A insustentável leveza do Bloco de Esquerda

A direcção do Bloco de Esquerda, agora livre de qualquer vergonha e sem mais razões para mitigar velhos desejos, candidata-se pela Moção A, que defende abertamente um governo com o PS“A alternativa ao governo de Passos Coelho e Portas é um governo de esquerda, sublinhou. Esta proposta é feita como um convite e um desafio à esquerda portuguesa, “ao PS em particular”.

Para que não se feche o caminho da boda, sublinham-se os termos, extraordinariamente ambiciosos, de um eventual programa de governo: “renegociar a dívida em prazos e juros com todos os credores públicos e privados, nacionais e internacionais, porque sem essa renegociação é impossível a recuperação da economia, dos rendimentos do trabalho, das pensões, e também é impossível pagar qualquer dívida.” Em paralelo, lembram que para lá chegar é preciso que o PS rompa com a troika, o que deixa qualquer um preocupado com a memória colectiva do BE. Será que não se lembram que foi o PS que serviu de mordomo? Será que não recordam o que é o PS, com ou sem troika?

O que vale é que a oposição, que se candidata na Moção B, conseguiu juntar a Helena Carmo e o Daniel Oliveira na defesa da mesma orientação estratégica, o que por si só, imbuído do sentido patriótico que se exige no actual contexto, é o garante de um texto fecundo. Excepção feita à dimensão bicefala através da qual divulgam as políticas defendidas pelo partido e de uma eventual acusação de sabotagem cibernética, uns e outros não parecem discordar no essencial da orientação proposta pela direcção cessante.

A esquerda que veio acrescentar esquerda à esquerda, refundar a esperança, abrir as portas do futuro, esboroa-se assim, tal qual previam todos os profetas da desgraça, numa batalha eleitoral lado a lado com o PS, capaz de abraçar o desígnio de liquidar o saque da banca até ao último cêntimo da dívida, “pública e privada”, “nacional e internacional”, e de, intui-se, resolver a crise política que está a abalar os pilares mais sólidos do regime.

Sobrará alguém para começar de novo?

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

23 Responses to A insustentável leveza do Bloco de Esquerda

Os comentários estão fechados.