Lembrando o óbvio: as consequências económicas de uma saída do euro

Excertos do artigo da autoria do colectivo Passa Palavra e retirado daqui:

«Seria bom que aquelas forças políticas ou simples personalidades que defendem a saída do euro indicassem claramente os custos desta opção. Em vez disso, indicam só as vantagens e dizem que a adopção de uma moeda independente permitiria desvalorizá-la e, portanto, tornar as exportações competitivas. De qualquer modo, a adopção do velho escudo em condições de default implicaria por si só uma considerável desvalorização monetária. Mas seriam as exportações beneficiadas?

Se observarmos o grau de intensidade tecnológica dos produtos industriais portugueses exportados no período de 2006 a 2010, verificamos que entre 35,7% (em 2006 e 2008) e 39,1% (em 2009) foram de baixa intensidade tecnológica, enquanto só entre 11,5% (em 2006) e 7,8% (em 2009) foram de alta intensidade tecnológica. Esta situação decorre da catastrófica baixa de produtividade da economia portuguesa. (…)

Sem serem capazes de aumentar a produtividade — em termos marxistas, de desenvolver a exploração da mais-valia relativa — os empresários portugueses obcecam-se com o outro termo da equação, os salários. Se a produtividade não aumenta, os salários têm de baixar. É esta a principal função das medidas impostas pela Troika.

O problema é que é esta igualmente a função da saída do euro defendida por tantos grupos e pessoas na esquerda e na extrema-esquerda. De uma penada, ficariam desvalorizados os depósitos bancários e as poupanças em geral, sem que esta medida atingisse os grandes capitalistas, com acesso a redes económicas e detentores de conhecimentos que lhes permitiram, desde há muito, pôr os capitais a salvo. As vítimas seriam apenas, por um lado, os pequenos e médios capitalistas, os donos de lojas e oficinas que, se não caíssem na falência, teriam de parar os investimentos e, portanto, reduzir ainda mais a produtividade. Por outro lado, a vítima seria o conjunto da classe trabalhadora, incluindo aquelas camadas de rendimentos médios que gostam de se intitular classe média. Ora, como é nestas camadas que se concentra a maioria dos trabalhadores mais qualificados, a crise económica neste sector mais ainda contribuiria para comprometer a produtividade.

Se o regresso ao escudo aumentasse o volume das exportações portuguesas, numa situação de declínio da produtividade aumentaria nessas exportações a concentração nos ramos de baixa intensidade tecnológica. Ora, para colocar no mercado mundial produtos de baixa tecnologia fabricados por uma mão-de-obra mal paga Portugal sofreria a concorrência de outros países, que fabricam esse tipo de bens melhor e com maior volume e graças a uma mão-de-obra mais miserável ainda. Nestas condições, a pressão seria para baixar ainda mais os salários dos trabalhadores portugueses. (…)

Há ainda a outra face da questão, que se esquecem de considerar os apologistas da saída da zona euro.

É que, se uma moeda desvalorizada torna mais baratas as exportações, encarece as importações. Ora, Portugal tem uma balança comercial deficitária, como não poderia deixar de acontecer num país que precisa de importar muito do que é consumido pelas pessoas e pelas empresas. Assim, tornar mais caros os artigos importados necessários ao consumo individual teria como consequência imediata a redução da capacidade de compra dos salários, ou seja, a diminuição dos salários reais. E tornar mais caros os artigos importados necessários ao consumo das empresas implicaria que elas investissem ainda menos na modernização tecnológica, ou seja, que a produtividade ficasse ainda mais comprometida.

Se a actual situação económica portuguesa é crítica, a saída do euro só a agravará» (negritos meus).

Ainda sobre o mesmo assunto:

Encruzilhadas da UE: via federal e democratização  do Miguel Serras Pereira

Nem alemães, nem portugueses do Zé Neves

A via nacional(ista) de saída do euro da minha autoria

O nacionalismo, a esquerda anticapitalista e o euro. Passa Palavra (4 partes de um artigo da minha autoria) http://passapalavra.info/?p=59652, http://passapalavra.info/?p=60016, http://passapalavra.info/?p=60577, http://passapalavra.info/?p=60891

Uma contraposição séria e argumentada pode ser encontrada no seguinte texto de Alexandre Abreu: Debater o Euro à esquerda. O aspecto que acho que Alexandre Abreu mais se equivoca (e que condiciona a restante abordagem) tem a ver com o conceito de nacionalismo utilizado. Nacionalistas não são apenas os que se afirmam como tal ou os que recorrem apenas a símbolos nacionais na sua manifestação política como as correntes mais à direita. O nacionalismo decorre fundamentalmente da visão da sociedade a partir de critérios nacionais, fundindo ou mascarando classes e clivagens num quadro orgânico e comunitário nacional. Ou para ser mais contundente, nacionalista é todo aquele que à esquerda avalia os antagonismos de classe e sua resolução dentro de um quadro nacional. É essa mistura de aspectos (mas em que a nação prevalece sobre a análise de classe) que mascara o nacionalismo à esquerda.

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49 respostas a Lembrando o óbvio: as consequências económicas de uma saída do euro

  1. Camarro diz:

    Gostei sobretudo da legenda da foto que compara o 13 de Maio com a Marcha Contra o Desemprego promovida pela CGTP. Muita giro… Vocês são uns cómicos!

    • João Valente Aguiar diz:

      Esse texto está citado no final deste post.

      • antónimo diz:

        a mim quando me falam à cabeça nos custos da saída do euro, mas se esquecem dos custos que já pagámos por estarmos no euro salta-me logo a pistola.

