CONVITE – Testemunhos Cercados Pelo Orçamento: Clara Cuéllar

“Quando era pequena, os meus pais sempre me disseram que podia fazer o que quisesse com a minha vida. O resultado foi que sonhei ser desde taxista até astronauta. Fiquei-me pela Tradução.

Ao chegar à vida universitária, apercebi-me que os sonhos não dependem só de quem os tem. Há condicionantes que podem até impossibilitar a sua concretização: alimentação, deslocação, casa, livros, propinas. Cada um destes factores exige uma fonte de rendimento, o que me obrigou a optar pela vida de trabalhadora-estudante.

Apesar de já não ser o meu caso, quem trabalha e estuda terá de aumentar a sua carga horária de trabalho, para compensar o “enorme aumento de impostos”. Daqui se pode concluir que, ou se estuda menos, ou se deixa de estudar.

O facto de haver cada vez mais estudantes a optar por esta via, leva a que os seus níveis de aproveitamento sejam, naturalmente, abaixo do que poderiam ser, ou mesmo nulos, para quem se vê obrigado a desistir definitivamente. Este abandono não tem um impacto apenas a nível do indivíduo, mas também a nível da sociedade em geral, uma vez que esta se tornará gradualmente menos instruída e com uma menor capacidade de avaliar criticamente as situações. A educação caminha para estar apenas disponível para uma pequena parte da sociedade, o que acaba por fomentar a diferença de classes.

Considerando que a educação é a base do pensamento humano e da sua atitude perante o mundo, se a educação diminui, o pensamento e a acção humanos terão menos saberes e menos por onde se movimentar.

Apesar das causas do agravamento fiscal serem económicas, os seus efeitos transcendem este campo e chegam à área humana, forçando-a a estagnar ou a regredir. Um governo que impõe este agravamento, hipoteca os sonhos da sociedade. Uma sociedade nestes moldes é, por consequência, menos livre.

Não podemos aceitar um orçamento cujo objectivo é empobrecer massivamente, não podemos permitir políticas que optem por um caminho que é contra a própria natureza do ser humano. Temos de recusar, temos de vetar este orçamento. Temos de suspender este governo. Por isso, dia 15 estarei lá. Dizer NÃO. Não aceito ser menos livre.”

Clara Cuéllar, no mural da Concentração “Cerco ao Parlamento, Este Não é o Nosso Orçamento!

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22 Responses to CONVITE – Testemunhos Cercados Pelo Orçamento: Clara Cuéllar

  1. Buiça says:

    E quando chegar ao fim do curso, vai ter que arranjar emprego. E vai ser ainda mais difícil. A menos que lhe prevejam também um emprego no Orçamento de Estado…

    A vida não é um sonho. É o que fizer dela.

    • De says:

      Pois não.
      Por isso temos que dar cabo de quem tenta fazer da vida ( dos outros) um autêntico pesadelo!
      Como o faz este poder neoliberal/caceteiro que nos governa

  2. Victor Nogueira says:

    Escreve o articulista:

    «Lá dentro, no Parlamento, dificilmente compreenderão as razões dos que têm expresso a sua indignação, mas já estiveram mais longe de se confrontarem com as suas consequências.»

    Ora, isto não é bem assim.

    Há formações políticas que apresentaram e voaram moções de censura ao Governo psd-cds. Concretamente o PCP – 2 vezes – e o Bloco – 1 vez. Todas elas tiveram o voto contra do psd-cds e a “abstenção violenta”, inócua”, do PS assis sócrates seguro sentado

    Numa altura em que grande parte da direcção nacional e da bancada do PS seguem aquilo que chamo uma deriva populista e objectivamente fascizante – a afirmação acima poderá levar os “distraídos” a pensarem que todos os partidos e políticos servem os mesmos interesses de classe. O que não é verdade !

