A surrealidade da dívida e de Pedro Braz Teixeira

Em condições normais jamais escreveria sobre o assunto mas a luta que se trava na generalidade dos países do Sul da Europa trata de definir quem vai ao fundo, se o capital se os trabalhadores. Pleno de circunstância, em posse de todas as capacidades, dotado de cada um dos estados de consciência, Pedro Braz Teixeira prescinde de debater “Quem Paga o Estado Social em Portugal”, apenas para desqualificar os autores que o escreveram.

A dívida existe mas não é dívida nem pública, é um mecanismo de renda privada. A acusação de “irrealidade”, sobretudo quando está em causa o tema da dívida pública, remete o artigo de Pedro Braz Teixeira para a hermenêutica do totalitarismo. Incapaz de demonstrar que a dívida que existe foi contraída por quem trabalha, embora a factura lhes esteja a ser entregue, opta pela via da desconsideração. Não é um mecanismo novo. Ao longo dos séculos, a defesa de alternativas às teses dominantes, sobretudo quando a falência se torna evidente aos olhos da maioria das pessoas, leva os conservadores a patologizar o contraditório, transformando o adversário politico num doente mental, que deve ser olimpicamente ignorado ou rapidamente internado numa qualquer instituição psiquiátrica.

Pedro Braz Teixeira não tem uma palavra sobre a dívida que existe e porque existe, se o mecanismo de transferência é legitimo ou não e tropeça na armadilha da sua própria semântica. A dívida não existe porque não haja alguém com débito, mas porque sendo privada está a ser remetida para a esfera publica, dividindo por todos um esforço que irá pagar um benefício contraído só por alguns. Confundir o “Ser” com o “Dever-Ser” é um exercício antigo usado pelas mais diversas estirpes de demagogos, desde logo porque resumem todo o “Dever-Ser” ao “Ser” em causa, sem balbuciar uma palavra que seja capaz de provar a legitimidade da dívida que os negócios privados endossaram ao orçamento público.

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