        • João Valente Aguiar diz:

          Como se fossem comparáveis e como se a saída do euro não fosse uma extensão ainda mais aprofundada das políticas actuais… Era bom que no mínimo as pessoas se preocupassem em discutir aspectos básicos e concretos de uma eventual saída do euro e colocassem de parte o histerismo e a frase feita.

          • Antónimo diz:

            cliché histérico, por cliché histérico esse de que amargaremos como cães se sairmos do euro tem tido um número muito mais esmagador de presenças no discurso publicado.

          • João Valente Aguiar diz:

            Cliché é a sua resposta que perante processos objectivos descritos nos diversos artigos citados neste post prefere despachar tudo assim de rompante…

          • Antónimo diz:

            Ca cena horrível que eu fiz, pá. e nem sequer tenho a desculpa de o post estar meio oculto no “ler o resto”.

          • João Valente Aguiar diz:

            Não critiquei nem emite qualquer juizo sobre esse comentário, apenas informei…

  2. Pedro Pinto diz:

    Filha da putice comparar a Marcha do Desemprego com uma ida a Fátima. Não há palavras. Não há.

    • João Valente Aguiar diz:

      Para dizer asneiras já teve palavras… E se se preocupasse mas é com o texto ou, pelo menos, com os excertos que coloquei aqui: os trechos que qualquer pessoa racional de esquerda deveria tomar como óbvio sobre a questão do euro. O resto é folclore…

  3. Rocha diz:

    E as consequências de se render ao capitalismo e à sua superestrutura imperialista da União Europeia-BCE-Euro, essas não há interesse em discuti-las no passaapalvra?

    Este texto publicado nestes dias de entrega do prémio Nobel à União Europeia, mostra também pelo momento da sua publicação uma grande prostração perante a grande burguesia europeia e a oligarquia financeira europeia, as grandes beneficárias destas teses tipo “there is no alternative” (TINA) – o inevitávelzinho no jargão neoliberal.

    Seria bom que aqueles que rendem aos próprios objectivos imediatos dos capitalistas europeus, indicassem os custos de continuarmos no euro.

    Aparte a questão da burguesia e a classe trabalhadora poderem coincidir em objectivos embora com consequências diferentes (exemplo: a esquerda abertzale quer um Estado socialista basco inpendente e a democracia-cristã basca quer um estado capitalista-austeritário independente), o que sobressaí neste discurso do pseudo-internacionalismo de esquerda é a mesma linguagem que os neoliberais num ponto: o recurso à chantagem.

    Não à inevitáveis e não há catástrofes entre estar ou sair do Euro. A única inevitável catástrofe é o esmagamento das condições de vida da classe trabalhadora por se continuar a viver em capitalismo. O que podemos discutir civilizadamente, portanto fora do âmbito da hipocrisia e do cinismo de quem faz recurso ao discurso da chantagem com os trabalhadores, é se a melhor maneira de derrubar o capitalismo é combatendo pela ruptura da União Europeia do Capital ou esperando de alguma forma que o processo de gigantesca transferência de riqueza para o centro da Europa e esmagamento económico e social (e cultural) pela austeridade leve a uma revolta de maiores proporções.

    • João Valente Aguiar diz:

      1 – Acho espantoso que as pessoas assumam que os que, de diversas formas, criticam a saída do euro sejam a favor da União Europeia…

      2 – Acho ainda mais espantoso que nunca se refiram aos aspectos concretos que uma saída do euro comportaria… Seria interessante que fizessem uma campanha nas ruas e nas fábricas explicando as consequências económicas e sociais que tal aventura comportaria…

      3 – É ainda mais espantoso que se ache que o quadro nacional serve para alguma coisa que não seja criar novas formas de opressão, não necessariamente menos capitalistas do que as actuais.

      • Rocha diz:

        Espantoso é que ainda não tenhas percebido que a maioria das forças que luta efectivamente pela ruptura do Euro, luta por uma Revolução Socialista.

        Uma parte dos partidos comunistas na Europa são os principais defensores da ruptura do Euro neste momento. E os únicos que verdadeiramente prosseguirão essa via se a oportunidade surgir antes da implosão total da economia dos países periféricos, ponto de ruptura que levará ao desmembramento do Euro seja como for.

        Espantoso é não perceber que a União Europeia como superstrutura imperialista e o Euro como sua coluna vertebral financeira são a principal máquina de esmagamento dos trabalhadores neste momento, o principal instrumento do capitalismo europeu.

        Espantoso é não perceber que União Europeia e Euro são indissociáveis.

        Espantoso é defender a manutenção do Euro e logo da União Europeia como espaço viável para construir uma sociedade socialista (? alternativa ao capitalismo?). Sob as directivas do BCE? Sob as directivas de Bruxelas e Berlim? Sob qual poder ou com qual poder? Por quem e para quem?

        Espantoso é querer conquistar o poder para esquerda em Berlim e em Bruxelas (a Merkel continua a ser campeã de popularidade, veja-se as sondagens), enquanto os trabalhadores dos países periféricos são triturados pela austeridade até não terem qualquer meio de subsistência? Ficar à espera de outros ou agir agora?

        E espantoso é mesmo colocando a possibilidade mesmo que por hipótese absurda que a actual fúria de protestos de rua dos trabalhadores do sul da Europa pudesse ser acompanhada pelos trabalhadores do centro e norte ricos da Europa, pensar como se conquistaria o poder em simultâneo: pelos parlamentos burgueses, por reformas dentro do capitalismo, por etapas e mais etapas de reformas no conjunto dos países (muitíssimo desiguais) da Europa?

        Espantoso é falar em catástrofe e inevitável perante o quadro negro em que vivemos os trabalhadores, pobres, precários, desempregados e até a pequeno-burguesia falida AGORA.

