“007 – Operação Skyfall”, de Sam Mendes

A maior curiosidade deste 23º filme da saga Bond era ver qual seria a abordagem de Sam  Mendes, realizador com uma obra de grande fulgor emotivo e dramático e com uma cínica e profunda reflexão sobre a sociedade americana, nomeadamente sobre as suas contradições, futilidades e claustrofobias. Ficava a curiosidade de perceber se haveria uma introdução forte do estilo do cineasta no filme ou se, pelo contrário, Mendes se deixaria levar pelos códigos demasiado vincados da série 007, mesmo tendo em conta as mudanças verificadas com a entrada de Daniel Craig. Skyfall deixa alguma sensação dúbia.

Independentemente de tudo isso, a longa e descontextualizada perseguição inicial na Turquia, culminada com o devido suspense, tem o nervo da boa acção americana. Até porque o genérico que se lhe segue tem uma sofisticação visual tremenda, devidamente acompanhada por um bela balada de Adele (sem ironias). Só depois o argumento arranca devidamente e centra-se no caracter possivelmente obsoleto e antiquado dos velhos métodos de espionagem, na permeabilidade dos agentes e na vingança de Raul Silva (o versátil e magnífico Javier Bardem) da chefe M (a sempre majestosa Judy Dench).

Há pormenores interessantes e com alguma diferença neste 007, como ver o carácter mais humano de Bond, vítima do desgaste físico e acima de tudo psicológico, sem que isso signifique entrar no estilo sentimentalão dos Batman do Nolan (para dar um exemplo igualmente carismático). E é uma pérola ter um vilão frágil, meio queer e que desafia a fundo as convenções do género (o diálogo quase homossexual entre Bond e Silva tem muita piada). O problema está na falta de algo mais criativo no argumento e de uma presença mais evidente de Mendes, para além da excessiva duração do filme. Duas horas e vinte é demasiado para uma história que definitivamente não justifica esse tempo (há cenas de acção que poderiam ser perfeitamente cortadas).

Contudo, Skyfall não deixa de ser um filme de acção interessante. Pode não ter a inovação, nem a tensão de Casino Royale, que revitalizou uma fórmula já muito desgastada, mas vê-se com agrado.

6/10

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7 Responses to “007 – Operação Skyfall”, de Sam Mendes

  1. goddard a go go diz:

    “é uma pérola ter um vilão frágil, meio queer”. James Bond é o herói mais reaccionário do cinema. Defendê-lo é mau, mas ser homofóbico é insupurtável num blog de esquerda…

    • João Torgal diz:

      Fazer acusações de carácter (no caso sobre uma suposta postura homofóbica) gratuitas e despropositadas é insuportável seja onde for e venha de quem vier

      • goddard a go go diz:

        “Uma suposta postura homofóbica”? Suposta?? O senhor escrever preto no branco “é uma pérola ter um vilão frágil, meio queer”. Isto não tem duas interpretações, e só pode querer dizer que o Bond é giro quando goza com a paneleiragem, o que sai reforçado quando diz: “o diálogo quase homossexual entre Bond e Silva tem muita piada”. Não há nada de despropositado nesta interpetação e gratuito só pode ser o senhor quando escreve estas coisas, ou não sabe o que diz?
        (só faltava agora que censurasse este post)

        • João Torgal diz:

          Antes de mais, não censuro nada, nem estes insultos gratuitos que ficam na consciência de quem os faz.

          Ter piada e ser uma pérola é um elogio. No sentido de desmistificar a ideia de Bond como sendo um machão reaccionário e que o vilão tem de ser um durão pleno de maldade. É tudo o que não acontece aqui e é um lado positivo do filme.

          Publicarei caso responda algo, mas não prosseguirei com a argumentação se mantiver a ideia insultuosa de que sou homofóbico.

          • Rocha diz:

            O João Torgal já nos habituou a estar-se a marimbar para critérios e ideias de esquerda, que são obviamente essenciais neste blog, quando faz aqui as suas críticas cinéfilas.

            Mas agora, James Bond, acho que já é de mais. Goddard tem razão Bond é o herói mais reaccionário do cinema.

            O charme burguês do agente secreto na tela é a visão hollywoodesca dos agentes da CIA a trabalhar nos Abu Graibs e Guantanamos deste mundo ou nos golpes de Estado sanguinários como o do Chile de 11 de Setembro de 1973.

            Acho que além de falta de critério de esquerda na crítica da arte há aqui também uma enorme falta de bom gosto.

            Desta forma, quem vê filmes de James Bond e ainda se dá ao trabalho de escrever qualquer coisa sobre ele, deixa a impressão de ter milhares de filmes de todo o mundo (e não só dos EUA) a passar-lhe ao lado.

          • João Torgal diz:

            É por essas e por outras que a direita ganha sempre. Quando há tanta falta de visão e gente à esquerda a querer ganhar o troféu “eu sou mais de esquerda do que tu”, as coisas não vão longe.

          • De diz:

            Não tenho qualquer interesse nestes filmes.Mas de facto é claramente excessivo falar em homofobia pelo que o João Torgal escreveu.

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