O habitual não é “natural”

(foto Andrea Comas)

Há poucos anos atrás, participei num seminário acerca da violência nas favelas cariocas, em que os colegas explanaram a terrível situação dos habitantes, tiranizados pelos gangs de traficantes de droga e com mais medo ainda da polícia – que, quando entrava, disparava a matar sobre tudo o que mexia, no pressuposto de que quem mora em favela é bandido, ou se não for também não interessa, porque nem tem direitos nem como reclamar justiça.

Chegada a altura das perguntas, fiz uma que me pareceu sociologicamente inevitável, perante aquele quadro traçado: «E como é que se explica que os habitantes “normais”, sem ligação ao tráfego, nunca tenham começado a disparar sobre os polícias, para se protegerem ou por vingança?»

O embaraço que caíu sobre a sala fez-me ver que aquela pergunta não era de forma alguma inevitável em termos sociológicos. Sê-lo-ia, quanto muito, em termos antropológicos.
Após um daqueles silêncios que parecem muito mais compridos do que foram, uma colega acabou por aventar, tateando, que talvez por ser muito difícil o acesso a armas. Algo que contradizia o que nos tinha sido dito e demonstrava, no conteúdo e na forma, que uma pergunta aparentemente tão evidente nunca lhes tinha passado pela cabeça, ao longo de vários anos de pesquisa.

Trabalhar diariamente como antropólogo exige, pelo menos na forma como entendo e vivo essa experiência, questionar a “normalidade” daquilo que, por ser habitual, tendemos a encarar como dados assumidos, como um mero decor que está inevitavelmente ali, como uma ordem “natural” das coisas. Exige, afinal, que nos espantemos tanto por muitas pessoas se divorciarem como por muitas se casarem, que tentemos perceber tanto as erupções de violência como a ausência delas.
Imagino que isto crie alguma deformação profissional. Ou então, esta era já uma tendência pessoal, que o trabalho exacerbou e legitimou.

Seja como for, terá certamente a ver com uma sensação de enorme espanto que me voltou a assaltar hoje, vendo as imagens chegadas de Madrid:

Como é possível que, numa situação de crise, incerteza e progressivo desespero e revolta das pessoas, não passe pela cabeça de quem está no poder político ou no comando policial que actuações de uma tão grande, desnecessária e arrogante violência possam deixar de ser aceites, por quem as sofre, como a “natural” regra do jogo?
Como é possível que não vislumbrem que, neste quadro e na sequência de actuações como esta, possa passar a haver, num destes dias, pessoas para quem faça mais sentido responder a tiro  a tentativas estatais de lhes abrirem a cabeça à cacetada, enquanto estão sentadas no chão, do que deixar fazê-lo ou tentar fugir?

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12 Responses to O habitual não é “natural”

  1. Peter Nádas diz:

    Experimente o Paulo dar um peido em direcção da polícia e veja quão depressa aparece a raquel freire a dizer que você é um infiltrado.

    • paulogranjo diz:

      Não estou a falar de activistas, nem de zaragatas com o “cão do pastor” como forma de protesto político.

      E muito menos defendo, obviamente, que se ande aos tiros aos políciais.

      Parece-me simplesmente uma possibilidade muito real, reforçada por este tipo de actuações, e mais provável de surgir entre “expontâneos” “paiss de família”.

  2. migspalexpl diz:

    nao é mt complicar perceber: se disparas sobre um polícia e fores apanhado vais passar grande parte da tua vida na prisão, e com o adjectivo “assassino” colado nas costas. entre esse risco e a relativa segurança de “ir sobrevivivendo”, (e protestando dentro do aceite pela sociedade e pelo poder), a escolha é óbvia. é o instinto de sobrevivência. claro que se o poder se torna demasiado opressivo, a via segura torna-se menos segura, a balança equilibra-se e rebeliões mais violentas tornam-se mais atractivas.

    • paulogranjo diz:

      As razões por que normalmente se acata a violência estatal, mesmo em alturas de protesto, são as que refere e várias outras, que não têm a ver com o cálculo individual mas com visões largamente partilhadas da vida pública e daquilo que é “normal”.

      A questão é a possibilidade de quebra dessa “normalidade” (tão “normal” que tende a ser vista, de cima, como “natural” e imutável), com o agravamento das condições de descontentamento e de como elas são sentidas pelas pessoas, e com actuações repressivas que possam ser encaradas por quem as sofre ou observa como exageradas na quantidade, imorais na forma (ex: bater em quem está no chão) e, consequentemente, ilegítimas.