        • Rocha diz:

          O artigo parte do pressuposto totalmente errado de que a ruptura do Euro levará ao fascismo.

          A realidade é que o quadro actual, o salvamento do euro, já está a levar ao fascismo agora. E dada a demora em romper o Euro, é evidente que quando isso acontecer essas tendências só estarão mais fortes.

          Não só o Euro está a levar ao fascismo (veja-se como a repressão acontece no Estado Espanhol e na Grécia) como está a levar à guerra, que por gora se expressa em guerras nas vizinhanças da Europa mas pode chegar ao centro da Europa.

          É evidente que temos um quadro económico semelhante aos anos 30 e isso é sem dúvida devido ao desenvolvimento do binómio capital financeiro-imperialismo. Este quadro é causado pelo Euro e por todas as estruturas que lhe estão associadas UE, BCE, FMI e NATO. Isso leva a possibilidade de chegarmos a um quadro semelhante ao da Segunda Guerra Mundial: fascismo, guerra e destruição.

          A existir uma ruptura do Euro, pode ser demasiado tarde para evitar isto.No que toca ao racismo colonial e chauvinismo imperialista, eles já cá estão, assim como está a devastação económica e social dos anos 30.

        • João Valente Aguiar diz:

          Não respondeste a nada do que está nestes excertos que me parecem ser de mínimo bom senso para quem quer discutir questões sérias… Discutir questões objectivas apenas a partir da ideologia nunca dá bons resultados políticos…

          • Rocha diz:

            Números da sorte – A Grécia mantém-se no Euro – Vamos ver se nós também ganhamos esta “salvação”

            Uma lista incompleta de alegrias gregas:
            – Os dados oficiais falseados por baixo (pelo governo grego e pelo Eurostat) da queda do PIB, aumento da inflação e do desemprego.
            – De 2008 a 2012 o PIB da Grécia terá descido oficialmente 21,8% (-15,3 2008-11 Eurostat + 6,5% em 2012 segundo a previsão optimista do governo grego). A dimensão desta destruição económica é muito maior do que estes números mas decorre neste momento no Eurostat em coordenação com o governo grego uma “lavagem” das principais estatísticas económicas e sociais gregas.
            – Todo o peso desta queda do PIB foi colocado em cima dos já baixos salários da Grécia.
            – Durante a primeira metade deste ano o PIB da Grécia já estava a cair 6,2%.
            – O Desemprego oficial da Grécia situa-se em mais de 25% (25,1%) para o conjunto do trabalhadores e em mais de 50% (55,4%) para os jovens. A taxa real é ainda superior a estes números e nem sequer se menciona números da precariedade.
            – Oficialmente, 7% dos trabalhadores gregos trabalhavam em part-time em 2011. Os números reais de part-time, outras formas de precariedade e trabalho clandestino são muito superiores. Para os jovens mais de metade do emprego é precário.
            – Entre 2008 e 2011, a Inflação oficial grega situou-se num acumulado de 13,3%. Enquanto os salários caíam todos os anos a inflação subia e os números reais podem ser o dobro dos oficiais.
            – Cortes no salário mínimo de 22% e no salário mínimo dos jovens de 32%.
            – O IVA subiu pelo menos uma vez (já no tempo do Papandreu) de 19% para 21%. Todos os impostos sobre os combustíveis, álcool e tabaco subiram.
            – O IVA subiu de novo para 23% com o governo de Papademos.
            – Papandreu já tinha subido um imposto de propriedade (tipo IMI) que esperava arrecadar entre 2 e 3 mil milhões de euros. Uma despesa média de 1000 euros adicionais por casa segundo especialistas consultados pela imprensa.

            Em conclusão:
            Entre impostos, cortes salariais, despedimentos, redução de serviços públicos e outros roubos em nome da manutenção no Euro, os trabalhadores gregos perderam mais de metade dos seus salários, têm um nível desemprego completamente insuportável que alimenta a espiral descendente para a miséria transformando os salários em esmolas e estão com a perspectiva de morrer ou pela fome ou pelo suicídio.

            E este é o rumo daqueles que pretendem manter Portugal no Euro, assim como todos os outros países subjugados pela austeridade da Troika dentro da zona Euro. Queiram ou não esta é a realidade que acham menos grave do que a saída do Euro rompendo com estas imposições em nome do Euro e da Troika.

          • João Valente Aguiar diz:

            Mas desde quando é que achar que sair do euro é um erro equivale a defender as políticas criminosas da UE? Enfim, é o irracionalismo a fazer caminho…

          • Rocha diz:

            Desde quando defender a permanência do euro, exactamente nos termos em que é feito neste artigo, não é uma defesa do imobilismo?

            Toda uma a argumentação a dizer que não há alternativa e depois quer se ser alternativa dentro do euro com que argumentos? O argumento do mal menor (e isto é a falar a sério)? Afinal em que é que ficamos?

            Quanto a ficar no euro e cruzar os bracinhos à espera de eventuais revoltas no norte da Europa, o retrato da Grécia é este como bem sabes. É exactamente o que vai acontecer a Portugal, a Espanha, Irlanda e a Itália, daqui a um ano, ano e meio, daqui a alguns meses… é tudo uma questão de tempo mais mês menos mês.

          • João Valente Aguiar diz:

            «É exactamente o que vai acontecer a Portugal, a Espanha, Irlanda e a Itália, daqui a um ano, ano e meio, daqui a alguns meses… é tudo uma questão de tempo mais mês menos mês.»