  3. JgMenos says:

    Que grande lamechisse!
    Ninguém tem qualquer dificuldade em descrever um ideal ou um sonho; basta abrir a boca e deixar fluir as palavras.
    Realizá-los é querer e poder.
    Mas que modo mais sublime de enfrenter tais condicionantes senão dizer que é à comunidade que compete criar as condições para que eu mantenha a fé nos meus sonhos e para que usufrua das condições materiais para que os meus sonhos se realizem?
    Treteirice piegas e alienante!

    • Renato Teixeira says:

      Diz quem pode. Ora pois.

      • Victor Nogueira says:

        Pois …

        Não vivemos cada um para o seu lado mas sim em colectividade com divisão do trabalho e das funções. Doutro modo ninguém conseguiria (sobre)viver dada a complexidade crescente da sociedade. Ninguém hoje é um faz-tudo ou auto-suficiente.

        Cada um contribui com a sua quota-parte individual para o colectivo e é neste que está a satisfação das necessidades individuais. E é na determinação de quais são as necessidades individuais e o que indíviduo espera “sacar” do trabalho colectivo. Aqui começa a distinção entre a solidariedade e o egoísmo. Aqui nasce o desiquilíbrio entre o que o colectivo “produz” em bens e serviços e o que o indivíduo quer sacar.

        Se um grupo de indivíduos – a classe detentora dos meios de produção e de inConsciencialização Social – é que define as necessidades e o grau de satisfação de amplas camadas/outras classes e camadas sociais, não se trata duma “lamechice” ou duma “pieguice” as pessoas/cidadãos (m/f) esperarem que a sociedade lhes abra o futuro não em função do recheio da carteira mas sim do mérito, das competências, dos sonhos, que só em colectividade e na solidariedade, numa democracia económica, social, cultural e política, podem encontrar campo para se expandirem.

        • JgMenos says:

          “…a classe detentora dos meios de produção e de inConsciencialização Social.”
          Uns chamavam-lhe Destino, outros a Vontade dos Deuses , outros Sorte e Azar – tudo coisa pouco científica e que ficava mal em qualquer salão ilustrado.
          Eis que chega o marxismo! E todo o lamecha se sente à vontade para se declarar vítimado por uma classe, e mais: autorizado a sacar aos outros o que por si não alcança exercendo o legítimo direito de classe oprimida em pleno processo de libertação; e se tem pressa, declara-se Vanguarda e vai na frente, prometendo vir a dar tudo a todos, o que desde sempre sabe que nunca virá a acontecer. Uma muito velha história em modelo pós-moderno!

          • De says:

            Coisa pouco científica?
            O Menos agora tornou-se apologista do “destino” ou da “vontade de Deus” ou da “sorte e do azar”?
            E invectiva o Marxismo por desmascarar a careca dos que tentavam e tentam encontrar justificação para se perpetuar a exploração do Homem pelo Homem?
            O Menos não está lamechas, porque o que ele gosta não tem nada de lamechas

            Mas há outra coisa que o Menos não consegue esconder.O seu porfiado esforço de dizer “treteirices piegas e alienantes” (para utilizar os mesmos termos que o dito utiliza).
            Oh Menos, é uma chatice essa de teimarem em que há explorados e exploradores.Vossemecê faz o seu papel.Cai frequentemente no ridículo , quando fala por exemplo em “autorizado a sacar aos outros”…(Velhos hábitos que traduzem hábitos muito antigos de quem está do lado dos saqueadores?). Ou quando fala em “vanguarda” e a identifica como produto de quem tem pressa….
            (Oh menos,já uma vez lhe disse que a ignorância tem limites e que o seu posicionamento ideológico não justifica tais barbaridades no conhecimento)

            Eu sei que Menos segue o velho preceito do “destino” ou dos “deuses” ou da “sorte e azar”.Replicado durante centenas de anos pelos antecessores do Policarpo quando diziam que “ricos e pobres sempre houve e há-de haver..”

            O diacho Menos é que nós já não vamos na sua muito velha história pintada em modelo pós-moderno!
            Ainda para mais quando o cheiro a naftalina se reconhece à distância.

