Lembrando o óbvio: as consequências económicas de uma saída do euro

Excertos do artigo da autoria do colectivo Passa Palavra e retirado daqui:

«Seria bom que aquelas forças políticas ou simples personalidades que defendem a saída do euro indicassem claramente os custos desta opção. Em vez disso, indicam só as vantagens e dizem que a adopção de uma moeda independente permitiria desvalorizá-la e, portanto, tornar as exportações competitivas. De qualquer modo, a adopção do velho escudo em condições de default implicaria por si só uma considerável desvalorização monetária. Mas seriam as exportações beneficiadas?

Se observarmos o grau de intensidade tecnológica dos produtos industriais portugueses exportados no período de 2006 a 2010, verificamos que entre 35,7% (em 2006 e 2008) e 39,1% (em 2009) foram de baixa intensidade tecnológica, enquanto só entre 11,5% (em 2006) e 7,8% (em 2009) foram de alta intensidade tecnológica. Esta situação decorre da catastrófica baixa de produtividade da economia portuguesa. (…)

Sem serem capazes de aumentar a produtividade — em termos marxistas, de desenvolver a exploração da mais-valia relativa — os empresários portugueses obcecam-se com o outro termo da equação, os salários. Se a produtividade não aumenta, os salários têm de baixar. É esta a principal função das medidas impostas pela Troika.

O problema é que é esta igualmente a função da saída do euro defendida por tantos grupos e pessoas na esquerda e na extrema-esquerda. De uma penada, ficariam desvalorizados os depósitos bancários e as poupanças em geral, sem que esta medida atingisse os grandes capitalistas, com acesso a redes económicas e detentores de conhecimentos que lhes permitiram, desde há muito, pôr os capitais a salvo. As vítimas seriam apenas, por um lado, os pequenos e médios capitalistas, os donos de lojas e oficinas que, se não caíssem na falência, teriam de parar os investimentos e, portanto, reduzir ainda mais a produtividade. Por outro lado, a vítima seria o conjunto da classe trabalhadora, incluindo aquelas camadas de rendimentos médios que gostam de se intitular classe média. Ora, como é nestas camadas que se concentra a maioria dos trabalhadores mais qualificados, a crise económica neste sector mais ainda contribuiria para comprometer a produtividade.

Se o regresso ao escudo aumentasse o volume das exportações portuguesas, numa situação de declínio da produtividade aumentaria nessas exportações a concentração nos ramos de baixa intensidade tecnológica. Ora, para colocar no mercado mundial produtos de baixa tecnologia fabricados por uma mão-de-obra mal paga Portugal sofreria a concorrência de outros países, que fabricam esse tipo de bens melhor e com maior volume e graças a uma mão-de-obra mais miserável ainda. Nestas condições, a pressão seria para baixar ainda mais os salários dos trabalhadores portugueses. (…)

Há ainda a outra face da questão, que se esquecem de considerar os apologistas da saída da zona euro.

É que, se uma moeda desvalorizada torna mais baratas as exportações, encarece as importações. Ora, Portugal tem uma balança comercial deficitária, como não poderia deixar de acontecer num país que precisa de importar muito do que é consumido pelas pessoas e pelas empresas. Assim, tornar mais caros os artigos importados necessários ao consumo individual teria como consequência imediata a redução da capacidade de compra dos salários, ou seja, a diminuição dos salários reais. E tornar mais caros os artigos importados necessários ao consumo das empresas implicaria que elas investissem ainda menos na modernização tecnológica, ou seja, que a produtividade ficasse ainda mais comprometida.

Se a actual situação económica portuguesa é crítica, a saída do euro só a agravará» (negritos meus).

Ainda sobre o mesmo assunto:

Encruzilhadas da UE: via federal e democratização  do Miguel Serras Pereira

Nem alemães, nem portugueses do Zé Neves

A via nacional(ista) de saída do euro da minha autoria

O nacionalismo, a esquerda anticapitalista e o euro. Passa Palavra (4 partes de um artigo da minha autoria) http://passapalavra.info/?p=59652, http://passapalavra.info/?p=60016, http://passapalavra.info/?p=60577, http://passapalavra.info/?p=60891

Uma contraposição séria e argumentada pode ser encontrada no seguinte texto de Alexandre Abreu: Debater o Euro à esquerda. O aspecto que acho que Alexandre Abreu mais se equivoca (e que condiciona a restante abordagem) tem a ver com o conceito de nacionalismo utilizado. Nacionalistas não são apenas os que se afirmam como tal ou os que recorrem apenas a símbolos nacionais na sua manifestação política como as correntes mais à direita. O nacionalismo decorre fundamentalmente da visão da sociedade a partir de critérios nacionais, fundindo ou mascarando classes e clivagens num quadro orgânico e comunitário nacional. Ou para ser mais contundente, nacionalista é todo aquele que à esquerda avalia os antagonismos de classe e sua resolução dentro de um quadro nacional. É essa mistura de aspectos (mas em que a nação prevalece sobre a análise de classe) que mascara o nacionalismo à esquerda.

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