            Se a crise se vai internacionalizar ainda mais e se as condições estruturais vão ser transversais a vários países europeus, esse é mais um motivo para se apostar na internacionalização das lutas e não para defender autarcias…

          • Rocha diz:

            “Se a crise se vai internacionalizar ainda mais e se as condições estruturais vão ser transversais a vários países europeus, esse é mais um motivo para se apostar na internacionalização das lutas e não para defender autarcias…”

            Ora, ora meu caro João, ainda bem que sais do armário dos subterfúgios pseudo-técnicos e das falácias em economês e finalmente discutes a questão por aquilo que ela é: uma questão política.

            A argumentação económica, mandas-la às malvas e a preocupação com a “catástrofe” da eventual saída do euro, passa para segundo plano quando começas a corar perante os números do que é ficar no euro que publiquei sobre a Grécia. Ainda bem que começas a ganhar algum bom senso.

            Deduzo então que o teu argumento mais honesto e sem subterfúgios seja que vale a pena sofrer a mesma devastação que continua a sofrer a Grécia até hoje em nome de causas maiores como a internacionalização das revoltas contra o abismo austeritário. Uma política de terra queimada então…

            Não vou contra argumentar neste caso, apenas registo a tua linha de pensamento.

            Saúdo a tua aproximação a uma linguagem sincera e frontal.

          • João Valente Aguiar diz:

            E desde quando é que a análise económica se desliga da luta política? Por outro lado, a saída do euro acarraterá consequências muitíssimos mais profundas do que as actuais, expandindo e piorando ainda mais a miséria que vivemos hoje. E quem defende a política de terra queimada sou eu… Enfim…

  4. Pois, a saída do euro deveria,e tinha,de ser negociada.
    Ela torna-se favorável se for incrementada a produção interna,aquela que foi sistemática e propositadamente destruída,não só na óptica das exportações (cada vez mais difíceis) mas,para o consumo interno,substituindo as importações.
    A distância enorme para a economia alemã,e com tendência para aumentar,torna o euro prejudicial ao desenvolvimento do país.

    mário

    • João Valente Aguiar diz:

      «Ela torna-se favorável se for incrementada a produção interna,aquela que foi sistemática e propositadamente destruída,não só na óptica das exportações (cada vez mais difíceis) mas,para o consumo interno,substituindo as importações».

      A questão é como você poderia aumentar essa produção interna precisamente com esse aparelho produtivo destruído? Claro que as políticas económicas da UE e do BCE foram destinadas para aumentar o desnível de produtividade entre as zonas mais desenvolvidas e as menos desenvolvidas da zona euro. Isso parece-me pacífico. O que está em causa é saber como se poderia reconstruir um aparelho produtivo em condições virtualmente impossíveis de o fazer a nível estritamente nacional.

  5. JP diz:

    Uma abordagem lúcida do grande desafio que se coloca hoje a Portugal.
    Por um lado a renegociação / reavaliação da dívida parece inevitável. Por outro lado a saída do euro (com todos os seus defeitos) seria catastrófica.
    Creio alias que foi esta a escolha que foi feita na Grécia nas ultimas eleições. Perante a chantagem os Gregos optaram por ficar no euro face à inevitável catástrofe que seria a saída do mesmo.

  6. Claro,não é fácil,mas possível,também por isso é um caminho aliciante.
    Retiraria,com os riscos inerentes,o estritamente nacional.

    mário

  7. anónimo diz:

    Reproduzo o meu comentário no vias de facto

    “Por mais lúcido que seja o alerta, a nossa continuação numa união europeia, comandada sobretudo pelos capitalistas do Norte e fortemente apoiada pela classe trabalhadora bem instalada nesses países e que não sente a crise, não nos dá grandes soluções dentro do actual sistema.

    Eu não simpatizo com o nacionalismo do PCP/KKE, mas acredito que é apenas numa situação “revolucionária” na qual o Sul da europa seja expulso do euro e da UE por incumprimento (coisa que a troika nunca deixaria acontecer em simultâneo, diga-se de passagem) que a súbita austeridade com que se confrontaria a classe trabalhadora que vive no Norte (para salvar a banca falida) poderia levá-la a uma viragem à esquerda, à imagem do que aconteceu na liberal e insuspeita Islândia.”

  8. FV diz:

    Proponho um possível cenário de saída do euro que minimizaria alguns dos problemas levantados: a saída em simultâneo de Portugal, Grécia, Espanha e Itália do Euro, formando uma nova moeda comum (ou várias com uma desvalorização combinada). Assim, a desvalorização da moeda não afectaria importações entre os países do sul da Europa, facilitando a substituição de importações e o incentivo ao aumento da produção nacional.
    Isto, claro, não tem probabilidade quase nenhuma de acontecer…

  9. Anonimo diz:

    A saída do Euro está longe de ser uma catástrofe.

    Catástrofe é o que se passa actualmente em Portugal.

    É bom que as pessoas percebam isso.

    PS: Qd a moeda se desvaloriza 20% a perda do poder de compra não é de 20%. Os 20% apenas se aplicam às importações.

    • Rocha diz:

      Caro anónimo, presumo ser o mesmo do comentário no vias de facto, esta discussão em economês chega a ser obscena quando aqueles que agitam com a chantagem de uma catástrofe com uma eventual saída do euro mostram total insensibilidade ou a mais completa cegueira perante os assaltos ao povo que estão a ser feitos pela manutenção na zona euro e em nome de salvar o euro.

      A actual catástrofe é o rumo de manter o euro.

      O empobrecimento e esmagamento dos trabalhadores e o povo estão a acontecer agora e a agravar-se cada vez mais. Os sinais que se passa de todos os limites já cá estão.

