume – o publique mais tarde se eu reclamar ou se juntar uma agressão ao texto).

        Arménio Carlos saudou em discurso a luta dos estivadores referindo que nem sequer pertenciam à CGTP. Num directo, Ana Avoila foi solicitada por uma jornalista que referiu o pacifismo das acções da CGTP como ponte para dizer qq coisinha contra a violência que até aí estivera por conta dos estivadores, mas a sindicalista não foi nisso.

  6. miguel serras pereira diz:

    João, caríssimo,
    não posso fazer melhor do que subscrever o que diz o Nuno Cardoso da Silva. E faço questão de o fazer aqui.

    Li também o post arruaceiro, à boa maneira fascista, com que o CV se enxovalha uma vez mais. Sobre isso, o que tenho a dizer é o seguinte: o grande problema não é o CV ser fascista, masa antena e o aval que outros lhe dão como “revolucionário” ou “companheiro de jornada”.

    Precisamente, o teu post, mostra uma vez mais que é dos poucos que compreende a importância de separar as águas e de tentar impedir, agora e desde já, que se forme e desenvolva um movimento fascista, um novo ciclo de ditaduras, militarização e guerra, do qual, ao contrário do que pensam certos apocalípticos e milenaristas – “adeptos do quanto pior, melhor” – só podemos esperar o inferno.

    Grande abraço

    miguel

  7. petardo no charco diz:

    “E recusar uma posição de aberta hostilização não nos deveria [fazer] cair na posição de que a polícia faz parte do povo…”

    O João que se deu tanto ao trabalho de manter separados a polícia instituição da polícia indivíduos, não admite a hipótese sequer que os que critica em algum caso o façam também. Trata as palavras dirigidas a certos elementos num comício num contexto bem preciso ou numa caixa de comentários como se de um manifesto ou ensaio se tratasse.

    Na minha opinião o seu temor não tem motivação real. Com isto não quero dizer que a discussão sobre o assunto seja pouco importante.

    • João Valente Aguiar diz:

      Como disse num comentário ao Renegade, «a generalidade da esquerda portuguesa não tem uma posição sobre este assunto. E não se trata de tornar a crítica aos corpos repressivos numa bandeira de luta imediata ou de fomentar conflitos com a polícia. Do que se trata aqui – e espero deixar isto bem claro – é que as posições que se tomam perante este assunto relacionam-se intimamente com o projecto de sociedade que se propõe aos trabalhadores. E isto sim é que urge debater.»

      As palavras do Arménio Carlos são só um ponto de partida para a discussão de algo que extravasa largamente a conjuntura.

  8. renegade diz:

    o petardo no charco vê bem. infelizmente tudo isto surge por razões pouco sérias.
    que toda esta conversa aconteça a propósito de duas ou três frases do secretário-geral da cgtp, retiradas de contexto, ignorando o que vinha antes o que veio depois.
    que tudo isto surja de um título RTP que inteligentemente (mas com aquela “inteligência” própria de quem está a fazer um serviço ao dono, também conhecida como filha da putice) visa retirar legitimidade ao sec-geral para falar às massas, servindo ao mesmo tempo de bandeja material pseudo-justificativo para reflexões sobre o papel da cgtp em tudo e mais um par de botas.
    uma discussão que até seria interessante fica inquinada logo desde o início pelo verbalismo de alguns e sobretudo por utilizarem um pretexto tão ridículo como absurdo.

    • João Valente Aguiar diz:

      Renegade,

      repara que eu nem estou tanto a preocupar com as palavras do Arménio Carlos mas, como disse no texto, «as palavras do Arménio Carlos devem (ou deveriam) ser o ponto de partida para que a esquerda e todos os que se consideram anticapitalistas reflectissem sobre o que querem para o aparelho repressivo e seus corpos especializados» (negrito aqui no comentário).

      Por outro lado, goste-se ou não se goste, as palavras nunca são vãs! Ainda em menos em política. Mesmo quando ocorrem equívocos – que não me pareceu neste caso – eles têm sempre fortíssimas ressonâncias práticas. E não nos devemos esquecer que as palavras decorrem de um contexto que tem sido de recorrente crispação e animosidade entre a cgtp e os estivadores.

      A isto acrescenta-se o facto de a generalidade da esquerda portuguesa não ter uma posição sobre este assunto. E não se trata de tornar a crítica aos corpos repressivos numa bandeira de luta imediata ou de fomentar conflitos com a polícia. Do que se trata aqui – e espero deixar isto bem claro – é que as posições que se tomam perante este assunto relacionam-se intimamente com o projecto de sociedade que se propõe aos trabalhadores. E isto sim é que urge debater.

      • Antónimo diz:

        Palavras menos vãs – porque pensadas – são as lançadas no discurso oficial de saudação aos estivadores. isso passa ao lado?

        • João Valente Aguiar diz:

          Eu vou repetir outra vez porque pelos vistos não foi suficiente. Como disse num comentário ao Renegade, «a generalidade da esquerda portuguesa não tem uma posição sobre este assunto. E não se trata de tornar a crítica aos corpos repressivos numa bandeira de luta imediata ou de fomentar conflitos com a polícia. Do que se trata aqui – e espero deixar isto bem claro – é que as posições que se tomam perante este assunto relacionam-se intimamente com o projecto de sociedade que se propõe aos trabalhadores. E isto sim é que urge debater.»

          As palavras do Arménio Carlos são só um ponto de partida para a discussão de algo que extravasa largamente a conjuntura.

          • Antónimo diz:

            Repito também, as palavras de Arménio Carlos que interessa reter são as do discurso oficial, que retiram a crispação e animosidade que diz existirem, e não as de um repente por não conseguir concluir um raciocínio.

            Cá em casa, até eu me irrito às vezes com a minha mulher e vice-versa. Não é por isso que não temos um projecto em comum. Que de acordo com o seu título, do dos Linda Martini e muito mais passará por não haver polícia.

          • Segundo tenho visto escrito e ouvido: ” o projecto de sociedade” dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores; propor não será nada mais do que propor, propostas há muitas! e o agir na acção diária?

    • Antónimo diz:

      a RTP chegou a ter escrito que estavam dezenas de manifestantes no local a uma hora a que um repórter da TVI falava de milhares de pessoas.

    • Ricardo diz:

      Estou de acordo. O problema não é a discussão em si (que apoio) mas o pretexto (e a sua forma) usado.

  9. Argala diz:

    É tão óbvia a razão sobre a questão aqui levantada, que nem percebo porque é precisas de um loooooooongo postal para o explicar. Lamento que não leves o raciocínio até ao fim, e fiques por meias tintas como: “o busílis da questão não está num qualquer apelo para que a CGTP procure confrontar a polícia”. Está bem, mas isso de procurar ou deixar de procurar é completamente irrelevante. Uma Central Sindical a sério, vai necessariamente ter que se confrontar com a polícia, e deve-se preparar para isso. Isto é a lógica inexorável da luta de classes.
    Pegar na polícia e juntá-la ao movimento operário só pode ser uma pessegada mal amanhada de revisionistas ou outros patetas.

  10. marta diz:

    a malta que levou porrada da polícia antes e depois do 25 deveria saber que não há pão pra malukos: polícia é polícia, não é soldado, nem marinheiro, não é convertível em camarada: não há abracinhos, nem palavrinhas de apelo à classe que possam ser redentores.
    a história assim o demonstra. mas a história anda muito arredia nestes tempos.
    onde passaram vocês a adolescência? no sofá?

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