Carta a Chico Buarque

Publicado hoje no i

Escrevo-te umas horas antes de o Presidente da República falar ao país, na certeza de que tudo fará para preservar o poder podre que ajudou a construir.
Sábado passado, foi bonita a festa, pá. Velhos e novos, enchemos as ruas do país. Gritámos basta por aqueles que estão, pelos que tiveram de partir e pelos que querem regressar. Há ano e meio, já o tínhamos feito, mas não encontrámos a semente perdida que cantas estar no canto do jardim.
Como tantos outros, o Nuno e a Linda, que tanto trabalharam para fazer Abril em Março, tiveram de partir para aí.
Foram 30 anos a convencerem-nos de que “eles” são todos iguais e que não há alternativa a viver mal e explorado. Fizeram-nos odiar os sindicatos que nos pertencem. Fizeram-nos pensar que não somos políticos. Fizeram-nos acreditar que não podemos decidir, que vivemos acima das nossas possibilidades e que, se nos revoltarmos, estaremos a comprometer o futuro dos nossos filhos.
Por falar em filhos, nasceu o Daniel. O Filipe decidiu começar um blogue para, no futuro, ajudar o Daniel a perceber melhor os tempos em que nasceu. Explica-lhe o que se está a passar. Porque o povo saiu à rua. Porque não nasceu perto de casa. Porque a mãe ficou com muito tempo livre e não sabe quando conseguirá ter menos tempo.
Mas isto vai. As pessoas perceberam que têm de navegar e parece que polícias e militares estão do nosso lado. Cheira a Primavera, pá.
No próximo sábado, voltamos à rua.

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2 respostas a Carta a Chico Buarque

  1. De diz:

    Um bom texto, pá.

  2. Estamos na rua a dizer-lhes que se vão embora e deixem de vender Portugal. Quando eles partirem mesmo é que a festa vai ser boa. Então esperamos por ti

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