          • JgMenos says:

            Se algum dia deixar de haver ricos e pobres haverá alfas e gamas, e posso garantir que não haverá igualdade.
            O resto do que diz DE é esse mau hábito de me dizer o que pensa que eu penso!!!

          • De says:

            Lá está.Aprendido e bebido na sacristia beata dos Policarpos desta vida.Pobres e ricos ou alfas e gamas. (um tanto esquisita esta introdução dos “gamas” mas enfim)
            Há sempre essa mania de se ter a mania de não dizer o que se disse.Ou será apenas que na ânsia de questionar o Marxismo não se vê o que debita?
            Uma leitura atenta mostra que.
            Ah podemos estar sossegados:Menos garante que não haverá igualdade.
            E?
            :)

          • JgMenos says:

            Essa do Policarpo nunca me chamaram. Qual é a raiz da coisa?

          • Victor Nogueira says:

            JgMenos quer ser mais. Quer ser humorista. Mas efectivamente não chega aos calcanhares de Eça. Ou das Produções Fctícias. Ou de Ricardo Araújo Pereira. Ou chega ?

            Talvez porque na ânsia de renovar o «alfa e o ómega», se ficou pelo gama. A não ser que se trate dum erro tipográfico e tivesse querido escrever cama, dama, fama, lama, rama … Infeliz e corriqueiramente «o alfa e o ómega» significam apenas «o princípio e o fim»

            Ou JgMenos significa «J gama Menos»? Não sei nem interessa para o caso.

            JgMenos parece indubitavelmente daqueles jogadores de cartas das histórias do Lucky Luke, peritos em viciar o jogo e pretenderem ficar com o trunfo. A baralhar, JgMenos é um ás – de copas/copos, de ouros ou de espadas quando não de paus ? Ou será o Joker ?.

            JgMenos é um duro especialista em disparar contra os piegas e lamechas. Em misturar alhos com bugalhos. Será também especialista em rir-se quando se vê ao espelho ? E desde já não qualifico o riso de JgMenos ao espelho. Melhor do que eu poderá JgMenos qualificar o seu riso. Usando as combinações das 24 letras do alfabeto português. Como quem faz construções com a Meccano ou os Leggo. Para não recuar até às das Construções Majora

            Mas deixando o bláblá de lado, JgMenos limita-se a lançar umas palavras para o monitor e arruma com alto nível a conversa.

            Recuando tanto na sua pósmodernização que acaba na Roma Imperial. Ou no Gabinete da Maga Patoógica. Ou na floresta do druída da aldeia de Obelix. Ou avança para partidas num salão de poker «down the Mississipi». Ou jogadas na lotaria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

            Decididamente o arsenal de JgMenos parece limitado. Talvez por ter perdido o Ómega e não saber que horas são. Em que tempo está.

            Contra “…a classe detentora dos meios de produção e de inConsciencialização Social.” ofusca-me com o brilho da sua argumentação.

            «Destino»,«Vontade dos Deuses». «Sorte» e «Azar» «– tudo coisa pouco científica e que ficava mal em qualquer salão ilustrado». JgMenos sabe o que se discute nos salões ilustrados. Eu fiquei a saber. O que agradeço.

            Tal como Lucky Luke, mas noutra dimensão, JgMenos saca mais rápido que a inConsciência Social. E, qual Almada no Manifesto Anti-Dantas que se não confunde com o do Partido Comunista de Marx e Engels, qual Almada parafraaseado, JgMenos manifesta-se com um sonoro e terminal «Morra o marxismo, morra! Pim!» Ou em linguagem renovada «Morra o Dantas, morra! PimPamPum!»

            E ao «determinismo» marxista, post modernisticamente, opõe o «determinismo» realista, não utópico JgMenosianos anti-dantesco, decretando «o que desde sempre sabe que nunca virá a acontecer. Uma muito velha história em modelo pós-moderno!»

