“A Cultura em meio à crise”

A propósito do Ano do Brasil em Portugal, o jornalista Bernardo Vianna fez-me algumas perguntas sobre o estado da cultura em Portugal. Aqui está o “estado da arte” que fez, a várias vozes.
As minhas perguntas e respostas:

1. Que efeitos da crise econômica sobre os profissionais da cultura portugueses você tem observado? Muitos vão buscar apoio para seus projetos em outros países ou mesmo tem deixado Portugal?

Nos últimos trinta anos, em Portugal, a cultura sempre foi vista como uma ameaça para o poder. Por isso, sempre foi muito menos apoiada que outras áreas de actividade com menos relevância económica ou social.
Com a intervenção externa – política e financeira – a que Portugal está a ser sujeito os apoios estão a ser integralmente canalizados para as entidades financeiras e para o pagamento dos juros da dívida. Se à cultura raramente chegavam os apoios, o que dizer quando, como agora, há quem proponha o racionamento dos medicamentos mais caros a doentes oncológicos?
O tecido cultural com raízes em Portugal tem vindo a dar o salto para outros países. Única solução para a sua sobrevivência.

2. Quais as principais políticas de incentivo à cultura em Portugal? Na sua opinião, elas poderão sobreviver à crise?

Neste momento não existe qualquer política de incentivo à cultura em Portugal. Os poucos financiamentos públicos que aparecem, ou têm verbas insignificantes, ou vão sendo adiados pelo Ministério das Finanças (pode-se ver aqui um dos exemplos recentes) – onde se reúne a tropa de choque do FMI, BCE e Comissão Europeia. Num contexto equivalente ao de um protectorado é perigoso para a entidade ocupante que exista um tecido cultural com identidade, criativo e organizado.
Contudo esta operação está a provocar uma interessante resposta da parte das pessoas da área da cultura e com uma crescente relevância junto da maioria da população. O “Manifesto em defesa da Cultura”, atingiu na semana passada uma enorme notoriedade ao desenvolver por todo o país inúmeras acções naquilo que chamaram “Semana de Luta pela Cultura, contra a Austeridade”. Mas este não é um acontecimento isolado, Cada vez mais pessoas da cultura percebem que, pelo seu futuro, têm de ser actores políticos do presente. Depois das enormes manifestações do passado dia 15 de Setembro (um milhão de pessoas – mais de 10% da população – nas ruas de todo o país) sob o tema “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!” já está a ser convocada uma manifestação cultural (proposta por vários artistas) para meados de Outubro que se prevê que possa ser de grande impacto.

3. No Brasil, com a recente criação da Secretaria da Economia Criativa, o fomento a tal área tornou-se política de Estado. Como a economia criativa é tratada pelo Estado português e qual sua opinião sobre esse tratamento?

Em Portugal deixou de haver lugar para políticas de Estado que não passem pelo pagamento de uma dívida obscura contraindo mais dívida a taxas de juro mais altas. Vive-se um obsessivo processo de extorsão e acumulação. A política deixou de procurar desenhar o futuro e os governantes deixaram de tentar iludir que o estão a fazer.
Os pequenos clusters de indústrias criativas que sobrevivem ao genocídio financeiro, funcionam de uma forma relativamente circunscrita e sem qualquer influência no desenhar de um futuro.

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