CONVITE – Testemunhos Cercados Pelo Orçamento: Pedro Nemrod

Porque a austeridade não vê género, nem orientação sexual. Fode todxs por igual.

Antes de avançar no tema, convém esclarecer o que é o tema. Para quem não está familiarizadx com o tema, LGBT é a abreviatura de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros. É uma definição lata que tenta englobar uma população de pessoas que demonstra, sente, pensa a sua sexualidade e o seu género de uma forma diferente da socialmente veiculada, que dita que a sexualidade deve ser vivida entre pessoas de géneros diferentes (heterossexualidade) e só existem dois géneros imutáveis (normas de género).

A Austeridade é aquele conjunto de politicas que visa combater uma inflação inexistente, ou é a forma de roubar dinheiro e direitos a uma população para alimentar bancos e financeiras, ou é como cada vez temos menos dinheiro enquanto um grupo extremamente reduzido de gente aumenta de forma obscena os seus lucros abusivos. É uma forma de aumentar a disparidade económica e política, já existente.

Darwinismo Social é uma ideologia que algures na década de 1870, que aplica alguns conceitos da Teoria da Evolução à política, economia e sociologia. É a base de ideias tão “brilhantes” como o racismo científico, o imperialismo, o fascismo, o nazismo e a eugenia. É nos transmitido de vários formas ainda hoje em dia, sendo a mais comum e mais socialmente aceite, com o apoio incondicionado e incontestado a quem tem sucesso.

Temos então duas ideias (Austeridade e Darwinismo Social) a promover que quem já tem dinheiro e poder, deve ter ainda mais e quem não tem deve ter cada vez menos. Ambas explicam que a ideia de Estado Social (um estado que apoia quem menos tem, e consequentemente mais precisa) é no fundo um sistema de apoio a dependentes, parasitários que vivem à conta de quem trabalha. E, como frequentemente nos é endotrinado por João César das Neves, estas sanguessugas sociais devem ser entregues à igreja católica, pois sem pobrezinhos a igreja serve para nada. Estas duas ideias falam do muito do imediato e nada do futuro. Parece muito giro e divertido dar palmadinhas nas costas e elogiar quem ganha algo. Sem dúvida que são práticas saudáveis, mas estas teorias não se ficam por aqui. Elas indicam que para quem ganha vai tudo, e sem dizerem, que para quem nada tem, nada ganha, esperando com muita força que tenham a delicadeza e bom senso de não protestar e tranquilamente emigrarem (para onde?) ou morrerem,

Seguindo a lógica histórica a população LGBT, juntamente com outras minorias, é uma população frequentemente atacada e marginalizada dentro dos contextos de perseguição social. É o ataque axs indesejáveis ou axs invisíveis. Aquelas pessoas que não interessam, não têm redes de apoio fora dos seus guetos, ninguém conhece e ninguém se importa. É muito fácil atacar de forma repetida estas pessoas e a história está pejada de exemplos.
Então o que se passa com a população LGBT? Já existem leis a discriminar? Sempre existiram! A adoção é o melhor exemplo, nós não podemos adotar porque supostamente somos incapazes, como pansexual (atracão, desejo, romantismo por pessoas em vez de géneros) isto confunde-me. Se estiver numa relação com uma mulher posso procriar e adotar, se tiver numa relação com alguém de outro género de repente tornei-me incapaz de criar crianças????? Aparentemente a minha habilidade de criar crianças depende do género de quem está numa relação comigo… A questão de homens que têm sexo com homens continuarem a ser impedidos de dar sangue é outra prática muito fofa… Mas e novas discriminações? Já se fazem casamentos gays e lésbicos… Já aqui volto.

Claramente está criado uma espécie de jogo do elo mais fraco à escala global. Quem ganha faz dinheiro, quem perde se tiver honra suicida-se. Se não tiver honra é porque tem a indecência de querer viver à custa dxs outrxs… Portanto ataque-se os grupos mais fracos. E esse ataque já começou, claramente ao grupo mais vulnerável, menos visível e mais indesejada, T. Após um processo psicológico de anos, para garantir que as pessoas são mentalmente sãs (caso único na psiquiatria e psicologia) as pessoas transgénero passaram a ter que pagar mais para concluírem o seu processo de alteração de sexo. Portanto uma população que tem quase todas as portas de trabalho fechadas passa a ter que despender mais dinheiro, que não tem e não tem uma dificuldade gigantesca para obter… Pensem um bocadinho, o João manda o CV como Manuel, assim que chega à entrevista é um mentiroso óbvio… Agora a Manuela manda o CV como Carlos, chega à entrevista e “o Carlos” está vestido de mulher, maquiado, etc… Lá se vai a ideia de premiar a competência, porque a competência só surge em quem se conforma com as regras sociais… Regras sociais que são determinadas pelas pessoas que estão no poder que gostam que as pessoas que vão ter sucesso em seguida, sejam parecidas com as que já estão no poder.

Para o resto da população LGB o cenário está diferente. Estará? Já foi legalizado o casamento, que é a maior conquista segundo muita gente do meio ativista LGBT. Não é para mim. A maior conquista foi a visibilidade conseguida, em boa parte, através do debate em torno do casamento. Para quem já tem mais de 25 ou 30 anos nota-se (pelo menos nas maiores metrópoles) que o número de pessoas LGBT fora do armário é crescente e é já um cliché dizer que “Eu até tenho um amigo gay” ou “Eu até tenho uma amiga lésbica”. Essa visibilidade traz alguma força e em algumas áreas existem várias pessoas visivelmente assumidas, mas que raramente se atrevem a trocar afetos e carícias em publico. Ou seja essa visibilidade é algo cinzenta. Se em determinados meios se aceita que as pessoas até tenham a cara fora do armário, na maioria nem por isso. Polícias gays? Secretárias lésbicas? Administrativas bissexuais? Pouca gente fora do armário… E se há uma coisa que a história nos ensina é que após a eliminação dos primeiros grupos discriminados, se descobrem rapidamente outras minorias para atacar. E se ainda não foram criadas mais leis discriminatórias, no geral a distinção económica tende a agravar-se. Como qualquer outra pessoa quem tem menos dinheiro e menos poder está a ficar com cada vez menos poder e menos dinheiro. E como se pode observar na Grécia a discriminação e o ódio às minorias começa por baixo. São as pessoas pobres, operárixs, empregadxs de hotelaria, empregadxs de loja, caixas de supermercado, todas as pessoas que “ganham” o salário mínimo quem mais sofre e a nossa sociedade de classe média pouco se importa com quem espezinha.”

Pedro Nemrod, via mural da Concentração: “Cerca o Parlamento, Este Não é o Nosso Orçamento”.

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