            Entre o realismo pragmático, cinzento, determinista, rasteiro, unidimensional de JgMenos ou o «Once upon a Time …» eu prefiro Mais. Prefiro a Pedra Filosofal de António Gedeão (Rómulo de Carvalho)

            Sem acrimóna, JgMenos. Gostei à brava de lê-lo. Bué, mesmo !

          • JgMenos says:

            Gostei do seu manifesto, que tem o ritmo que só as ideias podem dar às palavras
            Neste mundo injusto em que acredito, conforta-me a ideia de o saber não gama e faço votos de que o seu destino seja um alfa (não Huxleyano).

        • Rafael Ortega says:

          E isso quer dizer o quê?

          Que por a senhora ter o sonho de ser tradutora tem que se lhe arranjar um trabalho como tradutora?

  4. Leo says:

    “Ao chegar à vida universitária, apercebi-me que os sonhos não dependem só de quem os tem.”

    E nunca pensou que a maioria se apercebe disto logo na primária?

    • Renato Teixeira says:

      O Leo é muito esclarecido. De tão precoce ainda achou que o Alegre era o sonho que faltava à esquerda nas últimas eleições presidenciais.

      • Leo says:

        Parece que o Renato também não pensou no mesmo logo em criancinha. Por isso também quer a sua vida de volta? Eu nunca quis a vida de volta, sempre quis outra vida.

        • Renato Teixeira says:

          Confere. Também não abri mão dos sonhos com a sua facilidade.

          • Leo says:

            Ontem, na Manif da Marcha da CGTP vi um cartaz que mudando o nome lhe assenta: “D. Policarpo fala assim porque tem a barriga cheia”.

        • Victor Nogueira says:

          Bem, isto é assm …
          As palavras de ordem reflectem o grau de consciência social. Que se vai adquirindo e até pode mudar radicalmente ao longo da nossa vida

          ‘Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!’ é talvez imediatamente mobilizadr. Mas não esclarece

          1.- que o problema não está na troika mas sim nos interesses que ela representa e defende. E esses são os dos grandes grupos económicos e financeiros nacionais e transnacionais. Os políticos e os tecnocratas são descartáveis. Como descartáveis não querem ser os detentores dos grandes grupos económicos e financeiros

          2. – Detentores dos grandes grupos económicos e financeiros que no caso de serem expropriados legitimamente – a legitimidade do seu ponto de vista de classe – querem “as vidas deles de volta”. Lutam para que lhes não tirem a sua riqueza e mordomias, a sua – deles – vida. Legítimas, segundo o ponto de vista deles. Mesmo que usem da trapaça e da mentira e da corrupção. Tudo “A bem da Nação” em Governos de Salvação, Conciliação ou Acalmação Nacionais do s-psd-cds.

          “Este não é o meu orçamento porque … ” é uma palavra de ordem que põe a tónica no individual, no “meu” e não no “nós”, o “nosso”

          Os capitalisas e agrários expropriados na sequência do 25 de Abril 1974/11 de Março de 1975 tb clamavam que aquelas medidas de 6 Governos pré-revolcionários não eram o orçamento deles. Tal como a Constituição da República promulgada em 2 de Abril de 1976 não defendia as aspirações mais profundas e os “direitos” dos grandes grupos económicos e financeiros “expropriados” da vida deles.

          Mas a Constituição ainda em vigor incopora(va) as aspirações mais profundas e os “direitos” dos trabalhadores e de amplas camadas do ovo português, incluindo a impropriamente chamada classe média e os pequenos empresários do comércio, indústria e serviços.

          • Leo says:

            Num filme por aqui postado sobre os da “acampada” no Rossio, via-se a auto-proclamada “revolucionária” Raquel Varela num discurso às “massas” berrar: “Estamos a ser expoliados desde há 28 anos”… como então denunciei o facto, nunca mais os meus comentários passaram.

            Sim, tem razão, eles sentem-se como expoliados da sua vida anterior, por isso a querem de volta. Eu sempre quis outra vida, para mim e para os meus companheiros de classe.

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