  3. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Nem mais!…

  4. notrivia diz:

    Bom post!
    Já agora, se calhar convém que a malta que gosta de se sentar para apaziguar a violência comece a repensar a abordagem (se ainda não repensaram)…
    É que depois ouvem se os relatos:
    “Ah, tavamos todos ali tão quietinhos e sentadinhos e eles malharam na gente…”
    A frente destes animais não se senta!

    • paulogranjo diz:

      Não retiro essa conclusão.

      E muito menos desejo que ande para aí gente aos tiros, nas manifestações e protestos.
      Espero que os governantes e as chefias policiais também não o desejem.

  5. nf diz:

    De facto, o hábito não é natural se por natural tomarmos algo que resulta ou de lenta sedimentação (tradição) ou de formação espontânea. Para mais, nos tempos ultra-modernos que correm, a criação e manutenção de hábitos é cada vez mais uma fabricação humana que, diga-se, dá uma grande trabalheira. Custa muito manter hábitos quando o mundo à nossa volta muda a todo a momento. Acima de tudo, o hábito requer a construção de estabilidade onde esta não existe ou está em perigo. Vai-se a ver e aquilo que experienciámos ou fizemos repetida e continuamente é relativamente curto e intermitente, e muito pouco “natural”. O hábito transforma, ilusoriamente, aquilo que algumas vezes foi naquilo que sempre foi assim.
    Por outro lado, o hábito é a coisa mais natural do mundo, ainda que fabricado. Limitações cognitivas e imperativos de manutenção, conservação e reprodução vitais levam-nos a criar e a agarrarmo-nos a hábitos como se estes fossem a única coisa sólida a que nos podemos agarrar. Quando o turbo-capitalismo nos impõe a revolução permanente, a construção de hábitos torna-se mais necessária que nunca. A fabricação daquilo que é natural é tão premente quanto a desagregação da estabilidade das nossas vidas. É aqui que a ideologia dominante (haverá outra?) emerge em todo o seu invisível esplendor. Em tempos de crise intensa, a ideologicamente orquestrada, “natureza”, “realidade” e “normalidade” são formas efectivas de monopolização da realidade por aqueles que detêm o poder e também aparentes bóias de salvação para quem vê a sua vida a fugir-lhe dos pés. Só assim se percebe que os defensores do choque fiscal são os mesmos que proclamam as virtudes inalienáveis da “estabilidade” e “credibilidade” de Portugal; os que advogam a “flexibilização” do mercado de trabalho (e tiram aos reformados aquilo que lhes é devido) são os mesmos que clamam pelos valores da família tradicional; que o “Pedro” amigo do facebook seja o mesmo Pedro primeiro-ministro que anunciou as alterações criminosas de contribuição para a TSU… Não é por cinismo que o fazem, embora também o seja, mas por pura necessidade de contrabalançar a continuada razia que se anuncia com, digamos assim, um “mecanismo de estabilização ideológico”.
    Parece que os portuguese começam a perceber que a bóia está irremediavelmente furada e que a normalidade das suas vidas irá à vida se os auto-proclamados guardiões da mesma continuarem a ter o exclusivo da realidade.

  6. Dezperado diz:

    Quando esteve no Brasil, deveria ter pedido para ir um dia com os BOPE, um dia às favelas….e assim tambem perceberia melhor o dificil trabalho que fazem quando envadem uma favela. Percebo e até concordo o seu ponto de vista. Mas o trabalho do BOPE quando entra na favela, deveria ser como? Como é que iam identificar os traficantes e os moradores da favela? Pode ser uma pergunta parva….e como é obvio moradores da favela não têm culpa de viver junto dos traficantes, mas como é que o BOPE deveria actuar?

    Em relação às manifs…..tenho pena que quando há jogos de futebol, e a policia malha a tordo e a direito, não tenhamos voces, para escreverem posts a defenderem os Ultra dos futebol.

    • paulogranjo diz:

      Por acaso, o tal seminário até foi em Portugal.
      No Brasil, num congresso bem amior, ouvi gente (incluindo pesquisadores que são dos quadros da polícia) serem extremamente críticos em ralação a formas de actuação como as do BOPE e aos mais generalizados problemas policiais de desrespeito pelos mais elementares direitos humanos, ou de corrupção e extorsão.

