“Outono Quente”, seis comentários elementares

1 – Prioridade absoluta, fortalecer o movimento popular.

2 – Divisão e alienação no topo.

3 – “O povo está com o MFA”

4 – A linha divisória. Troika RUA!

5 – O Euro, seguro de vida da Troika e das políticas de austeridade

6 – Perspectiva Histórica

1 – Começa-se a sentir a força do movimento popular. A queda da TSU sinaliza a força do movimento, as actuais divisões no seio do Governo ocorrem devido à magnitude da indignação popular. A raiva contida e difusa, emergiu. Para aqui se chegar, o trabalho de vários partidos, movimentos e organizações (CGPT e constelação “Indigandos”, Esquerda extra parlamentar, BE, PCP) foi essencial, todos os anteriores protestos, greves, etc… em maior e menor medida deram o seu contributo.  Mas chegados a este momento há que perceber que as massas em movimento em muito extravasam os limites/fronteiras desses movimentos… ainda bem, só assim se poderá vencer! No entanto, explosões populares por si só também não trazem vitórias ou mudanças políticas consequentes. Deixam uma certa marca, mas podem ficar só por aí. Neste momento podemos ir mais longe. Para isso, para se atingir com sucesso os objectivos imediatos – Travar mais medidas gravosas; Derrubar o governo; Ferir a Troika – a prioridade absoluta deverá ser Fortalecer o Movimento Popular. Nomeadamente: Engrossar as fileiras do movimento popular; Radicalizar o movimento popular; Aumentar o seu grau de politização.

A curto-médio prazo, a virtude de qualquer estratégia/política de movimentos/partidos que se reivindicam pelo fim do memorando de entendimento com a Troika deverá ser medida pela forma como essas estratégias/políticas fortalecem (a nível de quantidade, radicalização e politização)  o movimento popular. A minha maior crítica à moção B que concorre à próxima convenção do BE é o facto de por a tónica numa estratégia de busca de alianças com o PS. Ora isso irá condicionar toda a política a seguir, tudo deverá estar subordinado e condicionado pela procura da dinamização do movimento de massas, não pela procura de alianças com quem pôs a Troika em Portugal. Com esta política a Lista B troca as prioridades e assume objectivos contraproducentes face aquela que deveria ser a prioridade máxima.

No imediato há duas datas fundamentais. O 15 de Outubro e, sobretudo, o 14 de Novembro.

2 – Divisão e Alienação no topo. São visíveis os sinais de divisão no seio do governo, nomeadamente entre CDS e PSD. Dentro do próprio PSD as críticas ao actual rumo são bem sonoras, é notável que Berta Cabral (que concorre pelo PSD à Presidência do Governo Regional dos Açores) tenha sentido a necessidade de se demarcar e distinguir de Passos Coelho no decorrer da campanha eleitoral. Borges quando insulta a sua própria base de apoio, torna claro quão alienado, arrogante e sob pressão está o núcleo duro do actual governo. A nível mais geral a classe dominante hesita entre a defesa do actual governo, instauração de um governo de salvação nacional ou novas eleições… Estas divisões irão-se aprofundar a curto prazo com o intensificar da crise e da luta popular. Mas camaradas, é um erro pensar que este período de confusão e dissensão será eterno, as forças da reacção e do regime irão se reagrupar. Por isso mesmo mais se reforça a necessidade de aproveitar o actual momento ao máximo. Nos próximos tempos os ventos da história serão favoráveis à esquerda, é aproveitá-los para chegar o mais longe possível.

3 – “O Povo está com o MFA”. No Público espanhol encontra-se esta reflexão em que a certa altura se comparam quer os processos que levaram ao fim das ditaduras, quer os actuais protestos, em Espanha e Portugal: Pero hunde sus raíces, también, en un marco constitucional que nació condicionado por el ruido de sables y que ha ido perdiendo con el tiempo sus de por sí limitadas potencialidades democratizadoras, tanto en materia social como de organización territorial. Esta singularidad del caso español, de hecho, permite establecer algunas diferencias nada desdeñables respecto de otros marcos constitucionales con un origen claramente anti-fascista, como el portugués nacido de la revolución de los claveles. De hecho, no es descabellado otorgar a esta marca de origen un peso a la hora de explicar fenómenos como la menor virulencia de la policía lusa frente a las recientes movilizaciones anti-ajustes. O como la existencia de sectores de las fuerzas armadas que, en lugar de soltar soflaman amenazantes, han mostrado su solidaridad con unas protestas que han conseguido arrancar al gobierno de Passos Coelho el compromiso de replantear su programa de recortes.

