«A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é verdade?»

Num comentário a um post aqui no 5Dias, diz um tal José:

«Este poço sem fundo onde o nosso estado e nós, contribuintes, estamos agora é da inteira responsabilidade de todo e qualquer partido político que teve representado no parlamento nestas quase 4 décadas. Como foi dito na manifestação, bloco de esquerda, cds… É tudo a mesma coisa. Gatunos, todos eles.»

Devagar aí com o andor, ò José. De onde saiu você para dizer que todos os partidos são iguais, tanto faz BE como CDS? Quem tem governado o país desde o I Governo Constitucional (1976-78), não sei se o José já era nascido, foram três partidos: PSD, PS e CDS (por esta ordem de tempo de permanência no Governo). São eles que devem ser responsabilizados pelas políticas que têm sido seguidas e pelo estado a que conduziram o País, porque são eles os responsáveis. O BE e o PCP podem, naturalmente, ser criticados, mas não por isso.

Essa conversa de que são todos gatunos faz-me lembrar o «FMI», do Zé Mário Branco, onde a certa altura ele ironizava: «Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? ‘Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito.’ A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é verdade? Quer dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anticomunistas ou antifascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole, parole, parole, e o Zé é que se lixa…»

Faz-me lembrar também outra coisa: a conversa do apartidarismo, como o brandy Constantino, já vem de longe. No tempo do Salazar, não podia haver partidos. Quer dizer: havia a União Nacional, mas essa não era um partido, claro… Era … a União Nacional. A política era uma palavra feia. «A minha política é o trabalho», diziam aqueles que viveram toda a vida agachados, governados pelo medo.

Não sei se o José tem ido às manifestações. Se tem ido, é bem vindo. Mas olhe que outros já o fazem há mais tempo. Há muito mais tempo que aqueles dois palhaços histéricos que apareceram na televisão durante a concentração em frente ao Palácio de Belém a tentar calar a deputada do BE, a chamar-lhe «gatuna» e a dizer-lhe «vai-te embora». Se eu estivesse lá ao lado teria defendido, digamos, energicamente o direito da deputada do BE continuar a falar, percebe José?

Há quem tenha votado nesta gente do PSD e do CDS e que agora está arrependida e sai à rua a manifestar-se. Ainda bem. Mas se andamos a gramar estes governos há tanto tempo é também graças a eles. Por isso, quando se juntam às manifestações, vamos lá a mostrar mais respeitinho pelos que já lá estavam. Se ainda se usassem chapéus, não fazia mal que fossem de chapeuzinho na mão, em sinal de respeito.

Como lhe digo, José, fico muito satisfeito de manifestar-me consigo contra os capatazes da troika. Mas não lhe passe pela cabeça chamar-me «gatuno», certo?

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