      Quanto à sua justificação de que, onde há criminosos perigosos, na dúvida se deve matar toda a gente, recuso-me a comentá-la.
      Sugiro que pare um pouco e reflicta acerca daquilo que escreveu.

      • Dezperado diz:

        “Pode ser uma pergunta parva….e como é obvio moradores da favela não têm culpa de viver junto dos traficantes, mas como é que o BOPE deveria actuar?”

        Paulo, leia novamente a pergunta parva que fiz…e diga-me onde eu refiro que se deva matar toda a gente….

        Eu percebo que para fugir à minha pergunta, voce tenha essa tirada…

        Mas volto a perguntar, como é que se resolve então esse problema das favelas…como é que o BOPE deveria actuar????

        Porque é facil para voce dizer que o BOPE atira a matar….mas então qual seria a forma de actuar do BOPE????

        Sabe quantas pessoas inocentes são mortas por ano nas favelas apenas pela troca de tiros entre os traficantes de droga????

        E já agora, voltanto ao post…..porque nao meter aqui imagens dos manifestantes arremessarem objectos contra a policia…ou será que essas imagens não viu??? ou não quis ver????

        Existem policias bons e maus, existem manifestantes pacificos e radicais….mas por coincidencia, voce só olha para os maus policias e para os manifestante pacificos….e fecha os olhos ao resto!

        • paulogranjo diz:

          O seu novo comentário nada retira à obscenidade e sociopatia do anterior.

          Constatação factual: O BOPE (infelizmente, não é só o BOPE, e o problema vem de muito antes da sua existência) entra, disparando a matar sobre toda a gente que apareça.

          Sua pergunta 1: Como é que o BOPE ia identificar os traficantes e os moradores da favela?
          Neste contexto, para a pergunta fazer sentido, terá que se acrescentar “antes de os matarem?”
          A própria formulação da pergunta tem subjacentes (para que faça sentido) dois pressupostos inqualificáveis:
          a) que é legítimo, caso um traficante vá a correr, a polícia matá-lo pelas costas
          b) que, na dúvida, também é legítimo matar pelas costas um cidadão que não seja traficante, porque a força policial não tem como os diferenciar, no meio da confusão.

          Sua pergunta 2: Como é que o BOPE deveria, então, actuar?
          Na sequência dos pressupostos anteriores (de que é impossível diferenciar habitantes de traficantes, e que por isso é legítimo matar ambos pelas costas), esta sua pergunta é meramente retórica e de legitimação da actuação descrita na constatação factual inicial.
          Também ela tem subjacentes dois pressupostos, também eles obscenos e sociopatas:
          a) que a actuação descrita é válida e legítima, dadas as circunstâncias
          b) que a actuação descrita é necessária e inevitável, a não ser que lhe apresentem uma alternativa

          Eu, não apresento nem tenho que apresentar, pois todo o seu raciocínio é não apenas obsceno, mas também de índole criminosa – já que é de homicídios que se trata.
          Mas, na hipótese de que a sua pergunta não seja totalmente retórica, lembro-lhe que não é só no Rio de Janeiro que há favelas dominadas pelos traficantes de droga (antes fosse…) e que as outras polícias estaduais têm outras doutrinas para lidar com o problema. Para além de que essa questão é objecto de inúmeros estudos e uma vasta produção bibliográfica. Procure, que será fácil encontrar.

          Quanto ao final do seu comentário:

          1 – “Manifestantes pacíficos” e “manifestantes radicais” não são antónimos. A larga maioria dos manifestantes radicais manifesta-se pacificamente, e manifestante “moderados” podem manifestar-se de forma violenta.
          Só a reprodução, por si, dessa falsa dicotomia poderia dar para páginas e páginas de análise semântica, política e psicológica.

          2 – Embora nunca coloque essas coisas em dicotomias de preto-e-branco, sei bem que existem, para usar a sua expressão “polícias bons” e “polícias maus”. Conto, aliás, protestar lado a lado com muitos deles no próximo sábado – incluindo com muitos do Corpo de Intervenção, já que está entre as unidades com mais alta taxa de sindicalização.
          Mas temo que, se se quer candidatar ao epíteto de “bom”, seja para isso chumbado pelos pressupostos que demonstrou.
          Por isso (e porque, por vezes, acontece com qualquer um de nós nem sequer perceber as implicações daquilo que nos habituámos a repetir), lhe volto a sugerir que pare para reflectir.

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