Esta é uma especificidade Portuguesa que há que explorar muito, muito bem. Na manifestação de 21 de Setembro em Belém apareceram alguns militares fardados, foi noticiado que processos iriam ser instaurados… Mas no dia 29 de Setembro vi ainda mais… As forças da ordem também reprimem manifestações e protestos em Portugal. Contudo, o controle que as elites têm sob as forças da ordem em Portugal é muito mais limitado que em outras paragens, a influência que o povo tem sobre a polícia e forças armadas é maior. As grandes manifestações que têm tido lugar não têm registado incidentes de maior com a polícia, não é porque não tenha havido provocações e falta de pretexto, a polícia se quisesse intervir como em Espanha também aqui poderia arranjar desculpas. Mas não o fez. Acima está parte da explicação, as declarações dos sindicatos e associações profissionais das forças armadas têm sido muito claras, quer sobre a postura a ter face aos protestos, quer sobre a avaliação do actual governo e políticas.

A denúncia e exposição, que em grande medida passou por este blog, do uso de agentes provocadores e outras tácticas ilegais por parte de certos elementos da PSP e ministério da administração interna, em manifestações passadas, de certo  também deu um contributo para uma actuação mais razoável por parte das forças da ordem.

4 – Na actual fase, a principal linha de fractura na sociedade e política portuguesa é quem está pela Troika e quem está contra a Troika. Neste momento todas as forças que renunciam este memorando e que lutam pela expulsão da Troika do país (desejavelmente de toda a Europa) devem convergir o máximo possível. Devem convergir na luta de massas (greves e manifestações) e na luta institucional (eleições, parlamento). Aliança alargada de todas as forças anti-troika, combate sem tréguas à troika e os cipaios troikistas.

O PS está no segundo grupo, dos troikistas, chamá-lo de esquerda é estar a confundir as massas. Que sectores do PS (como no passado aconteceu com Roseta e Alegre), fujam ao controle da direcção e protagonizem projectos independentes/autónomos do PS acho muito bem. Possivelmente até é uma necessidade.  Mas se alianças e convergências com sectores vindos do PS, mas em ruptura com ele, claramente anti-troika, são desejáveis, qualquer ideia de aliança, cooperação com o PS em si é completamente contraproducente! Com esta ou outra direcção do PS… O PS é geneticamente uma ala um pouco mais moderada do regime e da direita, que contém alguns elementos de esquerda, mas o PS em si não é uma força de esquerda!

5 – O Euro, seguro de vida da Troika e das políticas de austeridade. Uma posição anti-Troika consequente tem também de questionar o Euro e a permanência de Portugal nessa zona monetária e na própria UE. Quem luta pelo fim das políticas austeritárias abençoadas pela Troika e ao mesmo tempo ajuda a divulgar a ideia de que a saída do Euro seria uma catástrofe (como a Moção A o faz) está a atar o nó à volta do seu pescoço… Como se viu aquando do referendo proposto por Paprandeu ou das últimas eleições Gregas, qualquer tentativa de ruptura com a Troika irá se confrontar com a chantagem da expulsão do Euro. Só há uma forma de responder a essa chantagem, é assumir que se para romper com a Troika o Euro irá por arrasto, então que assim seja! Esta entrevista a João Ferreira do Amaral merece ser lida, bem como este artigo muito lúcido acerca das contradições no seio da UE e Euro, Europa 0.0, infelizmente não sei como aceder à versão on-line… O assunto justificaria um mais longo post, por agora não posso deixar de realçar certos pontos chave:

