Exmo. Sr. Presidente

Vejo cada vez mais amigos partir. Não partem para a guerra, como outrora, mas vêem-se forçados a fugir do deserto em que V. Ex.a e os seus transformaram este país. Por cá vão ficando apenas os mais velhos, os mais corruptos, alguns remediados com esperança que o céu não lhes caia sobre a cabeça e todos os que já não têm carteira para emigrar, para duas refeições diárias ou para a urgência do hospital.
Convirá que com os seus dois anos como ministro das Finanças, dez anos como primeiro-ministro e sete anos como Presidente da República, não me restarão grandes dúvidas quanto à sua responsabilidade pelo estado do país. Mas que fique claro, não o vejo como um incompetente. Vejo-o como alguém que sempre governou para si e para os seus, e teve a arte de convencer os mais incautos de que o fazia para o bem de todos. Os mesmos que vão tratando por professor o mais antigo político profissional deste país.
Não lhe escrevo para lhe pedir que vete o Orçamento do Estado que nos condena à barbárie, nem para que o remeta ao Tribunal Constitucional. Não lhe peço que se preocupe com cumprir o texto fundamental da nossa República que V. Ex.a jurou fazer cumprir.
Escrevo-lhe para exigir que declare o fim da festa junto dos seus.
Exijo que convoque uma reunião dos seus fiéis, um Conselho de Estado alargado a todos os interesses e interesseiros que vampirizaram este povo, para lhes participar que a festa acabou. Escrevo-lhe para lhe exigir a si e aos seus que assumam a sua dívida com o povo e com o país. Dos milhares de milhões do BPN aos dos submarinos, passando por todas as parcerias público-privadas que V. Ex.a inventou.
Pela minha parte, apenas lhe prometo tudo fazer para que quanto mais tempo demorar a declarar o fim da festa, maior seja a consciência política deste povo que tanto lhe deu e que, no fundo, sempre desprezou.

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