Apontamentos para o “Outono Quente”, algumas notas sobre o que se passou e o que irá acontecer

 

O coro entoa uma velha canção heróica do compositor comunista, os petardos dos estivadores estalam, a bandeira está desfraldada ao fundo… as massas zurzem o conselho de estado em frente ao palácio presidencial. Foram convocadas… foram convocadas, em grande medida, por elas mesmo. Para mim toda este apontamento de uma  televisão generalista é épico, porque épicos são os momentos que vivemos.

O medo, a miséria, a resignação, o desalento, a raiva contida que há tempos fervilhava nos subterrâneos da sociedade portuguesa explodiram, algum dia tinha de ser, foi no dia 15 de Setembro.

Há cerca de um ano o Cavaco disse qualquer coisa do género “Se os portugueses se portarem bem e se aceitarmos a austeridade, provavelmente passado um ano as coisas vão começar a melhorar” … Sempre que me pareceu que o povo português tomou estas palavras à letra, iria aceitar a austeridade, não iria seguir o caminho “Grego” e agitar as ondas, iria aceitar o sacrifício para depois colher os benefícios… aqui está o busílis da questão…

Passou um ano e as coisas não melhoraram, afinal aquilo que estava a correr tão bem, parece que tem alguns problemas… afinal depois de suportarem sem grande contestação a vaga de medidas austeritárias a recompensa não é a prometida retoma, anunciada à menos de um mês pelo Passos Coelho para 2013 (é bom não esquecer estas coisas). A recompensa é bem mais amarga, depois dos sacrifícios feitos mais virão, mais virão exactamente no momento em que os anéis que havia já se foram, agora só mesmo os dedos e depois dos dedos que mais exigirão?…

É que se calhar o que estava a correr tão bem, não era o caminho para a retoma… O que estava a correr melhor que o esperado era o programa de contra-reformas anti populares que acarretam uma transferência radical de poder e recursos do trabalho para o capital, do povo para as elites. E aqui sim houve, aquilo que a corte de comentadores a soldo das elites apontam sempre que há um percalço no saque em curso, aqui sim houve, um brutal problema de comunicação…

É que quando os vice reis das finanças diziam que as coisas estavam melhor que o previsto referiam-se ao saque em curso, quando os populares ouviam estas afirmações pensavam que as elites se referiam ao caminho para retomar o crescimento económico, mais trabalho, melhores salários…

O equivoco esclareceu-se a 7 de Setembro, dia 15 o divórcio entre a vontade popular e das elites foi consumada, esta ruptura é de uma profundidade não compreendida pelos ideólogos do regime.

O povo já sabia, mas agora não perdoa, não perdoa: os submarinos do Portas, o BPN, as PPPs, o Relvas, o Pavilhão Atlântico vendido em saldo ao genro do Cavaco, a EDP e a REN vendidas aos Chineses e sob a tutela dos barões do PSD, o exército de boys e assessores imberbes que recebem subsídios de férias enquanto acusam aqueles a quem esse salário é confiscado de “priveligiados” (é incrível mas é verdade…), a constante degradação das relações laborais que transforma o trabalhador por conta de outrem num trabalhador à jorna, a ordem de expulsão dada a toda uma geração do seu próprio país !!! O povo já não perdoa, nem pode perdoar! Nem pode perdoar se é para haver o mínimo de esperança num processo regenerador.

O movimento em curso apresenta uma série de características, que só em momentos de grandes mudanças sociais se conjugam:

1 – É um movimento que se estende de norte a sul, de Braga a Portimão, das ilhas ao continente. A única manifestação comparável ao 15 de Setembro foi o 1º de Maio de 74, não se sabe ao certo quantos cidadãos se manifestaram, à quem diga 1 milhão… O 21 de Setembro, a manif da CGTP dia 29 (provável greve geral aí anunciada?), o acossar aos ministros onde quer que vão, este é um ritmo de protesto sem precedentes desde o PREC. Estamos a viver o “Outono Quente”.

2 – Desde o PREC praticamente todas as manifestações de massas tinham um cunho sindical. Algumas excepções foram timor ou a manif anti-guerra de 2003… Mas houve uma virgem, e não foi a 15 de Setembro, já vem pelo menos do 12 de Março. A capacidade de mobilizar manifestações massivas já não é um exclusivo do movimento sindical e do PCP. O 12 de Março anunciou isso, o 15 de Outubro num período de refluxo manteve a possibilidade. O 15 de Setembro seguido do protesto em Belém confirmam-no.