      Se não fosse tão trágico seria até cómico ver estes imbecis (que se dizem de esquerda) a falar em desvalorizações de salários, lucros e moeda quando metade dos trabalhadores está ou sem rendimentos ou vivendo à base de esmolas (desemprego, precariedade, salário mínimo, prestações sociais e ajudas de familiares).

      É certo que isso pode não ser suficiente para matá-los, é certo que sempre pode haver hipótese de revirar o lixo, pedir esmolas, comer na sopa dos pobres, prostituir-se, matar e roubar ou a preferida do nosso primeiro-ministro, emigrar.

      Mas estando eu já habituado a ver os nossos ministros do governo tratar-nos como atrasados mentais, já não esperava o mesmo de gente que se diz de esquerda.

  10. Edgar diz:

    A Grécia entrou no 6º ano de recessão e já perdeu entre 20 a 25% do PIB.
    O que o PCP tem proposto é que se renegoceie a dívida, nos prazos montantes e juros. Fez esta proposta desde o início e, hoje, como se vê, é cada vez mais evidente que parece não haver alternativa a tal negociação, quando antes de afirmava solenemente que não havia alternativa ao cumprimento integral do plano da troika.
    Este novo plano de austeridade é a fuga para a frente de um governo isolado, encurralado e desesperado, mas é um plano que nos pode conduzir a uma situação insustentável, se não for travado.
    Falar dos perigos da saída do euro sem conhecer todos os dados e os que podem resultar da renegociação é, na minha opinião, um simples exercício intelectual.
    A permanência deste governo pode criar uma tal situação que a saída do euro será o menor dos males e o que permitirá mais rápida recuperação, por outro lado, a negociação pode proporcionar uma saída apoiada sem provocar o terramoto anunciado no artigo.
    Uma coisa é certa, esta política é que representa o caminho certo para o desastre.

  11. rms diz:

    Realmente, João, sair do euro seria uma catástrofe para um país que está tão bem como o nosso. Lê os artigos produzidos pelo Partido em 1997. E podes continuar a passar pelo resistir.info. http://resistir.info/europa/fracasso_euro.html

    O euro nasceu torto à partida, uma moeda única tem de ter como pressuposto a existência de uma zona monetária óptima, que não existia. E diz a sabedoria popular, que ainda deves recordar, que o que nasce torto nunca se endireita.

    Foi um prazer, pela lá 500 escudos.

  12. antunes espanol diz:

    é tão simples.. o problema não é o euro, o escudo ou que quer que seja… o problema é o capitalismo e estes partidos de esquerda do PCP à Partido Socialista passando bloco de esquerda que são todos uns burgueses que não se declaram abertamente anti capitalistas porque têm medo não sei de quê… TRANSPARÊNCIA é o que o povo pede.

    e a marcha de fátima.. cof cof.. do desemprego é demasiado triste… Deus não existe e não irá criar trabalhos para vocês, há que tomar o poder, ocupar terras e trabalha-las, roubar supermercados e distribuir pelos mais desfavorecidos, ocupar os bancos os grandes culpados desta crise… etc…
    agora marchar sem qualquer acção, sem qualquer emoção, a chorar por um emprego melhor é demasiado ineficaz e demonstra a dependência deste gente de um governo de canalhas em vez de tomar o trabalho pelas suas próprias mãos!
    Há que também fazer exigências, o new deal nos estados unidos não passou por que de repente os políticos decidiram que o povo não devia passar fome, mas porque o povo fez uma lista de exigências e todos juntos, sindicatos, organizações de trabalhadores etc, se uniram numa greve e numa luta gigantesca para forçar o governo de Franklin Roosevelt a ceder às exigências do povo!

    http://www.publico.es/espana/440706/sindicalistas-se-llevan-alimentos-de-dos-super-en-andalucia-para-comedores-sociales
    anarquia y amor.!

  13. Justiniano diz:

    Boa, JVA!!!
    “2 – Acho ainda mais espantoso que nunca se refiram aos aspectos concretos que uma saída do euro comportaria… Seria interessante que fizessem uma campanha nas ruas e nas fábricas explicando as consequências económicas e sociais que tal aventura comportaria…”
    A conclusão óbvia, clara e evidente, é que se calem!!
    Só espero que não venhas outra vez pedir sol na eira e chuva no nabal!! Há, tal como referes, e bem, aos outros, que assumir tudo, tudinho!!

    • João Valente Aguiar diz:

      Isso é tresleitura sua Justiniano. Eu não mandei ninguém calar. Pelo contrário, um dos dramas dos nossos dias tem a ver com comentários que nunca discutem as questões concretas de uma saída do euro. Porque o mais curioso dos defensores de uma saída do euro é que se preocupam muito mais com a soberania política de um país absolutamente irrelevante do que com a luta contra a austeridade. Ou para ser mais rigoroso, encarreiram a luta contra a austeridade num plano territorial e nacional, secundarizando os aspectos socioeconómicos.

      • Justiniano diz:

        Quem mandou calar foram os princípios da coerencia, da pertinencia e da reserva do efeito útil, meu caro JVA!! Já discutimos este assunto à exaustão!!
        Ainda havemos de o ouvir pedir, em honra da salvação das almas e do euro em Portugal, que o Governo Português lançe um imposto, em euros, sobre todos os estrangeiros a viver no estrangeiro!!
        De que se queixa, então!!??

  14. Dédé diz:

    Com o Euro, sem divórcio, até que a morte nos una.

  15. nf diz:

    Lendo o texto original, ainda que por alto, e esta nota, encontro 3 problemas no argumento apresentado contra a saída do euro.

