O Auto da Lusitânia, uma das últimas peças de Gil Vicente foi escrito em 1531 e representado pela primeira vez em 1532, perante a corte de D. João III quando nasceu seu filho, D. Manuel. Esta é uma versão adaptada de um famoso diálogo da peça.
Entra Tod’Imundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Zé Ninguém e diz:
Zé Ninguém: Como hás nome, cavalheiro?
Tod’Imundo: Eu hei nome Tod’Imundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.
Zé Ninguém: Eu hei nome Zé Ninguém,
e busco ganhar a vida.
Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei, companheiro?
Belzebu: Quer Zé Ninguém ganhar a vida.
e Tod’Imundo dinheiro.
Zé Ninguém: E agora que buscas lá?
Tod’Imundo: Honras e altos cargos.
Zé Ninguém: E eu trabalho,
que tope com ele já.
Belzebu: Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honras Tod’Imundo
e Zé Ninguém busca trabalho.
Zé Ninguém: Buscas outro mor bem qu’esse?
Tod’Imundo: Busco rendas garantidas
sem ter de fazer nada.
Zé Ninguém: E eu pagar a renda de casa.
Belzebu: Escreve mais.
Dinato: Que tens sabido?
Belzebu: Que quer em extremo grado
Tod’Imundo ter rendas,
e Zé Ninguém pagar a renda.
Tod’Imundo: E mais queria o paraíso,
sem mo Zé Ninguém estorvar.
Zé Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto não devo para isso.
Belzebu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei?
Belzebu: Escreve
que Tod’Imundo quer paraíso
e Zé Ninguém paga o que não deve.
Tod’Imundo: Folgo muito d’enganar,
e mentir nasceu comigo.
Zé Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar.
Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
Dinato: Quê?
Belzebu: Que Tod’Imundo é mentiroso,
E Zé Ninguém diz a verdade.
Zé Ninguém: Que mais buscas?
Tod’Imundo: Lisonjear.
Zé Ninguém: Eu sou todo desengano.
Belzebu: Escreve, ande lá, mano.
Dinato: Que me mandas assentar?
Belzebu: Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Tod’Imundo é lisonjeiro,
e Zé Ninguém desenganado.






Os poetas têm sempre razão.