– “Depois do Euro o dilúvio”. É triste quando à  Esquerda há quem aperte o nó à volta do seu pescoço. Antes de mais o dilúvio já cá está. Qual tem sido o comportamento da economia portuguesa desde que o Euro foi adoptado? Em quanto se reduziu o rendimento real das famílias? Só nos últimos 2-3 anos essa redução deve rondar pelo menos à volta de 30%, se se acrescentar inflação, aumento do desemprego, falências, etc… veremos que o rendimento dos portugueses já está a ser espremido de foram dramática e pior… é que esta redução não se irá atenuar, antes aumentará com a prossecução destas políticas! Aquilo que alguns dizem de que a saída do Euro implicaria uma desvalorização dos rendimentos em 50%, já aconteceu ou está perto de acontecer!!!! E sem que se perceba para quê. Mais, ninguém pode afirmar ao certo enquanto é que os rendimentos se iriam desvalorizar com uma saída do Euro… Aquilo que se sabe é que para sair da crise a Argentina teve de quebrar a relação entre peso e dolar e que o facto da Islândia não estar no Euro contribuiu em muito para que pudesse ter respondido à rise de forma bem mais eficaz e justa que os PIGS do sul da Europa…

– IV Reich. O Euro dinamizou ainda mais a integração económica-financeira Europeia, mas essa integração económica não diluiu o papel dos estados-nação, antes pelo contrário. Reforçou em muito o poder da Alemanha e seus aliados próximos (as potências centrais, lembram-se da 1ª guerra mundial??? e países nórdicos) e diminui o da Europa do sul e ocidental (França, Itália, Espanha, Portugal). Neste momento é do interesse da classe dominante teutónica que os países do sul sangrem o mais possível sem morrerem, a sua manutenção na UE terá o preço de se tornarem meros protectorados periféricos do IV Reich. Quando a Merkel disse “Na UE já não há política doméstica” estava-se a referir-se aos PIGS, porque no que toca à política doméstica Alemã essa está viva e recomenda-se… Aliás a política doméstica Alemã é que acaba por controlar e decidir os rumos da UE. Não pode ser! O caminho da subjugação da auto-determinação do povo Português ao IV reich é o caminho da fome,  miséria e o enterro da democracia política.

– Políticas de resposta à crise. Controlo do crédito e da banca, desvalorização cambial, reorganização e re-nacionalização de certos sectores (produção e distribuição de energia, telecomunicações, transportes pesados), levantamento de restrições/quotas nas pescas e agricultura… todas estas medidas necessárias ( e outras) ao relançamento da economia, criação de emprego e saída da crise são impossíveis dentro do actual quadro da UE… É que nem é no Euro, é mesmo na UE… A actual UE é o coveiro da democracia e do estado social europeu. No mínimo, é necessário uma total reformulação da UE, um novo contracto entre cidadãos, estado-nação e órgãos europeus supra-nacionais. Sem isso mais vale sair, tentar encontrar parceiros de saída e parceiros noutras paragens, que continuar neste clube…

– A luta em curso deverá ser o mais internacionalista e coordenada possível. Notícias de que a próxima greve geral será Ibérica, talvez com outro tipo de acções noutros países, são extremamente positivas e espero que se concretizem. Mas devido às especificidades de cada estado-nação, de cada povo, de cada território, a luta não irá estar sincronizada ao segundo em cada local. É no espaço do estado-nação e não no espaço transnacional europeu,  que a democracia tem mais poder. Os sindicatos e movimentos populares têm pouca capacidade de afectar “Bruxelas”, é muito mais fácil pressionar Passos, Rajoy ou Samaras do que Durão ou Lagarde. Onde a relação de forças é mais favorável ao movimento de massas é no estado-nação e não na União Europeia. Aliás toda a super-estrutura politico-institucional da UE foi montada de forma a ser imune à vontade popular, mais, de ser capaz de sugar poder aos povos retirando decisões do âmbito nacional (onde o povo poderia intervir através do voto e outros instrumentos de cidadania) para o âmbito europeu onde a capacidade de influência popular é quase nula. Sendo o palco nacional onde o povo mais facilmente pode chegar ao poder, é previsível que mesmo estando coordenados, em diferentes nações o movimento contra a opressão esteja em diferentes estádios. É previsível que quando as condições em Portugal estiverem maduras para se escorraçar a Troika e os Troikistas o mesmo não ocorra noutras paragens… Devemos ficar parados à espera??? Ou deverão os Gregos, ou os Espanhóis,  ou os Catalães, ou os Italianos, ou seja quem for que chegar lá primeiro, deverá sentar-se à espera???? Aliás, nada será, de facto, mais inspirador para o movimento popular trans-europeu, do que o rompimento do acordo da Troika (e correspondente saída do Euro) numa das nações da Europa.