    1- «Portugal pode sair do euro por dois motivos». Muitos dos defensores da saída do euro por parte das economias periféricas pensam que o “pode sair” é, mais cedo ou mais tarde, um inevitável “sairá”. Esta posição assenta numa posição crítica, e bem sustentada, relativamente ao euro e, por atacado, ao projecto europeu (admito que talvez não seja o caso em Portugal). Aliás, basta sair do campo da euroideologia para encontrar muitos economistas, tanto à esquerda como à direita (muitos destes colegas “naturais” de V. Gaspar), que consideram o euro inviável e a dívida dos países do sul impossível de pagar. Para estes, a questão não é a permanência no euro, mas o como e o quando da saída das economias mais fracas. Claro que estamos ainda no universo do “pode sair” e que a desintegração da zona euro é um cenário provável, por isso discutível. Mas estar contra a saída do euro sem discutir a viabilidade deste a médio prazo passa ao lado de um dos argumentos mais fortes da posição pró-saída.

    2- Por outro lado o texto referido aponta vários cenários económicos, sociais e políticos que dá como certos, caso Portugal abandonásse o euro. Para além do tom oracular que, obviamente, é tão discutível como a inevitável desintegração do euro, passa a ideia que a saída da moeda única fragilizaria a economia portuguesa de tal modo que os níveis de probreza das classes trabalhadoras e a radicalização, à direita, da via “nacional(ista)” empurrariam o país para a miséria e o caos. A verdade é que o processo de “reajustamento” das economias periféricas dentro do euro ainda agora começou e o que se anuncia aproxima-se, cada vez mais, de uma glosa intraeuro daquilo que era suposto ser a catástrofe se Portugal saísse da moeda única. Uma coisa é certa: empobrecimento generalizado da população, desmantelamento do estado social, ressurgimento dos nacionalismos mais desprezíveis, pulverização do sistema de representação parlamentar, são tudo coisas que podem acontecer a países membros do euro (cf Grécia). Até quando pode este argumento valer?

    3- Por último, este post remete-nos para o «óbvio» que é apresentado, no texto referido, como mais ou menos evidente. Ora, perante um presente de crise profunda e internacional, projectar um futuro como «óbvio» soa a ideologia (que o texto pretende combater). Se o texto nos apresenta verdades supostamente incontornáveis, talvez o projecto da esquerda seja também pensar naquilo que é possível, ainda que menos óbvio. Por exemplo, será legítimo considerar que a saída de Portugal (ou outro país) do euro seria verdadeiramente “nacional”, por mais nacionalista que fosse? E o que seria do euro e do “projecto europeu” se um país resolvesse sair unilateralmente da moeda única?

    • miguel serras pereira diz:

      nf,
      embora discordando em vários pontos do que afirma, não posso deixar de aplaudir o tom e a racionalidade deste seu comentário, contrastando com as acusações e chavões que, em vez de discutirem a questão de fundo levantada pelo artigo que o JVA cita, preferem exorcizar no próprio espíito, tanto como nos alheios, tudo o que cheire a heresia.
      Parece-me que V. exagera quando atribui um certo culto da inelutabilidade ou da presciência ao texto do Passa Palavra. Quem não compreende que aquilo que foi, é ou será, poderia não ter sido ou ser de outra maneira, não ser ou ser diferente, não vir a ser ou ser outra coisa, está condenado a representar-se a história e a sua própria acção como a pescada, que antes de o ser já o era, ao mesmo tempo que esvazia de conteúdo a dimensão do fazer ser que distingue a política.
      Ressalvando que lidamos aqui, por um lado, com o provável, e, por outro, à luz dos propósitos ou projectos políticos de cada um, não posso deixar de retomar aqui, esquematicamente, as razões de fundo que me levam a dar, em muitos aspectos – e decisivos – razão aos autores do texto do Passa Palavra. São razões que já enunciei em resposta ao post do Alexandre Abreu, nos Ladrões de Bicicletas, e a outro, do meu camarada do Vias, Pedro Viana ( http://viasfacto.blogspot.pt/2012/10/sejamos-claros.html ). E passo a citar: “a situação e as relações de força sociais e políticas na UE não são inalteráveis, e a minha aposta é mais na exportação do conflito do que no isolacionismo que, tudo leva a crer, agravaria a dependência social e política da maioria dos cidadãos comuns da região portuguesa, complementada pela evolução do regime, a coberto da emergência e da “salvação nacional”, no sentido de um “Estado mais forte”, militarizado e autoritário. Acresce que as pressões contextuais que hoje se fazem aqui sentir só tenderiam a aumentar e a tornar-se mais difíceis de combater, porque a saída do euro não criaria o muralha de vazio à volta do país”. – e, menos ainda, o tornaria mais próximo do centro do mundo.

      Cordiais saudações democráticas

      msp

      • nf diz:

        Caro msp,

        Antes de mais uma ressalva: eu não defendo a saída de Portugal do euro, julgo que por razões próximas daquelas referidas no texto citado (em si, sair do euro não é uma medida de esquerda; no quadro geopolítico actual e com uma economia tão débil como a portuguesa não vejo como o país possa menter o pouco de soberania que lhe resta; no curto prazo, a saída seria um desastre para a grande maioria dos portugueses)

        Mas há argumentos do outro lado que vão para além do salto de fé, puramente ideológico, que, como que por magia, promete o paraíso na terra garantido pelo regresso à moeda nacional. Estas são posições que se fundamentam na critíca à arquitectura da UE e sustentibilidade do euro. O texto referido parece passar ao lado daquilo que é mais substantivo na argumentação a favor da saída.

        Claro que discutir política é também debater cenários possíveis e os futuros políticos que aí se potenciam. O comentário queria precisamente confrontar cenários e realidade. Mas o “inevitável” do pró-saída da moeda única ̶ mais cedo ou mais tarde, sairemos ̶ de certa forma esvazia o “óbvio” pós-saída avançado no texto (aqui o desafio será: se vamos sair, como combater os perigos mais evidentes?). Estarão os autores do texto dispostos a pensar também no que é obvio na manutenção do euro e na permanência de Port. neste?

