Política e moral

Nas eleições regionais dos Açores o candidato do arco do poder que se sente mais longe da vitória anunciou que criaria 15 mil novos empregos se vencesse as eleições, numa frase que reedita o célebre cartaz de Sócrates a anunciar 150 mil novos empregos. Como é óbvio para a maioria dos cidadãos, se pensarmos na esfera de competência de um governo regional ou na política que está a ser desenvolvida pelo governo central, não temos qualquer dúvida que este soundbyte é uma farsa e que, não havendo uma ruptura política, daqui a quatro anos haverá mais desemprego nos Açores.
Em período eleitoral, os candidatos do arco do poder têm radicalizado o seu discurso com promessas que estão longe de pensar cumprir. Durante as campanhas somos assoberbados por conclusões ao sabor do que o eleitor quer ler e não do programa político que se preparam para cumprir.
Chegados ao poder muda-se o diapasão. Do alto de um discurso pontuado pelo termo “responsabilidade”, as opções políticas desaparecem para dar lugar às inevitabilidades. As políticas fundamentais decorrem de acções passadas ou de imposições externas. O candidato corajoso cheio de certezas políticas veste a pele do governante cauteloso sem poder de decisão. Quando confrontado com o seu discurso eleitoral, não hesita em colocar a decisão política no plano moral. De tez carregada, o mesmo governante que em período eleitoral prometeu não retirar os subsídios de férias ou aumentar os impostos sobre o trabalho e que legisla em prejuízo de quem fez descontos ao longo de décadas na expectativa de uma determinada reforma, declara que “não podemos ser caloteiros” para anunciar como inevitável o pagamento de uma dívida a quem especula. Isto já não é fazer política. É imoral.

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