Rui Ramos e a Guerra Colonial por Dalila Cabrita Mateus

O historiador Rui Ramos, na parte da História de Portugal que redigiu, alinha abertamente com aqueles que procuram, ainda hoje, criar a ideia de que a guerra colonial era justa e “sustentávelad eternum“, estando praticamente ganha, não fora o “trágico” obstáculo do 25 de Abril. Afirma, pois, que “a situação militar não era dramática”.
A conclusão passa por cima de tudo o que foi dito pelos responsáveis máximos do país, no plano político e militar: Marcelo Caetano, o chefe do Governo, e Costa Gomes, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. E até passa ao lado da opinião da própria PIDE, nó central da teia de informações estratégicas e sua componente essencial. Estes reconheciam que a guerra estava perdida na Guiné. Em Moçambique, diziam que a situação militar se agravava de dia para dia, antevendo também o colapso. E afirmavam que apenas em Angola se vivia numa situação transitória de aparente sossego. Mais reconheciam que os meios bélicos e, sobretudo, os recursos humanos começavam a faltar e que os militares tinham chegado ao fim da sua resistência física e moral.
Além disso e tal como outros, partindo de dados de significado discutível ou até de ficções, Ramos exalta a política e as realizações do Estado Novo, pois a situação económica, financeira e social do país era a melhor, tendo tão magnífico legado sido desbaratado pela revolução. “Nunca se vivera tão bem em Portugal, com pleno emprego, subida de salários e expansão do Estado social”, afirma.
Ora, nos últimos anos do Estado Novo, baixara o ritmo do desenvolvimento, diminuíra a produção agrícola e recorria-se de forma crescente a importações para cobrir as faltas da produção nacional. A economia portuguesa atrasava-se cada vez mais em relação aos países desenvolvidos. E, simultaneamente, pioravam as condições de vida dos trabalhadores e das classes médias. Em resultado desta política, a parte dos trabalhadores no Rendimento Nacional, que já era das mais baixas da Europa, passou de 35,8% em 1972 para 34,2% em 1973.
Ramos defende que, com a revolução, a economia portuguesa entrara na era do desastre, com baixa do PIB, aumento do desemprego e da dívida pública. E declara terem sido dissipados, então, 100 milhões de contos em divisas. De modo que as reservas do dr. Salazar teriam pago a revolução.
Só que, no dia 25 de Abril de 1974, não existiam os apregoados 100 milhões de contos de reservas em divisas. Os gastos com a guerra, correspondentes não a 29% mas a mais de 40% das despesas do Estado, explicam o défice orçamental de 5,5 milhões de contos, em 1973. De modo que a balança de pagamentos, depois de muitos anos de saldos positivos, se torna deficitária, o que obriga a uma sangria de 7 milhões de contos de divisas nos primeiros meses de 1974.
A evolução para défices generalizados revelava que a base produtiva do país era cada vez mais débil e anunciava uma rutura próxima do sistema económico. Foi esta, realmente, a herança do Estado Novo.
Quanto aos efeitos da revolução, em Dezembro de 1975 e a pedido da OCDE, uma missão do conceituado MIT, constituída por três eminentes professores, esteve em Portugal para avaliar a situação económica e financeira do país. A missão publicou um estranhamente esquecido relatório.
Os economistas mostraram que os resultados de Portugal não eram muito diferentes dos de outros países, pois, em 1975, a queda do PIB era de 2,8% em Portugal, de 3% nos Estados Unidos, de 4% na Alemanha Ocidental e de 4,5% na Itália. Mas, ao contrário de outros países, o consumo pessoal e a participação do factor trabalho no rendimento nacional tinham aumentado em Portugal. E o consumo privado e público evitavam uma maior queda do PIB. De modo que os economistas norte-americanos declaravam: “Para um país que recentemente experimentou uma complexa reforma social, uma alteração total do seu comércio externo e seis governos revolucionários nos últimos 19 meses, Portugal goza, inesperadamente, de boa saúde económica”.
O jornal PÚBLICO, na sua edição de 15.10.2011, sugeria que, hoje, estamos como no PREC. E titulava: “Portugal arrisca recessão de 3% no próximo ano, a pior desde 1975”. Fica a interrogação: como é que alguém com “boa saúde económica” (MIT dixit) se pode comparar a quem está “gravemente doente” e pode até morrer socialmente com a brutal medicação que lhe estão a aplicar?
Assim, refutando os que, hoje como ontem, falam da “crise na economia” no PREC, os insuspeitos especialistas norte-americanos demonstraram que a revolução deixara o país com “boa saúde económica”. Oxalá pudéssemos dizer o mesmo da situação actual do país

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6 Responses to Rui Ramos e a Guerra Colonial por Dalila Cabrita Mateus

  1. xico diz:

    Não sei se o que diz corresponde à verdade. Também não sei, porque não li, se Rui Ramos diz o que afirma. Mas sei que a forma como o critica parece-me a correcta. Com factos (a serem verdade), com argumentos procurados no que se pode chamar de contraditório, sem insultos. Todas as disputas deviam ser assim.

