Que fazer, cidadãos?

As sondagens, muito é repetido, “valem o que valem”.

E uma forma de dar conteúdo e sentido a esse lugar-comum que pouco valerá é lembrar que, sendo embora as sondagens contabilizações de conjunturais tomadas de posição políticas de quem a elas responde, não são necessariamente intenções de voto, e muito menos votos em urna.

Mas, assumido isto, se um tipo de sondagem regularmente feita pela mesma instituição, seguindo sempre as mesmas técnicas e amostragens, apresenta agora resultados avassaladoramente diferentes e que, ainda por cima, são corroborados de forma clara por acontecimentos (excepcionais ou quotidianos e corriqueiros) que cada um de nós viu nos tempos mais recentes, então o caso pia mais fino. Os resultados de uma sondagem assim revelam, no mínimo, uma fortíssima predisposição para a mudança polítiva e eleitoral.

Acontece que são resultados avassaladoramente diferentes (e coerentes com as dinâmicas sociais mais recentes) aqueles que nos são apresentados na sondagem da Universidade Católica há pouco divulgada.

Mostrando os números em bruto ou (entre parentesis) sem brancos e nulos, conforme costuma ser feito nestas ocasiões, a coisa dá:

PS – 31% (34,8)
PSD – 24% (27)
CDU – 13% (14,6)
BE – 11% (12,4)
CDS – 7% (7,9)
outros – 3% (3,4)

Que fazer, nestes tempos tão rapidamente mutáveis, com esta “predisposição para a mudança polítiva e eleitoral” dos nossos concidadãos, tão claramente ligada à recusa das políticas de austeridade e de saque aos trabalhadores, reformados e desempregados (primeiro saqueados do seu emprego e, depois, dos seus direitos à segurança social)?

Sobretudo, o que fazer, perante a plausibilidade de resultados eleitorais em que a CDU e o BE – somados – tenham tantos votos como o PSD, para que daí saísse um governo e/ou acordo PS/CDU/BE (inevitavelmente, para existir, de alternativa ao memorando de troika) e não PS/PSD ou quejandos (também inevitavelmente, de continuidade das políticas actuais, com uma maquilhagem um pouco menos repelente)?

Temo bem que todos nós – cidadãos que dissémos e dizemos “não” às políticas do  memorando, da austeridade, do empobrecimento e da destruição do emprego, das vidas, da dignidade, da estabilidade, dos direitos e dos serviços e apoios sociais de quem trabalha, trabalhou ou quer vir a trabalhar – estaríamos bem lixados se a possibilidade de um acordo e governo à esquerda, em ruptura com o presente e com “mais do mesmo”, ficasse apenas nas mãos dos partidos de esquerda.

Isto porque, por um lado, os partidos de esquerda (incluindo aquele em que cada um de nós esteja eventualmente filiado) não “fizeram os trabalhos de casa” para inventarem e clarificaram, num todo global e coerente, o que é que querem como alternativa à situação actual, que sabem não querer.

E sobretudo porque, por outro lado, desde  há décadas se centram em enfatizar os pontos que os separam (em vários casos muito relevantes, é verdade), as diferenças nas suas culturas e patrimónios políticos, os confrontos e ódios que tiveram no PREC, e em camuflar e negar perante si próprios o  muito que têm em comum e acerca do qual se podem entender, sobretudo numa situação de acelerada revolução reaccionária, como a que vivemos.

É verdade que processos desses, de enfatizar diferenças e escamotear semelhanças, são essenciais para se construírem as identidades individuais e colectivas – tal como, aliás, os espíritos de grupo, os nacionalismos, os machismos, as homofobias, os racismos, as xenofobias e os genocídios.

Mas são também, neste caso e na situação presente, obstáculos que as instituições partidárias não conseguirão ultrapassar, a menos que sejam a isso forçadas, pondo em causa a possibilidade de (sequer um esforço de) entendimento em torno de uma plataforma mínima comum – por muito que a recusa ou desistência de a tentar construir seja, na situação actual, simplesmente criminosa.

Neste quadro, ou cada um de nós – cidadãos que não aceitamos este estado de coisas e queremos uma alternativa de ruptura com ele – desiste dessa veleidade e, caso pertença a um partido, se passa a preocupar simplesmente com o número de deputados de que ele disporá para reclamar contra uma política de “mais do mesmo” (ou para a executar), ou então deverá empenhar-se desde já em criar condições para, com plausibilidade de sucesso, forçar um diálogo dos partidos de esquerda com vista à consensualização de uma plataforma governativa que, sendo uma alternativa de ruptura com a lógica austeritária e de empobrecimento sem direitos, seja também viável nos quadro de constrangimentos existente e ganhadora.

 Existe um espaço para o fazer.

Partindo de um terreno comum de recusa do memorando da troika e das políticas austeritárias e empobrecedoras, o Congresso Democrático das Alternativas, a realizar no próximo dia 5 de Outubro, tem como objectivo detectar e consensualizar os máximos denominadores comuns entre os seus participantes e estruturá-los numa plataforma que espelhe, simultaneamente, uma alternativa viável e politicamente alargada àquilo que tem vindo a ser apresentado como o único caminho possível nestes tempos de crise e, por outro lado, uma base alargada de propostas que sejam aceitáveis dentro do espectro político (partidário ou não) que se disponha a soluções de ruptura com as políticas actuais.

Esse instrumento será tanto melhor quanto maior for a participação, em propostas e debate, dos cidadãos que não estejam dispostos a desistir.

Para que, tendo na mão uma plataforma com que cada partido de esquerda terá dificuldade em conseguir discordar, os cidadãos, com partido ou sem ele, os possam pressionar e “encostar à parede”, não lhes deixando nenhuma outra solução digna se não entenderem-se – seja com base nessa papinha já feita, seja em torno de uma plataforma mais ampla que consigam negociar.

Ou então, repito, podemos resignar-nos a que venha mais do mesmo – absolvendo-nos mutuamente dentro do nosso partido, movimento ou grupo de amigos, com a velha e piedosa ideia de que a culpa é dos outros todos, porque não são exactamente como nós.

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