        Parece-me também que muito daquilo que é descrito como consequências inevitáveis de uma saída unilateral do euro é infelizmente cada vez mais o futuro que se avizinha dentro da moeda única (e digo-o contra a minha posição). Chegará a altura em que os cenários catastróficos de abandono do euro não valerão um pataco…

        • miguel serras pereira diz:

          Caro nf,

          inteiramente de acordo com quase tudo o que diz – embora ache que há também aspectos políticos importantes a ter em conta quando se considera a questão europeia, por um lado, e, por outro, me continue a parecer que V. exagera ao atribuir uma espécie de necessarismo ao texto do Passa Palavra.
          Mas, quanto ao que diz sobre a arquitectura da UE e a sustentabilidade do euro (comprometida sem integração orçamental, fiscal e “constitucional”), o meu acordo é substantivo.
          O problema, do meu ponto de vista, é que, apesar de tudo, travar a luta pela democratização (das relações de poder e do exercício do poder político, assuma-se este como tal, ou mascare-se de autonomia sistémica da economia) é mais prometedor através do que chamo a “exportação do condlito” do que do isolacionismo independentista: a independência em termos sociais conquista-se contra a oligarquia e as instituições da sua economia política governante, e não através da soberania nacional. É, por isso, que a grande maioria dos cidadãos da região portuguesa podem ser mais dependentes (em termos de relações de poder) com mais soberania, ao passo que é possível que a democratização, como a que sugiro que lhes asseguraria a independência e a maioridade sociais e políticas que contam, passe por um federalismo europeu, que se torne capaz de pesar globalmente num sentido contrário às actuais orientações da UE (e voltamos ao princípio: esta mudança de orientação passa por movimentos de democratização que minem o absolutismo cada vez mais afirmado do actual regime oligárquico).

          Serão assim tão distantes as nossas posições?

          msp

          • João Valente Aguiar diz:

            «travar a luta pela democratização (das relações de poder e do exercício do poder político, assuma-se este como tal, ou mascare-se de autonomia sistémica da economia) é mais prometedor através do que chamo a “exportação do condlito” do que do isolacionismo independentista: a independência em termos sociais conquista-se contra a oligarquia e as instituições da sua economia política governante, e não através da soberania nacional»

            Absolutamente de acordo. As chamadas tarefas nacionais ocorrem no plano estritamente ideológico (o que distorce a própria acção económica) ao passo que o caminho que apontas é precisamente inverso: o de concentrarmos a luta política nas relações sociais. De facto, não há soberania nenhuma, mas o que aconteceria seria uma hierarquização ainda mais brutal porque ancorada quase apenas nos princípios da mais-valia absoluta. Se neste momento as medidas da troika já são profundamente degradantes e aviltantes nesse sentido, num sentido de isolamento económico e de uma implosão económica, as coisas funcionariam ainda pior… Os que defendem a saída do euro esquecem-se que o caminho que seguiriam seria um prolongamento e um aprofundamento dos mesmos mecanismos económicos. E pior de tudo pensam que iriam instaurar uma sociedade socialista, quando mais não fariam do que instaurar uma modalidade de capitalismo estatizada, absolutamente empobrecida e sem qualquer controlo da população sobre a vida social e sobre os meios de produção. Se não querem discutir ou sequer aflorar os mecanismos económicos que estão hoje em cima da mesa e que têm sido expostos por vários autores (vd. artigos citados no post), como poderão compreender que o seu modo de funcionamento político e o projecto que preconizam não se distingue do caso soviético onde a reconversão das instâncias conselhistas de base em novas hierarquias dos gestores únicos das empresas nomeados pelo estado/partido, e a ulterior formação de boa parte dos novos capitalistas russos pós-URSS provenientes dos sindicatos soviéticos e do antigo PCUS? Os defensores da soberania nacional veiculam sempre a formação de sociedades mais hierarquizadas e assentes em modalidades brutais da exploração da força de trabalho…

            Abraço

          • nf diz:

            Só mais um reparo:

            Erradamente, fiz uma referência à soberania nacional como se fosse um dos motivos pelos quais não defendo a saída do euro. Para que fique claro, a meu ver qualquer solução política de esquerda não passa de forma alguma pela afirmação da via nacional. Bem pelo contrário. Queria apenas apontar a fantasia que é considerar que um país com a escala de Portugal reconquista a sua soberania assumindo unilateralmente autonomia fiscal e monetária.
            Parece-me contudo que a posição do Passa Palavra incorre numa simplificação. Pensar que a via “nacionalista” origina nacionalismos e que a via “europeísta” internacionalismos ou transnacionalismos é identificar a forma dos regimes instituídos com movimentos políticos ou sociais. Posição pouco dialéctica e, diria eu, próxima de uma leitura liberal dos acontecimentos.Nem a europa é garante do internacionalismo que há-de vir, nem as nações são necessariamente o ninho dos nacionalismos mais radicais.

            Basta verificar o que se passa neste momento na Europa. Por um lado, o que não falta é um ressurgimento do nacionalismo dentro da UE, onde os nacionalismos da direita mais radical se alimenta precisamente da ameaça da “Europa”. Sem a “Europa”, muitos sairiam de cena. Por outro lado, um dos aspectos mais confrangedores da esquerda europeia é a sua falta de articulação e coordenação transnacional. A própria esquerda, nos seus mais variados quadrantes, parece fragmentada em países ou regiões. Posso estar enganado, mas não vislumbro nenhuma resposta internacional ao saque que está a acontecer.