É bom saber que na próxima greve geral haverá uma manifestação, alguém irá convoca-la. Mesmo que a CGTP não dê esse passo (e acho que irá, como nas últimas), outros a convocarão e neste ambiente, com grandes probabilidades de sucesso. Devo também acrescentar que a manifestação é um elemento importante, mas está longe de ser o mais decisivo no sucesso dessa greve geral, que deveria ser Greve Total, uma vez que as Greves Gerais estão um tanto ou quanto banalizadas e a expressão perdeu um pouco da sua força…

3 – O nível de combatividade das massas está em alta. Talvez a maior diferença com o 12 de Março não sejam tanto os números, mas mais a postura. Apesar de não terem sido dramáticos, a “tomadada” e os petardos lançados ao covil da Troika são reveladores. Ainda mais revelador é que depois dos “organizadores” terem dado por terminado o protesto, dezenas de milhar de populares (os “radicais” como, e bem, disse Marcelo) terem seguido até à assembleia e lá terem ficado até quase às duas da matina. Passado menos de uma semana, novamente dezenas de milhar foram até Belém, alguns ficaram até ao fim, até os “conselheiros” abandonarem o palácio à uma da matina. O conteúdo do protesto não sendo decalcado do “Manifesto do Partido Comunista” é também mais focalizado, anti-troika, governo e austeridade.

É de grande importância, que em ambos os casos, após os “organizadores” terem dado o protesto terminado, consideráveis sectores populares mais combativos terem dado continuidade ao protesto. As massas estão com mais ânimo e mais vontade de lutar que qualquer vanguarda. Ou dito de outra forma, a vanguarda não está nos partidos ou outros grupos mais ou menos organizados, mas em sectores radicalizados das massas. Isso foi mais visível a 21 de Setembro, no momento de apupar os “conselheiros” à saída do palácio, as “organizações” em grande medida já tinham abandonado o local, felizmente ficou o “povo radical” para dar uma conclusão ao dia. No dia 15 dá me ideia que a continuação do protesto em muito se deveu à esquerda não parlamentar. A icónica capa do público não é o que é por puro acaso (faixa do MAS em destaque), também não estou a dizer que foi absolutamente consciente. Este tipo de coisas acontece porque se criaram certas condições que mais facilmente favoreceram quem está em maior sintonia com os tempos (de resto o mais recente cartaz do BE, curto, directo e grosso, parece sinalizar também uma melhor perceção dos dias que correm, embora isto com o BE haja muita “volatilidade”).

4 – Quer a 15, quer a 21 a maior parte dos cidadãos em luta não atiraram garrafas, pedras ou petardos, não agitaram grades. Mas também não fugiram do confronto. Há um sector importante que mesmo não tendo ainda passado a uma confrontação mais aguerrida, a tolera, e está pronta a uma resistência não passiva em caso de algum ataque. A imagem do coro que canta enquanto rebentam os petardos, dá uma boa ideia desse espírito.

5 – É claro que da parte dos órgãos de repressão existe alguma incomodidade com o desempenho das suas funções. Não quero dizer que a polícia irá simplesmente baixar os braços (embora isso possa vir a acontecer e deva ser fomentado ao máximo), mas sem dúvida que as elites portuguesas não dispõe de instrumentos de repressão tão fidedignos como na Grécia ou noutras paragens da Europa, e já nem falo das forças armadas, onde só falta um apelo directo à insurreição! Para o sucesso dos protestos é fundamental diluir ao máximo a capacidade repressiva do regime, “os polícias são filhos do povo” e são… também têm contas para pagar, mulheres, filhos, irmãos e amigos e também estão a ser alvo do saque. É preciso manter a pressão psicológica (“cá fora a polícia, lá dentro os ladrões”; abraços e flores; contactos e perguntas directas cara a cara), mas também a pressão confrontacional (patada, arremesso, confronto directo), o famoso “pau e a cenoura”. Ou seja, parece-me fundamental desagregar a capacidade repressiva ao serviço da máfia organizada, para isso é preciso contacto directo amistoso, interpelação cara a cara, sem fugir de métodos mais aguerridos (em grandes protestos, há espaço e momento para as duas coisas).

