Os aneis e os dedos

 

Ouvi esta manhã na TV que a venda de ouro subiu 75% em Portugal. Com a súbita pululação de lojas e anúncios nessa área, até esperava que fosse mais.
Mas ouvi também que 10% do crescimento das exportações portuguesas são, hoje em dia, em ouro.
Quanto a esta parte da notícia – já que estamos proibidos por europeu acordo de vender ouro das enormes reservas do Banco de Portugal e é, portanto, de ouro das nossas famílias que se trata – o número é assustadoramente alto.

O preconceito que mais vezes encontrei entre assistentes sociais é bem expresso pela frase, tantas vezes repetida, «Veio aqui pedir ajuda e contar histórias dramáticas, e trazia brincos de ouro nas orelhas».
A par da profissional desconfiança de que quase toda a gente (e não uma ínfima minoria) recorre aos seus serviços para as enganar, a frase denuncia uma ignorância acerca do seu “público-alvo” e desta história do ouro.

Desconhece, por um lado, que a maior parte das pessoas que se vêem obrigadas a recorrer a apoios sociais têm vergonha e necessidade de salvaguardarem, tanto quanto possam, a sua dignidade – a começar por se apresentarem tão “bem arranjadas” quanto conseguem.
Mais importante do que isso, essa frase e preconceito (que pressupõe que quem ainda consiga ter uns brincos de ouro não precisa de ajuda) ignora o papel popular que tal joalharia desempenha, mesmo em termos económicos.

Para lá dos factores afectivos e simbólicos, os pequenos artefactos de ouro são reservas de valor, mas em que só se toca nos casos mais extremos – e, mesmo assim, de forma gradual.
Sem dinheiro, sem ter como o arranjar e perante uma necessidade urgente e incontornável, uma família pobre não vende as alianças, brincos ou fios de ouro que tenha. Vai “pô-los no prego”, na quantidade estritamente necessária para que lhe avancem o dinheiro para a necessidade urgente que enfrenta, com a perspectiva de os resgatar logo que possível.

Não vende ouro em caso de pobreza continuada, agravada por uma maior dificuldade pontual.
Só vende ouro numa situação de miséria em que não veja qualquer possibilidade de vir a recuperar esses objectos que, para além de terem história e consubstanciarem memórias de acontecimentos e entes queridos, lhe permitiram ir contornando situações de “aperto” excepcional, mesmo na pobreza.
Para uma família pobre ou de poucos recursos, vender as alianças, o fio ou os brincos de ouro é abdicar do único recurso que lhes pode dar uma momentânea segurança, num quadro de permanente insegurança e precariedade económica. E tem plena consciência disso.

Já sabíamos que o equilíbrio entre importações e exportações portuguesas foi atingido pela falta de dinheiro nos bolsos do “cidadão comum”, para comprar produtos importados.
Sabemos agora que 10% daquilo que exportamos a mais é a miséria dos portugueses.

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