    • João Valente Aguiar diz:

      1- vc responde à primeira questão como se a economia não fosse imune à ideologia. Ora, mesmo sectores da burguesia acham que os seus países deveriam abandonar o euro, o que também teria consequências económicas no seu bolso. Portanto, a ideologia permeia mesmo uma classe que, para nossa desgraça, costuma ser bastante racional na generalidade das suas acções.

      2- Seria interessante que se discutisse os aspectos concretos de uma saída do euro. Se há mérito no texto que cito reside na capacidade de ter levantado os problemas relativos à relação entre as importações, as exportações, o aparelho produtivo e os índices de produtividade de um modo não apenas legível como perfeitamente aberto à discussão, independentemente da posição de cada um. Essa ausência de debate é um dos piores sintomas da penetração do irracionalismo em boa parte da esquerda que se afirma anticapitalista. Em relação à abordagem encontro três tipos. Por ordem decrescente de quem vai comentando o assunto. Há os que gostam de ser “tangueiros” e acham que com piadolas e insinuações (mesmo que, bem ou mal, nunca tenham escrito nada sobre aspectos socioeconómicos do capitalismo) conseguem despachar um assunto extremamente sério como este. Há os que como você apresentam as suas opiniões de modo cordato e que procuram o debate. E espero que também haja quem queira discutir as reais consequências de uma saída do euro (não as vou enumerar pois tanto aparecem nos excertos que citei, como nos artigos que linkei).

  16. nf diz:

    Caro msp,

    Antes de mais uma ressalva: eu não defendo a saída de Portugal do euro, julgo que por razões próximas daquelas referidas no texto citado (em si, sair do euro não é uma medida de esquerda; no quadro geopolítico actual e com uma economia tão débil como a portuguesa não vejo como o país possa menter o pouco de soberania que lhe resta; no curto prazo, a saída seria um desastre para a grande maioria dos portugueses)

    Mas há argumentos do outro lado que vão para além do salto de fé, puramente ideológico, que, como que por magia, promete o paraíso na terra garantido pelo regresso à moeda nacional. Estas são posições que se fundamentam na critíca à arquitectura da UE e sustentibilidade do euro. O texto referido parece passar ao lado daquilo que é mais substantivo na argumentação a favor da saída.

    Claro que discutir política é também debater cenários possíveis e os futuros políticos que aí se potenciam. O comentário queria precisamente confrontar cenários e realidade. Mas o “inevitável” do pró-saída da moeda única ̶ mais cedo ou mais tarde, sairemos ̶ de certa forma esvazia o “óbvio” pós-saída avançado no texto (aqui o desafio será: se vamos sair, como combater os perigos mais evidentes?). Estarão os autores do texto dispostos a pensar também no que é obvio na manutenção do euro e na permanência de Port. neste?

    Parece-me também que muito daquilo que é descrito como consequências inevitáveis de uma saída unilateral do euro é infelizmente cada vez mais o futuro que se avizinha permanecendo nele (e digo-o contra a minha posição). Chegará a altura em que os cenários catastróficos de abandono do euro não valerão um pataco…

  17. Mário J. Heleno diz:

    Um exemplo de questão concreta na saída do Euro: A imposição transitória de limitações ao movimento de capitais .

    Mas como é que tal coisa teria o mínimo de eficácia, quando entre o assumir colectivo da opção de saída do euro ( por via eleitoral? outra?…) e o empossamento de um governo que a implementasse decorreriam pelo menos algumas semanas, enquanto que qualquer capitalista transfere para o estrangeiro os capitais em poucas horas ou dias?

  18. BB diz:

    O economista que previu a crise financeira mundial deixa o aviso: Os países da periferia da zona euro vão ter de abandonar a moeda única.

    Num artigo de opinião publicado no Financial Times com o título “A zona euro encaminha-se para a separação”, o profeta da desgraça, como é conhecido, afirma que a actual crise das dívidas soberanas mostra tudo o que falhou na construção da União Monetária e no projecto da convergência.

    Para o economista, nesta altura, só existe uma forma de recuperar a competitividade nos países do Sul da Europa: “Para regressarem ao crescimento e à competitividade, [os periféricos] devem deixar o euro e regressar à moeda nacional”, alerta o responsável.

    Roubini considera mesmo que, face às diferenças económicas, de políticas orçamentais, de taxas de câmbio reais e de competitividade no seio da Zona Euro, não restará outra alternativa aos países da periferia.

    “Este cenário parece inconcebível nos dias que correm mesmo em Atenas ou Lisboa. Mas devido à inexistência de reformas estruturais profundas e aceleradas que compenssem essas diferenças, os cenários que hoje parecem absurdos poderão fazer todo o sentido daqui a cinco anos”, esclarece o professor da universidade de Nova Iorque.

    E conclui: “Os benefícios de [os países] se manterem [na zona euro] serão menores do que os benefícios de a abandonar, por muito atribulada e desordenada que essa saída venha a ser”.

    • João Valente Aguiar diz:

      Eu gostava mas era de ver uma apresentação dos processos concretos dessa abençoada saída e não meras declarações de princípios…
      Eu bem que prefiro ler o que os gestores e a burguesia realmente pensam em vez das estrelas mediáticas, por muito sapientes que possam ser (ou parecer). Por isso recomendo a todos os leitores o seguinte estudo da Bertelsmann Foundation: http://www.bertelsmann-stiftung.de/cps/rde/xchg/bst_engl/hs.xsl/nachrichten_113793.htm
      Pode ser que confrontados com factos e com processos reais comecem a reflectir seriamente no que está realmente em causa…

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