6 – Neste momento o objectivo é impedir a implementação de mais negócios ruinosos e medidas de austeridade, derrubar o governo e ferir a troika. É possível alcança-lo. O recuo da TSU é já uma vitória das massas, tem de ser capitalizada ao máximo. Mais do que dissipar o protesto, esta conquista do movimento levanta o moral e mostra o que é possível alcançar.

É importante que a queda do governo (que neste momento é uma questão de tempo) se deva à “Rua” e que haja essa percepção. É importante que seja bem claro que a “Rua” é que foi responsável pela queda do governo e não um qualquer golpe palaciano. Mesmo que ocorra uma jogada palaciana é fundamental, no mínimo, que seja na sequência directa da luta na “Rua”. Porque se assim for, muito maior será a influência da “Rua” sobre o próximo governo e as sua políticas, muito maior será a influência daqueles que estão com e apoiam a “Rua”. Para a “Rua” derrubar o governo os protestos, tal como no dia 21, têm de ser o mais possível directos com o regime. Em locias onde eles estão, em espaços e momentos onde se estejam a tomar decisões. Onde a acção de massas possa influenciar concrectamente e não apenas simbólicamente as decisões, que mais não seja pelo incómodo causado, sendo que se deve caminhar para o bloqueio directo do processo de tomada de decisão… Outro elemento fundamental é a UNIDADE….

7 – Unidade – Para que a “Rua” derrube o governo é fundamental uma sólida aliança entre o movimento popular semi-inorgânico aka “indignados” com o movimento sindical. O Pacheco sabe (mais pó fim), esse é o pesadelo das elites.

8 – “a falta de organização politica das massas convocadas pelo Bloco de Esquerda é confrangedora.” Disse alguém na caixa de comentários deste blog aproposito deste episódio… Ó meus amigos estão à espera que os milhões que agora entram na História tenham todos um elevado nível de cultura política e sofisticadas interpretações ideológicas do que se está a passar?

Sempre que as massas entram em cena há elementos e pulsões que poderíamos apelidar de “reaccionárias”, há sempre atitudes um tanto ou quanto irracionais, é mesmo assim. É preciso ter em linha de conta estas atitudes um tanto ou quanto alucinado-reaccionárias. Pensar que a revolução será feita por um exército altamente disciplinado e politicamente consciente é pura ilusão. MAIS é contra-revolucionário de facto, pois qualquer revolução, tendo de ter esta componente de acção de massas terá sempre episódios deste género (que devem ser entendidos, mas atenuados/controlados o mais possível, muita pedagogia)

Vejamos o que diz Lenine,

“To imagine that social revolution is conceivable without revolts by small nations in the colonies and in Europe, without revolutionary outbursts by a section of the petty bourgeoisie with all its prejudices, without a movement of the politically non-conscious proletarian and semi-proletarian masses against oppression by the landowners, the church, and the monarchy, against national oppression, etc.-to imagine all this is to repudiate social revolution. So one army lines up in one place and says, “We are for socialism”, and another, somewhere else and says, “We are for imperialism”, and that will be a social revolution!

Only those who hold such a ridiculously pedantic view could vilify the Irish rebellion by calling it a “putsch”. Whoever expects a “pure” social revolution will never live to see it. Such a person pays lip-service to revolution without understanding what revolution is.

O que há a realçar e verdadeiramente relevante sobre o que se está a passar nas últimas semanas não são bocas mesquinhas, tacanhas, básicas e sectárias do tipo “a falta de organização politica das massas convocadas pelo Bloco de Esquerda é confrangedora”. Quem tem isto para dizer acerca do que se está a passar em Portugal não sabe distinguir uma revolução de um pudim flan!

9 – O movimento em Portugal está integrado num mais vasto processo de luta. Uma semana antes do 15 de Setembro ocorreu uma manifestação em Barcelona com 1.5 milhões de Catalães a exigirem a independência face ao jugo Castelhano. Em Madrid no mesmo 15 de Setembro também houve um protesto massivo. O “Outono Quente”, não será apenas Português, será no mínimo Ibérico.

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