Quanto a isto devo dizer que a Moção B está mais avançada que a A, pelo menos há uma condicionalidade na permanência no Euro…  Mas a permanência no euro exige reformas profundas, compensações que neutralizem a sua desvantagem matricial, isto é, um arranjo institucional alternativo, fundado em mecanismos de controlo e participação democrática na governação económica europeia.

6 – Perspectiva Histórica. Estamos a viver a maior crise mundial desde os anos 20 do século XX, essa crise foi apenas resolvida com a 2ª Guerra Mundial. Em Portugal não se assiste desde 74 a um momento como este. De lembrar que a bancarrota do final do século XIX foi das principias causas do fim da monarquia e instauração da República. Não é claro quais serão exactamente as consequências políticas e sociais desta crise, mas que serão fortíssimas não há dúvidas. Daí que é fundamental enquadrar o actual momento no mais vasto desenrolar do processo histórico. Fundamental também é analisar eventos passados em busca de possíveis respostas, possibilidades, alertas, para o momento em que vivemos. É que cada era/fase histórica tem características próprias, não se pode aplicar automaticamente uma receita de 1910 ou 1383 a 2012, mas continua a não existir melhor “modelo” para nos ajudar a perceber o que está a acontecer e o que será mais provável ocorrer do que uma análise Histórica.

Daí o vídeo acima. Quando o elaborei a minha motivação principal foi divulgar esta fantástica e mui galvanizadora música de Zé Mário Branco. Para mim é das mais entusiasmante músicas de intervenção portuguesas e não havia nenhum video no youtube com ela. Pus mãos à obra e seguindo o mote “eu vi este povo a lutar para a sua exploração acabar” decidi ilustrar a música com várias referências, momentos e personagens heróicas do “povo em luta”. Há pouco tempo reparei que o vídeo já tem quase 60 000 visualizações… Bem, não me parece mal, ainda para mais tendo em conta que praticamente não o divulguei… Bem me parecia que esta era uma grande malha! Termino abaixo com uma lista de vários trailers de filmes, documentários e palestras relativas a algumas das imagens do vídeo acima… é que isto do “há sempre alguém que resiste” não é só letra de uma canção, é uma realidade histórica. Por vezes, este lado da história até é vitorioso! São os momentos em que o mundo “pula e avança”.

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4 respostas a “Outono Quente”, seis comentários elementares

  1. Antónimo diz:

    Continuo a achar que a quebra do BE se deveu a sucessivos fiascos dinamizados por gente como Portas e Oliveira (este como rosto da opinião nos OCS) mas assumidos por uma mesa nacional mais à esquerda, liderada por Louçã. Falo do Alegre, de Sá Fernandes, de Tavares.

    Resultado? Foram esses mesmos que exigiram mudanças quando veio a derrota. E os seus próximos, nesta Moção B, propõe mais do mesmo remédio.

    É assim como no caso hipotético em que um tipo vê que a austeridade não funciona e conclui que não funcionou por não ter havido austeridade suficiente.

  2. Subscrevo quase integralmente.

    Só um reparo: ALEGRES, ROLETAS, ZÉZINHOS são os cavalos de Tróia do movimento popular!! Porque eles nunca irão romper com o PS – e se o fizessem jamais romperiam com a social-democracia que os pariu!

    Porque eles dão cobertura ao PS pla esquerda – basta pensar como essas figurinhas foram ao Congresso das Alternativas à tarde, fingir que dialogam à esquerda para à noite, p PS anunciar uma redução do nº de deputados na AR pra eliminar a esquerda parlamentar e garantir na secretaria ao centrão o que nas urnas irão perder!

    Nenhuma confiança nesses sacripantas que andam a dar cambalhotas há 40 anos!
    Nenhuma “política de atracção” – que (como referes) nos afastará da radicalização das massas!
    Basta de nos iludirmos e semearmos ilusões entre as massas com palhaços do regime como o ALEGRE, HELENA ROLETA, ANA GOMES e outros ZÉZINHOS!
    Quem quiser que venha atrás de nós!

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