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    A vantagem de ter 70 anos é que não preciso de livros para saber o que se passava no princípio da década de 70 em Portugal. Estava vivo, estava lá, e tenho experiência pessoal de muito do que então se passou. Longe de mim tentar branquear o Estado Novo e as suas políticas cavernícolas. Mas, no que diz respeito a Angola, a situação era a seguinte:

    A situação militar estava controlada, não porque os angolanos tivessem deixado de querer a independência, mas porque a urgência em alcançá-la tinha diminuido. O surto de crescimento económico fez com que, pela primeira vez, muitos angolanos tivessem uma real esperança de melhoria nas suas vidas, com emprego, acesso crescente à educação para os filhos, e um forte abrandamento nas atitudes discriminatórias quer por parte da administração pública, quer por parte da população de origem europeia que, sendo em grande parte recém-chegada a Angola, não partilhava dos mesmos estereótipos velho-colonialistas. Havia um começo de normalização das vidas de cada um que faziam com que a simpatia pelos objectivos do MPLA já não levasse muita gente a querer pegar em armas para os concretizar. O que fez com que o MPLA estivesse encurralado na Zâmbia, a FNLA refugiada nas zonas de floresta mais densa do norte, e a UNITA a colaborar com a administração portuguesa na luta contra o MPLA. Para além disso as despesas militares eram cada vez mais suportadas pelo orçamento angolano, e já cerca de 50% dos efectivos militares eram constituidos por angolanos. A continuar por esse caminho, a guerra estava terminada, e a luta pela independência seria cada vez mais desenvolvida na esfera política. A breve trecho o governo de Lisboa ver-se-ia impotente para travar essa independência, que podia inicialmente ser controlada em grande parte pela população branca, mas que rapidamente passaria para as mãos dos angolanos, qualquer que fosse a sua origem ou etnia. Ainda que os objectivos da política de Marcelo Caetano não fossem estes, as suas acções, quer no campo militar, quer no campo da economia, acabariam por levar à independência de Angola, mas num quadro que teria poupado a morte de muitas dezenas de milhar de angolanos, em 20 anos de guerra civil. Não lamecto o colapso do Estado Novo em 1974, mas lamento que esse colapso, ao ter-se verificado então, e não cinco anos mais tarde, tenha impedido que a evolução de Angola para a independência fosse feita de uma forma menos destrutiva. É evidente que não é isto que Rui Ramos quer vender, com a sua história, mas convém não o perder de vista.

    • notrivia diz:

      Ok, o que você esta a sugerir é que a Angola teria estado melhor se progredisse de:

      – uma guerra colonial imperialista (brancos em terra de pretos a querer convence-los a tiro e a chicote de que eles são merda na sua própria terra)

      seguida por

      – Apartheid Sul-Africano (brancos em terra de pretos [e aqui durante muito tempo os brancos eram legitimizados por grande parte da comunidade internacional…] a querer convence-los a chicote [e a tiro de vez em quando] de que eles são merda na sua própria terra).

      O problema de Angola (tal como o de muitas outras nações) não foi a guerra civil. Foi a estupidez que está na raiz da guerra civil.
      E é preciso não esquecer que esta guerra foi feita em grande medida por interesses estrangeiros.

      Pensar que Portugal tinha ou podia vir a ter real influência em Angola no contexto geopolitico da altura é consequência de uma visão um tanto afunilada.

  3. Marcelo Caetano, que foi de facto o dirigente máximo da Legião salazarista (bem como o Hermano Saraiva director nacional da Bufa) e toda a sua companhia fascista teriam decerto trazido bens incomensuráveis à autonomia do povo angolano.
    Os dirigentes portugueses nessa época disfrutavam de um imenso prestigio, Marcelo Caetano tinha sido aplaudido por imensas multidões em Londres aquando da sua visita e ele e o regime do Kaulza de Arriaga (que tinha como porta voz o alferes Mário Crespo) poderiam perfeitamente ter subjugado os interesse das duas superpotências com a força da nossa razão de portuguesinhos fodilhões de pretos.
    Não o conseguiram então, mas os seus émulos contemporâneos estão a consegui-lo agora
    Haja esperança no futuro, camarada Nuno

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      Oh Francisco, que tal ligar o cérebro de vez em quando? Eu referi factos concretos e situações reais, e tu vens falar-me do prestígio ou falta dele dos dirigentes portugueses? Eu estive em Angola de Junho de 1974 a Agosto de 1975. Estou a falar de uma experiência concreta, não estou a esbracejar para encaixar os factos na minha ideologiazinha preferida. Ainda hoje tenho alunos angolanos que, no essencial, concordam com a minha análise, embora possam divergir em questões de pormenor. Angola estava à beira da independência em 1974, com Caetano ou sem Caetano, com 25 de Abril ou sem 25 de Abril. E as condições locais nunca permitiriam uma versão portuguesa do apartheid, embora a minoria branca pudesse preservar algum predomínio político e económico no futuro imediato. Esta distorsão dos direitos da maioria, por muito condenável que fosse, teria sempre sido melhor do que a destruição e o morticínio trazido pela guerra civil. É claro que para quem estava cá bem longe, a vitória dos princípios ideológicos é sempre preferível a evitar a mortandade de tantos inocentes.

    • Armando Cerqueira diz:

      Olá Raquel, saudações.

      Gostei do seu post. Tenho uma cópia desse relatório da OCDE. Creio que dois dos seus autores foram prémios Nobel da Economia. Estou certo?

      Tenho, desde há anos, uma dúvida sobre o Dr Rui Ramos. É ele, realmente, um historiador? Ou um estoriador? É que ele serve-se da ciência da História para outros fins que são alheios à ciência…

      Ficaria muito grato se pudesse elucidar-me, porque não creio que Rui Ramos se preocupe em reconstituir verdadeiramente o passado, mas sim em servir-se de uma mistificação do passado para defender determinados fins e ideologia.

      Saudações,

      Armando Cerqueira

  4. Aqui (na Guerra) foi onde o homem falhou de verdade. E não na questão da I República ou no número de presos políticos do Estado Novo como muito boa alma anda para aí a cantar…

  5. Jose Pires diz:

    Esquerda irresponsavel e ignorante!

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